31 dezembro, 2015

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. VII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit-Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

7 – (1): Conto entre os piores os que nunca estão disponíveis para nada, senão para o vinho e os prazeres sensuais, pois não há ocupação mais vergonhosa. Outros, embora se prendam à imagem vazia da glória, contudo erram honradamente; podes me enumerar os avarentos, os turbulentos, ou os que se entregam a ódios e guerras injustas: todos estes pecam de uma maneira mais viril. Mas os que se entregam à gula e aos prazeres sensuais ostentam uma degradação (2) desonrosa. Examina todo o tempo deles: verifica quanto gastam em cálculos avaros, quanto em preparar emboscadas, quanto temendo-as, quanto bajulando, quanto sendo bajulados; e quanto tempo ocupam em compromissos judiciários, seus ou alheios, ou com banquetes – que já se tornaram mesmo uma obrigação: verás que nem seus bens, nem seus males, os deixam respirar. (3) Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não pode se dedicar à eloqüência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de aprender. Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a ensiná-las. Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida (4) toda é um aprender a morrer. Muitos dos maiores homens, tendo afastado todos os obstáculos e renunciado às riquezas, a seus negócios e aos prazeres, empregaram até o último de seus dias para aprender a viver, contudo muitos deles deixaram a vida tendo confessado ainda não sabê-lo – e muito menos ainda (5) o sabem os que mencionei acima. Creia-me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, e assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. Nem um instante dela permaneceu descuidado ou ocioso, ou esteve subordinado a um outro e, portanto, ele, seu guarda parcimonioso, não encontrará ninguém que julgue ter vivido dignamente a ponto de querer trocar sua vida com a dele. Portanto, a este seu tempo foi suficiente, mas àqueles que tiveram muito de sua vida subtraído (6) pelo povo, ela necessariamente faltou. E nem por isso há motivo para pensares que eles às vezes não compreendem seu erro. Certamente ouvirás muitos dos que são esmagados por sua grande prosperidade, vez por outra, exclamar de entre a multidão de clientes, ou de seus processos jurídicos, ou de outras honoríficas misérias: “Não me deixam viver!” E haveriam de (7) deixar? Todos os que te reclamam para si te afastam de tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos? E aquele amigo poderoso, que te mantém, não em sua amizade, mas em seu cortejo? Faz o cômputo dos dias de tua vida: verás que restaram muito poucos dias para ti mesmo. (8) Tendo aquele obtido os cargos com que tanto sonhava, deseja abandoná-los e repete incessantemente: “Quando este ano passará?” Outro proporciona espetáculos públicos, que tanto desejou que lhe fossem cabidos por sorte, e agora diz: “quando me livrarei deles?” Disputa-se tanto para ouvir aquele advogado, que ele enche de uma grande multidão todo o fórum, até para além de onde pode ser ouvido. “Quando” diz ele – “me livrarei disto?” Cada um faz precipitar sua vida e (9) padece da ânsia do futuro e de tédio do presente. Mas o que emprega todo o tempo consigo próprio, que ordena cada dia como se fosse uma vida, nem deseja o amanhã, nem o teme. Pois que novo prazer há, que qualquer hora lhe possa imediatamente trazer? Tudo lhe é conhecido, tudo foi desfrutado até a saciedade. Do resto, que a Fortuna disponha como queira: a vida já lhe foi assegurada. Nada se lhe pode adicionar ou arrebatar, e, mesmo que algo se acrescente a ela, seria como se alimentassem alguém já farto de alimentos quaisquer: estará recebendo algo que nem mais (10) deseja. Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por muito tempo. Pensarias ter navegado muito, aquele que, tendo se afastado do porto, foi apanhado por violenta tempestade, errou para cá e para lá e ficou a dar voltas, conforme a mudança dos ventos e o capricho dos furacões, sem contudo sair do lugar? Ele não navegou muito, mas foi muito acossado.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


Creia-me,
é próprio de um grande homem
e de quem se eleva acima dos erros humanos,
não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida,
e assim toda sua vida é muito longa,
uma vez que se dedicou todo a si próprio,
não importa quanto ela tenha durado.

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. VIII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit-Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

8 – (1): Costumo estranhar quando vejo alguns pedindo tempo, e aqueles a quem se pede mostrarem-se muito complacentes; ambos consideram aquilo pelo que se pede tempo, nenhum, o tempo mesmo: parece que nada se pede e que nada é dado. Brinca-se com a coisa mais preciosa de todas; contudo ela lhes escapa sem que percebam, pois é um incorporal e algo que não salta aos olhos, por isso é considerado muito desprezível, e em razão disto não lhes atribuem valor algum. (2) Os homens recebem pensões e aluguéis com muito prazer e concentram neles suas preocupações, esforços e cuidados, mas ninguém dá valor ao tempo; usa-se dele a rédeas soltas, como se nada custasse. Porém, quando doentes, se estão próximos do perigo de morte, prostram-se aos joelhos dos médicos; ou, se temem a pena capital, estão prontos a gastar todos os seus bens para viver. Tamanha é a discórdia de seus (3) sentimentos! Se fosse possível apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que podemos fazer com os passados, como tremeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os poupariam! Pois, se é fácil administrar o que, embora curto, é certo, deve-se conservar com muito cuidado o que não se pode saber (4) quando há de acabar. Contudo não há por que pensar que eles ignoram que coisa preciosa é o tempo: costumam dizer aos que amam muitíssimo que estão dispostos a lhes dar parte de seus dias. E realmente dão, sem se aperceberem disto, mas dão de forma a subtraírem vários anos a si, sem aumentar os daqueles. Mas ignoram o fato mesmo de estarem perdendo seus anos, por isso lhes é tolerável a perda de um bem que não é (5) notado. Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo. Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso, nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


Ninguém devolverá teus anos,
ninguém te fará voltar a ti mesmo.

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. IX


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit-Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

9 – (1): Pode haver algo mais estúpido que o modo de ver de alguns, falo daqueles que deixam de lado a prudência. Ocupam-se para poder viver melhor: armazenam a vida, gastando-a! Fazem seus planos a longo prazo; no entanto protelar é do maior prejuízo para a vida: arrebata-nos cada dia que se oferece a nós, rouba-nos o presente ao prometer o futuro. O maior impedimento para viver é a expectativa, a qual tende para o amanhã e faz perder o momento presente. Do que está nas mãos da Fortuna, dispões; o que está nas tuas, despedes. Para onde ficas a olhar? Para que tendes? Tudo que está por vir se assenta na incerteza: desde (2) já, viva! Proclama o maior dos poetas e, como inspirado por divinos lábios, canta este canto de salvação: “Os melhores dias da vida dos tristes mortais São os primeiros a fugir.” “Por que hesitar?” – diz ele – “por que ficar sem nada fazer? Se não ocupares o dia, ele fugirá” E, contudo, se o tiveres ocupado, ainda fugirá; portanto deve-se lutar contra a celeridade do tempo usando de velocidade, tal como se deve beber depressa de uma (3) corrente rápida e que não fluirá para sempre. O poeta emprega magnificamente as palavras para censurar a infinita contemporização, pois diz “o melhor dia”, e não “a melhor idade”. Como é que tu, seguro e demorado em meio a uma tão grande fuga de tempo, dispões para ti os meses e os anos, numa longa série, de acordo com tua avidez? O poeta fala do dia, e deste (4) mesmo dia que está fugindo. Acaso se duvida que os melhores dias fujam primeiro aos míseros mortais, isto é, aos ocupados? A velhice oprime tanto seus espíritos pueris que chegam a ela surpresos e desarmados, pois nada em sua vida foi previsto: bruscamente e desprevenidos nela caíram; não a sentiam chegar (5) diariamente. Tal como uma conversa ou uma leitura ou alguma reflexão mais séria distrai os viajantes, que se vêem chegados ao destino sem notar que dele se aproximavam, assim esta contínua e tão rápida caminhada da vida, que dormindo ou acordados fazemos no mesmo passo, aos ocupados não aparece senão no fim.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


O maior impedimento para viver é a expectativa, a qual tende para o amanhã e faz perder o momento presente.

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. X


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit-Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

10 – (1): Quisesse eu dividir minha tese em tópicos e argumentos, ocorrer-me-iam muitos exemplos, pelos quais provaria que é muito breve a vida dos ocupados. Costumava dizer Fabiano, que não era um desses filósofos acadêmicos, mas um dos verdadeiros e antigos: “contra as paixões deve-se lutar com arrojo, não com sutilezas; e deve-se romper a linha de batalha com um grande assalto, não com tímidas tentativas”. Não aprovava sofismas: “pois devemos vencer as paixões, não espicaçá-las”. Contudo, para demonstrar às suas vítimas seu desvario, devemos instruí-las, não lamentá-las. (2) A vida divide-se em três períodos: o que foi, o que é, e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo. Pois, sobre este último, a Fortuna perdeu os direitos: (3) é o que não se submete ao arbítrio de ninguém. Eis o que escapa aos ocupados, pois eles não têm tempo para reconsiderar o passado e, mesmo se tivessem, ser-lhes-ia desagradável a recordação de uma coisa da qual se arrependem. Portanto é a contragosto que voltam seus pensamentos ao tempo mal empregado e não ousam reviver aquelas horas, cujos vícios, embora estivessem dissimulados pelo atrativo de um prazer momentâneo, (4) desvendam-se com a recordação. Ninguém se voltará de bom grado ao passado, exceto aquele cujas ações estão todas submetidas à censura de sua consciência, que nunca se engana. Aquele que ambiciosamente muitas coisas cobiçou, orgulhosamente desprezou, insolentemente venceu, traiçoeiramente enganou, desonestamente roubou e prodigamente dissipou seus bens, necessariamente terá que temer suas próprias recordações. Ora, de nossa vida, esta é a parte inviolável e já consagrada, que está acima de todas as vicissitudes humanas, que foi subtraída ao império da Fortuna e que não pode ser afetada pela pobreza, nem pelo medo, nem pelo assédio das doenças. Não se pode perturbá-la ou roubá-la de seu possessor, pois sua posse é perpétua e livre de receios. Os dias apresentam-se a nós um a um e momento por momento, entretanto todos os dias do passado se apresentarão a nós quando ordenarmos, e consentirão em ser apropriados e examinados à vontade – coisa que os ocupados não têm (5) tempo de fazer. É próprio de uma mente segura de si e sossegada poder percorrer todas as épocas de sua vida; mas o espírito dos ocupados, tal como se estivesse subjugado, não pode se voltar sobre si mesmo e se examinar. Portanto sua vida se precipita num abismo; e, tal como não é de nenhum proveito procurar encher uma ânfora, por mais que nela se coloque líquido, se não há fundo que o receba ou sustenha, assim também não importa quanto tempo tens à disposição: se não tens como retê-lo, ele vazará como de almas rachadas (6) e furadas. O tempo presente é brevíssimo, tanto que a alguns parece não existir, pois está sempre em movimento; flui e precipita-se; deixa de ser antes de vir a ser; é tão incapaz de deter-se, quanto o mundo ou as estrelas, cujo infatigável movimento não lhes permite permanecer no mesmo lugar. Pertence, pois, aos ocupados, apenas o tempo presente, que é tão breve que não pode ser abarcado; e este mesmo escapa-lhes, ocupados que estão em muitas coisas.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


" “contra as paixões deve-se lutar com arrojo, não com sutilezas; e deve-se romper a linha de batalha com um grande assalto, não com tímidas tentativas” "

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XI


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

11 – (1): Enfim, queres saber quão pouco vivem os ocupados? Vê como desejam viver longamente. Velhos decrépitos mendigam em suas orações um acréscimo de uns poucos anos; procuram parecer menos idosos e lisonjeiam-se com mentiras e encontram tanto prazer em enganar a si próprios, que é como se enganassem junto o destino. Mas, quando uma enfermidade qualquer adverte-os de que são mortais, morrem tomados de pavor, não como se deixassem a vida, mas como se ela lhes fosse arrancada. Ficam gritando que foram tolos em não viver e que, se por acaso escaparem da doença, haverão de viver no ócio; então, tomam consciência de quão inútil foi adquirir o que não desfrutaram, e de como todos os seus esforços resultaram em (2) vão. Mas para aquele cuja vida esteve livre de preocupações, por que não haveria ela de ser longa? Dela nada foi transferido a um outro, nada foi atirado a um e outro lado, nada foi dado à Fortuna, nada desperdiçado por negligência, nada foi esbanjado com prodigalidade, nada ficou sem ser empregado: toda ela, por assim dizer, teve proveito. E, deste modo, por mais curta que seja, ela é mais que suficiente; e portanto, quando lhe vier o último dia, o sábio não hesitará em caminhar para a morte com passo firme.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"Velhos decrépitos mendigam em suas orações um acréscimo de uns poucos anos; procuram parecer menos idosos e lisonjeiam-se com mentiras e encontram tanto prazer em enganar a si próprios, que é como se enganassem junto o destino."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

12 – (1): Talvez tu me perguntes a quem eu chamo de “ocupados”. Não há por que pensar que entendo serem ocupados apenas aqueles contra os quais se mandam os cães para expulsá-los da basílica, ou os que vemos sobressair, seja orgulhosamente em meio à multidão de seus clientes, seja desprezivelmente da de outro, ou aqueles cujos compromissos obrigam a abandonar os seus lares para irem bater à porta do outro ou aqueles a quem a lança do pretor põe ocupados devido a um (2) lucro infame e que um dia haverá de apodrecer. O ócio de alguns é ocupado: quer em sua vila ou em seu leito, quer em meio à solidão, mesmo quando estão afastados de todos, eles próprios prejudicam a si mesmos; não devemos chamar sua vida de ociosa, mas de ocupação indolente. Por acaso chamas de ocioso o que coleciona, com escrupuloso cuidado, os bronzes coríntios, preciosos devido à mania de uns poucos, e consome a maior parte de seus dias em meio a ferrugentos pedaços de metal? E o que se senta num ginásio (que vergonha! os vícios dos quais somos vítimas e que nem mesmo são romanos), para apreciar as pelejas dos rapazes que se estapeiam? E o que classifica seus rebanhos de cavalos segundo a cor e a idade, ou os que (3) patrocinam os mais novos campeões de atletismo? Quê? Tu chamas ociosos os que passam muitas horas no cabeleireiro, aparando o que cresceu na noite anterior, discutindo a respeito de cada fio de cabelo, colocando em ordem as madeixas desarranjadas, ou ajeitando sobre a testa as que estão falhas aqui e ali? Como ficam irados, se o barbeiro foi um pouco negligente, crendo que estava a aparar os cabelos de um verdadeiro homem! Como se encolerizam, se algo de sua cabeleira foi cortado, se algo está fora de ordem, se tudo não cai em seus devidos cachos! Qual destes não preferiria ver a desordem na República, a ver a de seus cabelos? Quem não se preocupa mais com a elegância de sua cabeça do que com sua saúde? Qual não prefere ser bem penteado a ser honesto? Tu chamas ociosos os que se (4) preocupam com pentes e espelhos? E quanto àqueles que se ocupam em compor, ouvir e aprender canções, e atormentam a voz, cuja reta entoação a Natureza fez muito simples e a melhor, com inflexões de desajeitadas modulações? Eles estão sempre a estalar os dedos, marcando alguma canção que têm na cabeça e, mesmo quando são chamados para questões sérias e freqüentemente tristes, ouvimos seu imperceptível cantarolar. (5) Eles não têm ócio, mas ocupações indolentes. Nem, por Hércules, considero seus festins como tempo livre, uma vez que vejo com quanta solicitude dispõem a prataria, quão diligentemente ajeitam as túnicas de seus jovens prediletos, quão ansiosos ficam por saber como o javali sai das mãos do cozinheiro, ou com que velocidade os escravos jovens, a um dado sinal, correm às suas obrigações, com quanta perícia as aves são cortadas em bocados não muito grandes, ou quão cuidadosamente os infelizes escravos limpam o vômito dos bêbados. É por estes meios que adquirem a fama de serem elegantes e faustosos, e seus males perseguem-nos até mesmo nos menores detalhes da vida, de modo que eles não (6) podem comer nem beber sem afetação. Eu não contaria entre os ociosos aqueles que se fazem transportar para cá e para lá em carruagens ou liteiras, e observam pontualmente a hora de seus passeios, como se não lhes fosse lícito perdê-los; nem os que se fazem lembrar por outro quando devem banhar-se, nadar ou comer: seus espíritos extraordinariamente débeis estão tão enfraquecidos pela lassidão, que eles nem mesmo podem decidir por si sós se têm fome! Já ouvi um desses delicados (se é que se pode chamar de delícias o fato de desaprender os hábitos da vida humana), ao ser retirado do banho e colocado numa cadeira, perguntar: “Ainda estou sentado?” Tu crês que este, que ignora até se está sentado, sabe se vive, se vê, se é ocioso? Não poderia dizer de pronto o que lamento mais: ele (7) realmente não saber ou fingir não sabê-lo. Esses esquecem-se realmente de muitas coisas, mas também fingem esquecer de muitas outras. Certos vícios deleitam-nos como se fossem provas de felicidade: parece-lhes próprio de um homem muito baixo e desprezível saber o que faz. E agora não vás crer que os mimos exageram quando ridicularizam a luxúria. Estes, por Hércules, ultrapassam em muito as invenções dos mimos, e neste nosso século, engenhoso apenas para tais coisas, os vícios progrediram tanto que já podemos acusar os mimos de negligência. É o cúmulo: haver alguém que está tão atolado na luxúria, que se fia na palavra de um (8) outro para saber se está ou não sentado! Portanto esse aí não é ocioso; dá-lhe outro nome: ele está doente, ou, melhor ainda, está morto. É ocioso o que é também consciente de seu lazer. Mas este semi-vivo, que precisa de alguém que lhe indique a postura do próprio corpo, como poderia ser senhor de um momento sequer de sua vida?

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"Qual destes não preferiria ver a desordem na República, a ver a de seus cabelos? "

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XIII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

13 – (1): Seria alongar demais percorrer todos os exemplos daqueles que desperdiçaram suas vidas em jogos de xadrez, bola, ou queimando-se ao sol. Não gozam de ócio aqueles cujos prazeres trazem muitas ocupações. Pois ninguém duvidará que muito se fatigam sem nada obrar, os que se prendem a inúteis questões de (2) literatura – e eles já são multidão entre os romanos! Foi um vício dos gregos investigar quantos remadores teve Ulisses, se a Ilíada ou a Odisséia foi escrita primeiro e, além disso, se eram de um mesmo autor, e outros conhecimentos dessa espécie, que, se os reservas para ti mesmo, em nada deleitam o intelecto, se os publicas, não serás tido por mais douto, mas por mais (3) enfadonho. E eis que esta frívola paixão de aprender inutilidades apossou-se também dos romanos. Há alguns dias ouvi certa pessoa relatando qual foi o primeiro dos generais a fazer tais e tais coisas; que Duílio foi o primeiro a vencer numa batalha naval, que Cúrio Dentato foi o primeiro a conduzir elefantes no seu cortejo triunfal. Mas esses assuntos, ainda que não conduzam à verdadeira glória, versam sobre exemplos de feitos cívicos; tal ciência não acarreta benefício algum, embora nos prenda a atenção pela futilidade dos feitos. (4) Perdoemos também aos que pesquisam assuntos como este: quem foi o primeiro a persuadir os romanos a embarcar num navio. Foi Cláudio, e por este mesmo motivo cognominado “Caudex”, porque entre os antigos a reunião de várias tábuas chamava-se “caudex”; daí o nome de “codices” às tábuas da lei, e, ainda hoje, as naves que carregam provisões pelo Tibre são (5) chamadas, segundo a maneira antiga, de “codicariae”. Sem dúvida, isto pode ser de algum valor: que Valério Corvino foi o primeiro a subjugar Messina e, tendo tomado para si o nome da cidade conquistada, foi o primeiro da família dos Valérios a denominar-se Messana; e que, tendo sido trocadas as letras por uma gradual corruptela da linguagem popular, chamou-se (6) Messala. Porventura permitirás a alguém ocupar-se também disto: que Lúcio Sulla foi o primeiro a apresentar os leões soltos no Circo, enquanto que anteriormente eram apresentados acorrentados, e que foram enviados arqueiros pelo rei Boco para exterminá-los? Que seja! Façamos também essa concessão. Mas acaso há um mínimo de valor em saber que Pompeu foi o primeiro a proporcionar um combate no Circo com dezoito elefantes, tendo-se enviado criminosos para enfrentá-los, como se fosse uma batalha? O primeiro dos cidadãos e, segundo o que a fama nos legou, homem que sobressaiu entre os antigos líderes por sua bondade, julgou ser um novo tipo de espetáculo digno de memória matar homens de um modo novo. Combatem até a morte? – É pouco. Despedaçam-se? É pouco. (7) Que sejam esmagados por uma enorme massa de animais! Seria suficiente que esses assuntos passassem ao esquecimento, para que posteriormente um prepotente qualquer não aprendesse e invejasse uma ação tão desumana. Quantas trevas uma grande fortuna causa às nossas mentes! Acreditou estar acima das Leis da Natureza quando lançou aquele bando de miseráveis a feras nascidas sob outros céus, quando proporcionou um combate entre animais tão desiguais, quando fez verter tanto sangue diante dos olhos do povo romano – ele, que em breve seria forçado a verter mais ainda. Mas, logo em seguida, o mesmo Pompeu, traído pela deslealdade Alexandrina, entregou-se ao último dos escravos para ser abatido; só então compreendeu a vã (8) ostentação de seu Cognome. Mas, para que retorne ao ponto de onde me desviei e para que mostre a inutilíssima diligência de alguns nestes mesmos assuntos: aquele mesmo erudito contava que Metelo, tendo vencido os cartagineses na Sicília, foi o único de todos os romanos a conduzir em seu triunfo cento e vinte elefantes diante do carro, e que Sulla foi o último dos romanos a aumentar o “pomerium”, coisa que, segundo os costumes antigos, só se fazia após a conquista de territórios italianos, e nunca provinciais. Há alguma utilidade maior em saber que o monte Aventino, como assegurava aquele, situa-se para além do “pomerium” por uma dessas duas razões: ou porque a plebe tenha-se afastado daí, ou porque, quando Remo tomava os auspícios, o vôo das aves não foi favorável – e ainda outros inumeráveis conhecimentos, que, ou estão abarrotados de mentiras, ou são desta natureza? (9) Pois mesmo que se admita que eles contam essas coisas todas de boa fé e que se responsabilizam pelo que foi escrito, contudo esses conhecimentos servirão para minorar os erros de alguém? Refrearão as paixões de alguém? Farão alguém mais generoso, mais corajoso, mais justo? Às vezes meu caro Fabiano dizia duvidar se era melhor não empreender estudo algum do que se envolver com os deste gênero.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"Seria alongar demais percorrer todos os exemplos daqueles que desperdiçaram suas vidas em jogos de xadrez, bola, ou queimando-se ao sol."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XIV


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

14 – (1): Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem a sua vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. A menos que sejamos os maiores dos ingratos, aqueles fundadores das sublimes filosofias nasceram para nós, e eles nos preparam o caminho para a vida. Graças aos seus esforços, conduzem-nos das trevas à luz, aos mais belos conhecimentos. Não nos é vedado o acesso a nenhum século, somos admitidos a todos; e se desejamos, pela grandeza da alma, ultrapassar os estreitos limites da fraqueza humana, há um vasto espaço de tempo a percorrer. (2) Poderemos discutir com Sócrates, duvidar com Carnéades, encontrar a paz com Epicuro, vencer a natureza humana com a ajuda dos estóicos, ultrapassá-la com os cínicos. Já que a Natureza nos permite entrar em comunhão com toda a eternidade, por que não nos desviarmos dessa estreita e curta passagem do tempo e nos entregarmos com todo nosso espírito àquilo que é ilimitado, eterno e partilhado com os (3) melhores? Os que se desdobram em muitos compromissos sociais, que agitam a si mesmos e a outros, bem conscientes de suas tolices, após terem percorrido diariamente as soleiras de todos e não ter deixado de entrar em nenhuma porta aberta, após terem levado sua interesseira saudação à volta das mais remotas casas, quão pouco não terão eles visto numa cidade tão grande e dilacerada por várias paixões! (4) Quantos haverá cujo sono, dissolução ou grosseria não os afastará? Quantos, após os terem torturado com uma longa espera, não passarão por eles fingindo estarem apressados? Quantos não evitarão aparecer no átrio repleto de clientes, escapando por portas secretas, como se fosse menor descortesia enganar do que despedir! Quantos, ainda meio adormecidos e pesados devido à embriaguez da noite anterior, responderão, àqueles pobres coitados que interromperam seu sono para esperar o despertar de um outro, com o bocejo mais arrogante, mal levantando os (5) lábios! Podemos afirmar que se dedicam a verdadeiros deveres, somente aqueles que desejam estar cotidianamente na intimidade de Zenão, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles, Teofrasto e os demais mestres da virtude. Nenhum deles deixará de estar à nossa disposição, nenhum despedirá o que o procurar, sem que o faça mais feliz e mais devotado a ele, nenhum permitirá a quem quer que seja partir de mãos vazias; e eles podem ser encontrados por qualquer homem, tanto durante o dia como à noite.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"A menos que sejamos os maiores dos ingratos,
aqueles fundadores das sublimes filosofias nasceram para nós,
e eles nos preparam o caminho para a vida.
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XV


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

15 – (1): Nenhum destes forçará tua morte, todos te ensinarão a morrer, nenhum dissipará teus anos, mas te oferecerá os seus. Nunca a conversação com eles será perigosa, fatal a amizade ou onerosa a deferência. Conseguirás deles tudo o que quiseres: não será deles a culpa (2) se não tiveres exaurido tudo o que desejas. Que felicidade, que bela velhice não aguarda o que se dispôs a ser seu cliente! Ele terá com quem discutir sobre as menores, bem como sobre as maiores, questões, a quem consultar diariamente sobre si mesmo, de quem ouvir a verdade sem ofensa e ser louvado sem adulação, a cuja (3) semelhança se possa moldar. Costumamos dizer que não está em nosso poder escolher os pais que a sorte nos destinou, mas que nos foram dados ao acaso; contudo é nos permitido ter um nascimento segundo a nossa escolha. Existem famílias dos mais nobres espíritos: escolhe a qual delas queres pertencer, e receberás não apenas seu nome, mas também seus próprios bens, que não terás de vigiar miserável e mesquinhamente, pois, quanto mais forem partilhados pelos homens, maiores (4) se tornarão. Estes te darão o acesso à eternidade, te elevarão àquelas alturas de onde ninguém se precipita.

Esta é a única maneira de prolongar a existência mortal e, até mais, de convertê-la em imortalidade. As dignidades, os monumentos, tudo o que a ambição impôs por decretos, ou construiu com o suor, depressa há de cair em ruínas: não há nada que a longa passagem dos anos não destrua ou desordene. Mas ela não pode tocar nos conhecimentos que a sabedoria consagrou, nenhuma idade os destruirá ou diminuirá, a seguinte e as sucessivas sempre hão de aumentá-los ainda mais: pois a inveja tem olhos apenas para o que está próximo de si, e admiramos com menos malícia o que está (5) distante. Portanto a vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está confinado nos mesmos limites que os outros. É o único a não depender das leis do gênero humano: todos os séculos servem-no como a um deus. Algo distancia-se no passado? Ele recupera-o com a memória. Está no presente? Ele o desfruta. Há de vir no futuro? Ele o antecipa. A reunião de todos os momentos num só, torna-lhe longa a vida.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"(Sabedoria) Esta é a única maneira de prolongar a existência mortal e,
até mais, de convertê-la em imortalidade
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap.XVI


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

16 – (1): É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo ocupados em nada fazer. E, pelo fato de fazerem freqüentes apelos à morte, não há por que pensar que fica provado que eles tenham usufruído duma longa existência. Sua cegueira os atormenta com emoções incertas e que os faz incidir nas próprias coisas que temem: desejam então muitas vezes a morte, (3) porque os aterroriza. Não há ainda razão para se pensar que isto também seja uma prova de uma vida longa: – o fato de muitas vezes os dias lhes parecerem longos, ou porque se queixam de as horas custarem a passar até que chegue o momento do jantar; pois, se porventura as ocupações os abandonam, sentem-se desertados e inquietam-se mesmo no lazer, nem sabem como dispor dele ou matá-lo. Portanto anseiam por uma ocupação qualquer, e todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. E – por Hércules! – tal é o quê acontece quando se fixa a data dos combates de gladiadores, ou quando se aguarda o dia de um outro gênero qualquer de espetáculo ou divertimento: (4) desejam saltar os dias intermediários! A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido e torna-se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo. Seus dias não são longos, mas detestáveis, e, por outro lado, quão curtas não lhes parecem as noites que passam nos braços das prostitutas ou (5) entregues ao vinho! Daí também resulta o delírio dos poetas, que nutrem os descaminhos dos homens com ficções nas quais se mostra Júpiter, inebriado do desejo de coito, duplicando a duração da noite. Que outra coisa é, senão inflamar nossos vícios, quando os imputamos aos deuses e se concede a deferência da divindade a um exemplo de fraqueza? Podem estes não achar muito curtas as noites pelas quais pagam tão caro? Perdem o dia na espera da noite, a noite, de medo da aurora.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"Perdem o dia na espera da noite,
a noite,
de medo da aurora.
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap.XVII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

17 – (1): Seus próprios prazeres são desassossegados e agitados por vários terrores e, mesmo em meio à maior euforia, assalta-lhes o inquieto pensamento: “até quando, tudo isto?” Por causa desse sentimento, os reis lamentaram seu poderio, e a grandeza de sua fortuna não lhes era grata, mas aterrorizaram-se com o fim que um dia lhes adviria. O mais insolente dos reis da Pérsia, ao ver seus exércitos espalhados por vastos espaços de terra, de modo que nem podia abarcar seu número mas apenas a extensão, desfez-se em lágrimas porque, dizia, em cem anos nenhum dentre tão grande (2) número de jovens haveria de estar vivo. Mas ele próprio, que chorava, estava prestes a apressá-los para aquele destino, fazendo perecer uns no mar, outros em terra, uns no combate, outros na retirada, e dentro de pouco tempo haveria de exterminar aqueles por quem temia (3) o centésimo ano. Qual o motivo de também suas alegrias serem temerosas? É que não brotam de causas sólidas; pelo contrário, o próprio vazio de onde nascem perturba-as. E como pensas serem aqueles momentos (miseráveis, segundo sua própria confissão), já que os próprios motivos pelos quais são exaltados e se (4) colocam acima dos homens são muito impuros? Todos os maiores bens estão cheios de ansiedade, e as maiores fortunas são as menos dignas de crédito; para alimentar a felicidade, faz-se necessária uma outra felicidade, e em paga a uma promessa realizada, outras promessas devem ser feitas. Pois tudo o que nos sucede por obra do acaso é instável, e quanto mais alto nos elevamos, tanto mais estamos sujeitos a cair. É claro que o que está condenado a cair não agrada a ninguém. Portanto é necessariamente a mais miserável e não apenas a mais breve, a vida dos que obtêm com grande esforço algo que conservam com um esforço ainda (5) maior. Em meio a grandes labutas, conseguem o que desejam e ansiosos conservam o que conseguiram; entretanto não têm consciência de que o tempo nunca mais há de voltar. Novas ocupações seguem-se às antigas; a esperança suscita esperança; a ambição, ambição. Não procuram um fim às misérias, mas mudam seu assunto. Nossos cargos nos atormentam? Os dos outros nos tomarão mais tempo. Cessamos de fatigar-nos como candidatos? Começamos novamente como partidários. Renunciamos ao estorvo de acusar? Apresenta-se-nos o de julgar. Deixa de ser juiz? É feito pretor. Envelheceu como administrador de (6) propriedades alheias? Ocupa-se agora com sua riqueza. As vestes guerreiras deram folga a Mário? O consulado não lhe dá sossego. Cincinato apressa-se a escapar do cargo ditatorial? Será novamente chamado do arado. Cipião ainda muito jovem para uma tarefa de tal envergadura, combaterá os cartagineses; vencedor de Aníbal, vencedor de Antíoco, orgulho de seu consulado e garantia do de seu irmão, seria colocado ao lado de Júpiter, não fosse sua intervenção pessoal. As guerras civis perseguirão este salvador da pátria e, tendo sido na juventude honrado como um deus, já velho deleitar-se-á apenas com o desejo de um altivo exílio. Nunca faltarão motivos de inquietação, quer na prosperidade, quer na miséria: a vida será dilacerada entre as ocupações; o ócio sempre desejado, nunca obtido.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"Nunca faltarão motivos de inquietação,
quer na prosperidade,
quer na miséria:
a vida será dilacerada entre as ocupações;
o ócio sempre desejado,
nunca obtido
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XVIII


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

18 – (1): Portanto, meu caro Paulino, aparta-te da multidão e, já bastante acossado pela duração de tua existência, não te afastes de um porto mais tranqüilo.

Pensa quantas vagas já te acometeram, quantas tempestades, de uma parte, já suportaste na vida particular, quantas, de outra, suscitaste contra ti na vida pública.

Teu valor já foi suficientemente testado, em fatigantes e atormentadas provas, o teu valor: tenta ver o que pode realizar no ócio.

A maior parte de tua vida, e certamente a melhor, foi dada à República, toma (2) também para ti um pouco de teu tempo.

Não te convoco a um retiro indolente e inativo, nem a afogar todo o teu vigoroso caráter no sono ou nos prazeres caros à multidão: isso não é estar em sossego.

Encontrarás tarefas maiores que todas as que cumpriste devotadamente até aqui, as quais executarás no retiro e livre de (3) preocupações.

Com efeito, tu administras as contas do mundo tão desinteressadamente como as alheias, tão diligentemente como as tuas, tão escrupulosamente como as do Estado.

Conquistas a estima num cargo onde é difícil evitar o rancor, contudo, acredite-me, é mais proveitoso fazer a conta de teus anos do que as (4) do trigo do Estado.

Este teu vigor de ânimo, capaz das maiores coisas, desvia-o de um cargo, sem dúvida honroso, mas pouco adequado para tornar uma vida feliz; e lembra-te de que não foste educado desde os mais tenros anos nos estudos liberais para que alqueires de trigo te fossem confiados: esperaste algo maior e mais alto.

Não faltarão homens de sobriedade comprovada e atividade laboriosa.

Jumentos laboriosos são mais aptos a carregar fardos do que cavalos de raça, e quem jamais oprimiu a excelente ligeireza deles com (5) pesadas cargas? Além disso, reflete quantas preocupações não tens ao assumir tanta responsabilidade. Tu lidas com os ventres dos homens!

O povo esfaimado não dá ouvidos à razão, não se aplaca pela moderação, nem se dobra a nenhum argumento.

Muito recentemente, naqueles poucos dias após a morte de César, diz-se que ele se indignou muitíssimo (se há ainda algum sentimento nos infernos), porque sabia que o povo romano lhe sobrevivia e ainda lhes restavam provisões para sete ou oito dias!

E, enquanto ele construía pontes de navios e divertia-se com as forças do Império, estava às nossas portas o pior dos males, até mesmo para os sitiados: a falta de alimentos.

Seu infeliz desejo de imitar um rei arrogante, estrangeiro e louco, quase custou à cidade a miséria e a fome, e o (6) que se segue à fome, a ruína de tudo.

E então qual não era o estado de espírito daqueles a quem eram confiados os cuidados com o trigo público, e que tinham de enfrentar pedra, ferro, fogo e o próprio Calígula? Com a maior dissimulação, encobriam um tão grande mal incrustado nas vísceras do Estado - e digo que o faziam com razão!

Pois algumas doenças devem serem curadas sem que os pacientes as conheçam: a muitos, o conhecimento de sua doença foi a causa da morte.

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"O povo esfaimado não dá ouvidos à razão,
não se aplaca pela moderação,
nem se dobra a nenhum argumento.
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida Cap. XIX


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

19 – (1):Recolhe-te a estas coisas mais tranqüilas, mais seguras, melhores!

Acaso tu pensas serem o mesmo estas duas coisas: cuidar que o trigo seja transportado ao celeiro, intacto e a salvo da fraude ou negligência dos carregadores, que não se estrague pela fermentação, que esteja bem seco, que seu peso e medida confiram, e elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a substância de Deus, seu prazer, sua condição, sua forma, que destino aguarda tua alma, que lugar a Natureza nos destina após nos separarmos do corpo, qual a razão por que ela mantém os corpos mais pesados no centro do universo, suspende os altos às regiões altas, eleva o fogo à mais alta, impele as estrelas às suas trajetórias e ainda outras coisas cheias de notáveis (2) maravilhas? Abandona o solo e volta-te a esses estudos!

Agora, enquanto o sangue ferve, deve-se ir, com determinação, para o melhor.

Grande número de bons conhecimentos te esperam neste gênero de vida: o amor e a prática das virtudes, o esquecimento das paixões, o saber viver e morrer, enfim, uma grande tranqüilidade.

(3) A condição de todos os ocupados é miserável, contudo a mais miserável é a daqueles que nem se molestam com suas próprias ocupações, que regulam seu sono pelo alheio, que caminham segundo as passadas de outro e que estão sob ordens, mesmo nas mais livres das coisas: amar e odiar.


Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


"A lei não mobiliza um soldado nos seus cinqüenta anos,
nem convoca um senador nos sessenta;
os homens obtêm com mais dificuldade
folga de si mesmos do que da lei
."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida cap. XX


A morte de Sêneca, óleo sobre tela, Jacques Louis David, 1773, Museu Petit- Palais, Paris
📄 A morte de Sêneca, óleo sobre tela
Jacques Louis David, 1773
Museu Petit- Palais, Paris

Sêneca - Sobre a Brevidade da Vida

20 – (1): Portanto, quando vires freqüentemente uma toga pretexta ou um nome célebre no fórum, não o invejes: essas coisas são adquiridas ao custo da vida.

Para ligar seu nome a um único ano, consumirão todos os seus anos.

A uns, a vida abandonou logo nas primeiras etapas, antes que tivessem atingido as alturas ambicionadas; a outros, após terem galgado o cume das honras através de mil desonestidades, sobrevém o triste pensamento: "ter trabalhado tanto por uma inscrição num túmulo!"

Enquanto estavam dispostos para novas esperanças como na mocidade, a extrema velhice de alguns, já incapaz, frustrou-lhes os grandes e insaciáveis (2) esforços.

Vergonha daquele que, já de idade avançada e querendo obter aplausos de um público ignorante, num processo de litigantes desconhecidos, perde seu fôlego;

...desgraçado o que, esgotado mais por causa de sua vida do que por causa de seu trabalho, sucumbe em meio aos seus próprios deveres;

...desgraçado o que morre recebendo suas contas sob o riso do herdeiro longamente (3) deserdado.

Não posso omitir um último exemplo que me ocorre: São Turanio foi um velho de comprovada diligência, que, depois de completar noventa anos, como fosse dispensado de seu cargo por César sem que tenha solicitado, ordenou que o colocassem em seu leito e que a família, que se reuniu em torno dele como se estivesse morto, o pranteasse. A casa lamentava o ócio de seu velho senhor, e a tristeza não terminou antes que o cargo (4) lhe fosse restituído. É tão bom assim, morrer ocupado? O mesmo estado de espírito manifesta-se em muitos, o desejo de trabalhar perdura mais que a capacidade, lutam contra a fraqueza do corpo e julgam penosa a velhice, por nenhuma outra razão senão porque ela os põe de lado.

A lei não mobiliza um soldado nos seus cinqüenta anos, nem convoca um senador nos sessenta; os homens obtêm com mais dificuldade folga de si (5) mesmos do que da lei.

Entrementes, enquanto roubam e são roubados, enquanto um arrebata o repouso de outro, enquanto tornam-se mutuamente miseráveis, sua vida é sem proveito, sem prazeres, sem nenhum aperfeiçoamento intelectual.

Ninguém tem a morte à vista, todos estendem suas esperanças ao longe, alguns chegam até mesmo a tomar disposições com relação a coisas que estão além de suas vidas: enormes túmulos, dedicatórias de serviços públicos, dádivas junto de suas piras funerárias e pomposas exéquias. Mas, por Hércules, seus funerais deveriam ser conduzidos à luz de tochas e círios, como se tivesse vivido pouquíssimo!

Morte de Sêneca, óleo sobre tela, Peter Paul Rubens, 1612, Museu do Prado, Madri
Morte de Sêneca, óleo sobre tela
Peter Paul Rubens, 1612
Museu do Prado, Madri

Tradutor: William Li (Observação: os números seguidos de traço e dois pontos correspondem a um capítulo, e os números entre parênteses, a versículos)


Se vives de acordo com as leis da natureza,
nunca serás pobre;
se vives de acordo com as opiniões alheias,
nunca serás rico."

Breve Cronologia

[ 4-1 a.C. ] Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

[ 5 d.C. ] O jovem Sêneca reside em Roma

[ 37 d.C. ] Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

[ 41 d.C. ] É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

[ 49 d.C. ] Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

[ 57 d.C. ] Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

[ 65 d.C. ] Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

30 dezembro, 2015

S. João Maria Vianney [ Sermão sobre a Pureza ]


S. João Maria Vianney
S. João Maria Vianney

Sermão sobre a Pureza
“Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt.5,8)
Nós lemos no Evangelho, que Jesus Cristo, querendo ensinar ao povo que vinha em massa, aprender dEle o que era preciso fazer para ter a vida eterna, senta-se e, abrindo a boca, lhes diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” Se nós tivéssemos um grande desejo de ver a Deus, meus irmãos, só estas palavras não seriam acaso suficientes para nos fazer compreender quanto a pureza nos torna agradáveis a Ele, e quanto ele nos é necessária? Pois, segundo Jesus Cristo, sem ela, nós não o veremos jamais! “Bem-aventurados, nos diz Jesus Cristo, os puros de coração, porque eles verão o bom Deus”. Pode-se acaso esperar maior recompensa que a que Jesus Cristo liga a esta bela e amável virtude, a saber, a posse das Três Pessoas da Santíssima Trindade, por toda a eternidade? ... S. Paulo, que conhecia bem o preço desta virtude, escrevendo aos Coríntios, lhes diz: “Glorificai a Deus, pois vós o levais em vossos corpos; e sede fiéis em conservá-los em grande pureza. Lembrai-vos bem, meus filhos, de que vossos membros são membros de Jesus Cristo, e que vossos corações são templos do Espírito Santo. Tomai cuidado de não os manchar pelo pecado, que é o adultério, a fornicação, e tudo aquilo que pode desonrar vossos corpo e vosso coração aos olhos de Deus, que a pureza mesma”. (I Cor, 6, 15-20) Oh! Meus irmãos, como esta virtude é bela e preciosa, não somente aos olhos dos homens e dos anjos, mas aos olhos do próprio Deus. Ele faz tanto caso dela que não cessa de a louvar naqueles que são tão felizes de a conservar. Também, esta virtude inestimável constitui o mais belo adorno da Igreja, e, por conseguinte, deveria ser a mais querida dos cristãos. Nós, meus irmãos, que no Santo Batismo fomos rociados com o Sangue adorável de Jesus Cristo, a pureza mesma; neste Sangue adorável que gerou tantas virgens de um e outro sexo; nós, a quem Jesus Cristo fez participantes de sua pureza, tornando-nos seus membros, seu templo... Mas, ai! Meus irmãos, neste infeliz século de corrupção em que vivemos, não se conhece mais esta virtude, esta celeste virtude que nos torna semelhantes aos anjos!... Sim, meus irmãos, a pureza é uma virtude que nos é necessária a todos, pois que, sem ela, ninguém verá o Bom Deus. Eu queria fazervos conceber desta virtude uma idéia digna de Deus, e vos mostrar, 1º. quanto ela nos torna agradáveis a Seus olhos, dando um novo grau de santidade a todas as nossas ações, e 2º. o que nós devemos fazer para conservá-la.

S. João Maria Vianney [ Sermão da Pureza ] I


S. João Maria Vianney
S. João Maria Vianney

Sermão sobre a Pureza
“Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt.5,8)
I – Quanto a pureza nos torna agradáveis a Deus

Seria preciso, meus irmãos, para vos fazer compreender bem a estima que devemos ter desta incomparável virtude, para vos fazer a descrição de sua beleza, e vos fazer apreciar bem seu valor junto de Deus, seria preciso, não um homem mortal, mas um anjo do céu. Ouvindo-o, vós diríeis com admiração: Como todos os homens não estão dispostos a sacrificar tudo antes que perder uma virtude que nos une de uma maneira íntima com Deus? Procuremos, contudo, conceber dela alguma coisa, considerando que dita virtude vem do céu, que ela faz descer Jesus Cristo sobre a terra, e que eleva o homem até o céu, pela semelhança que ela dá com os anjos, e com o próprio Jesus Cristo. Dizei-me, meus irmãos, de acordo com isto, acaso não merece ela o título de preciosa virtude? Não é ela digna de toda nossa estima e de todos os sacrifícios necessários para conservá-la? Nos dizemos que a pureza vem do céu, porque só havia o próprio Jesus Cristo que fosse capaz de no-la ensinar e nos fazer sentir todo o seu valor. Ele nos deixou o exemplo prodigioso da estima que teve desta virtude. Tendo resolvido na grandeza de sua misericórdia, resgatar o mundo, Ele tomou um corpo mortal como o nosso; mas Ele quis escolher uma Virgem por Mãe. Quem foi esta incomparável criatura, meus irmãos? Foi Maria, a mais pura entre todas e por uma graça que não foi concedida a ninguém mais, foi isenta do pecado original. Ela consagrou sua virgindade ao Bom Deus desde a idade de três anos, e oferecendo-lhe seu corpo, sua alma, ela lhe fez o sacrifício mais santo, o mais puro e o mais agradável que Deus jamais recebeu de uma criatura sobre a terra. Ela manteve este sacrifício por uma fidelidade inviolável em guardar sua pureza e em evitar tudo aquilo que pudesse mesmo de leve empanar seu brilho. Nós vemos que a Virgem Santa fazia tanto caso desta virtude, que Ela não queria consentir em ser Mãe de Deus antes que o anjo lhe tivesse assegurado que Ela não a perderia. Mas, tendo lhe dito o anjo que, tornando-se Mãe de Deus, bem longe de perder ou empanar sua pureza de que Ela fazia tanta estima, Ela seria ainda mais pura e mais agradável a Deus, consentiu então de bom grado, a fim de dar um novo brilho a esta pureza virginal. Nós vemos ainda que Jesus Cristo escolhe um pai nutrício que era pobre, é verdade; mas ele quis que sua pureza estivesse por sobre a de todas as outras criaturas, exceto a Virgem Santa. Dentre seus discípulos, Ele distingue um, a quem Ele testemunhou uma amizade e uma confiança singulares, a quem Ele fez participante de seus maiores segredos, mas Ele toma o mais puro de todos, e que estava consagrado a Deus desde sua juventude.

Santo Ambrósio nos diz que a pureza nos eleva até o céu e nos faz deixar a terra, enquanto é possível a uma criatura deixá-la. Ela nos eleva por sobre a criatura corrompida e, por seus sentimentos e seus desejos, ela nos faz viver da mesma vida dos anjos. Segundo São João Crisóstomo, a castidade duma alma é de um preço aos olhos de Deus maior que a dos anjos, pois que os cristãos só podem adquirir esta virtude pelos combates, enquanto que os anjos a têm por natureza. Os anjos não têm nada a combater para conservá-la, enquanto que um cristão é obrigado a fazer uma guerra contínua a si mesmo. S. Cipriano acrescenta que, não somente a castidade nos torna semelhantes aos anjos, mas nos dá ainda um caráter de semelhança com o próprio Jesus Cristo. Sim, nos diz este grande santo, uma alma casta é uma imagem viva de Deus sobre a terra.

Quanto mais uma alma se desapega de si mesma pela resistência às suas paixões, mais ela se une a Deus; e, por um feliz retorno, mais o bom Deus se une a ela; Ele a olha, Ele a considera como sua esposa, como sua bem-amada; faz dela o objeto de suas mais caras complacências, e fixa nela sua morada para sempre. “Bem-aventurados, nos diz o Salvador, os puros de coração, porque eles verão ao bom Deus”. Segundo S. Basílio, se encontramos a castidade numa alma, encontramos aí todas as outras virtudes cristãs, ela as praticará com uma grande facilidade, “porque” - nos diz ele – “para ser casto é preciso se impor muitos sacrifícios e fazerse uma grande violência. Mas uma vez que alcançou tais vitórias sobre o demônio, a carne e o sangue, todo o resto lhe custa muito pouco, pois uma alma que subjuga com autoridade a este corpo sensual, vence facilmente todos os obstáculos que encontra no caminho da virtude”. Vemos também, meus irmãos, que os cristãos castos são os mais perfeitos. Nós os vemos reservados em suas palavras, modestos em todos os seus passos, sóbrios em suas refeições, respeitosos no lugar santo e edificantes em toda sua conduta. Santo Agostinho compara aqueles que têm a grande alegria de conservar seu coração puro, aos lírios que se elevam diretamente ao céu e que difundem em seu redor um odor muito agradável; só a vista deles nos faz pensar naquela preciosa virtude. Assim a Virgem Santa inspirava a pureza a todos aqueles que a olhavam... Bem-aventurada virtude, meus irmãos, que nos põe entre os anjos, que parece mesmo elevar-nos por sobre eles!

S. João Maria Vianney [ Sermão sobre a Pureza ] II


S. João Maria Vianney
S. João Maria Vianney

Sermão sobre a Pureza
“Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt.5,8)
II - O amor que os Santos tinham por esta virtude

Todos os Santos fizeram o maior caso dela e preferiram perder seus bens, sua reputação e sua própria vida a descorar esta virtude.

Nós temos um belo exemplo disto na pessoa de Santa Inês. Sua formosura e suas riquezas fizeram com que, à idade de doze anos, ela fosse procurada pelo filho do prefeito da cidade de Roma. Ela lhe fez saber que estava consagrada ao bom Deus. Ela foi presa sob o pretexto de que era cristã, mas em realidade para que consentisse nos desejos do rapaz. Ela estava de tal modo unida a Deus que nem as promessas, nem as ameaças, nem a vista dos carrascos e dos instrumentos expostos diante de si para amedrontá-la, não a fizeram mudar de sentimentos. Não tendo conseguido nada dela, seus perseguidores a carregaram de cadeias, e quiseram colocar uma argola e anéis em seu pescoço e em sua mãos; eles não puderam fazê-lo, tão débeis eram suas pequenas mãos inocentes. Ela permaneceu firme em sua resolução, no meios destes lobos enraivecidos, ela ofereceu seu corpinho aos tormentos com uma coragem que espantou aos carrascos. Arrastam-na aos pés dos ídolos; mas ela confessa bem alto que só reconhece por Deus a Jesus Cristo, e que os ídolos deles não são mais que demônios. O juiz, cruel e bárbaro, vendo que não consegue nada, crê que ela será mais sensível diante da perda daquela pureza que ela estimava tanto. Ele ameaça expô-la num lugar infame; mas ela responde com firmeza; “Vós podeis fazer-me morrer, mas não podereis jamais fazer-me perder este tesouro: o próprio Jesus Cristo é zeloso deste tesouro.” O juiz, morrendo de raiva, manda conduzi-la ao lugar das torpezas infernais. Mas Jesus Cristo, que velava por ela duma maneira particular, inspira um tão grande respeito aos guardas, que eles só a olhavam com uma espécie de pavor, e manda a Seus anjos que a protejam. Os jovens que entram naquele quarto, inflamados de um fogo impuro, vendo um anjo ao lado dela, mais belo que o sol, saem dali abrasados do amor divino. Mas o filho do prefeito, mais perverso e mais corrompido que os outros, penetra no quarto onde estava santa Inês. Sem ter consideração por todas aquelas maravilhas, ele se aproxima dela na esperança de contentar seus desejos impuros; mas o anjo que guarda a jovem mártir fere o libertino que cai morto a seus pés. Rapidamente se espalha em Roma o boato de que o filho do prefeito tinha sido morto por Inês. O pai, enfurecido, vem encontrar a santa e se entrega a tudo o que seu desespero lhe pode inspirar. Ele a chama de fúria do inferno, monstro nascido para a desolação de sua vida, pois tinha feito morrer seu filho. Santa Inês lhe responde tranqüilamente: “É que ele quis fazer-me violência, então o meu anjo lhe deu a morte.” O prefeito, um pouco acalmado, lhe diz: pois bem, pede a teu Deus para ressuscitá-lo, para que não se diga que foste tu que o mataste.” – Sem dúvida, diz-lhe a Santa, vós não mereceis esta graça; mas para que saibais que os cristãos nunca se vingam, mas, pelo contrário, eles pagam o mal com o bem, saí daqui, e eu vou pedir ao bom Deus por ele.” Então Inês se põe de joelhos, prostrada com a face em terra. Enquanto ela reza, seu anjo lhe aparece e lhe diz: “Tenha coragem”. No mesmo instante o corpo inanimado retoma a vida. O jovem ressuscitado pelas orações da Santa, se retira da casa, corre pelas ruas de Roma gritando: “Não, não, meus amigos, não há outro Deus que o dos cristãos, todos os deuses que nós adoramos não são mais que demônios que nos enganam e nos arrastam ao inferno.” Entretanto, apesar de um tão grande milagre, não deixaram de a condenar. Então o tenente do prefeito manda que se acenda um grande fogo, e faz lançá-la nele. Mas as chamas entreabrindo-se, não lhe fazem nenhum mal e queimam os idólatras que acudiram para serem espectadores de seus combates. O tenente, vendo que o fogo a respeitava e não lhe fazia nenhum mal, ordena que a firam com um golpe de espada na garganta, afim de lhe tirar a vida; mas o carrasco treme como se ele mesmo estivesse condenado à morte... Como os pais de Santa Inês chorassem a morte de sua filha, ela lhes aparece dizendo-lhes: “Não choreis minha morte, pelo contrário, alegrai-vos de eu Ter adquirido uma tão grande glória no Céu”.

Estais vendo, meus irmãos, o que esta Santa sofreu para não perder sua virgindade. Formai agora idéia da estima em que deveis ter a pureza, e como o bom Deus se compraz em fazer milagres para se mostrar-se seu protetor e guardião. Como este exemplo confundirá um dia estes jovens que fazem tão pouco caso desta bela virtude! Eles jamais conheceram seu preço. O Espírito Santo tem, portanto, razão de exclamar: “Ó, como é bela esta geração casta; sua memória é eterna, e sua glória brilha diante dos homens e dos anjos!” É certo, meus irmãos, que cada um ama seus semelhantes; também os anjos, que são espíritos puros, amam e protegem duma maneira particular as almas que imitam sua pureza. Nós lemos na Sagrada Escritura que o anjo Rafael, que acompanhou o jovem Tobias, prestou-lhe mil serviços. Preservou-o de ser devorado por um peixe, de ser estrangulado pelo demônio. Se este jovem não tivesse sido casto, é certíssimo que o anjo não o teria acompanhado, nem lhe teria prestado tantos serviços. Com que gozo não se alegra o anjo da guarda que conduz uma alma pura!

Não há outra virtude para conservação da qual Deus faça milagres tão numerosos como os que ele pródiga em favor duma pessoa que conhece o preço da pureza e que se esforça por salvaguardá-la. Vede o que Ele fez por Santa Cecília. Nascida em Roma de pais muito ricos, ela era muito instruída na religião cristã, e seguindo a inspiração de Deus, ela Lhe consagrou sua virgindade. Seus pais, que não o sabiam, prometeram-na em casamento a Valeriano, filho de um senador da Cidade. Era, segundo o mundo, um partido bem considerado. Ela pediu a seus pais o tempo de pensá-lo. Ela passou este tempo no jejum, na oração e nas lágrimas, para obter de Deus a graça de não perder a flor daquela virtude que ela estimava mais que sua vida. O bom Deus lhe respondeu que não temesse nada e que obedecesse a seus pais; pois, não somente não perderia esta virtude, mas ainda obteria... Consentiu, pois, no matrimônio. No dia das núpcias, quando Valeriano se apresentou, ela lhe disse: “Meu caro Valeriano, eu tenho um segredo a lhe comunicar.” Ele lhe respondeu: “Qual é este segredo? ” – Eu consagrei minha virgindade a Deus e jamais homem algum me tocará, pois eu tenho um anjo que vela por minha pureza; se você atenta contra isto, você será ferido de morte”. Valeriano ficou muito surpreso com esta linguagem, porque sendo pagão, não compreendia nada de tudo isto. Ele respondeu: “Mostre-me este anjo que a guarda.” A Santa replicou: “Você não pode vê-lo porque você é pagão. Vá ter com o Papa Urbano, e peça-lhe o batismo, você em seguida verá o meu anjo”. Imediatamente ele parte. Depois de Ter sido batizado pelo Papa, ele volta a encontrar sua esposa. Entrando no seu quarto, vê o anjo velando com Santa Cecília. Ele o acha tão bonito, tão brilhante de glória, que fica encantado e tocado por sua formosura. Não somente permite à sua esposa permanecer consagrada a Deus, mas ele mesmo faz voto de virgindade ... Em breve eles tiveram a alegria de morrerem mártires. Estais vendo como o bom Deus toma cuidado duma pessoa que ama esta incomparável virtude e trabalha por conservá-la?

Nós lemos na vida de Santo Edmundo que, estudando em Paris, ele se encontrou com algumas pessoas que diziam tolices; ele as deixou imediatamente. Esta ação foi tão agradável a Deus, que Ele lhe apareceu sob a forma de um belo menino e o saudou com um ar muito gracioso, dizendo-lhe que com satisfação o tinha visto deixar seus companheiros que mantinham conversas licenciosas; e, para recompensá-lo, prometia que estaria sempre com ele. Além disto, Sto. Edmundo teve a grande alegria de conservar sua inocência até a morte. Quando Santa Luzia foi ao túmulo de Santa Águeda para pedir ao Bom Deus, por sua intercessão, a cura de sua mãe, Santa Águeda lhe apareceu e lhe disse que ela podia obter, por si mesma, o que ela pedia, pois que, por sua pureza, ela tinha preparado em seu coração uma habitação muito agradável ao seu Criador. Isto nos mostra que o bom Deus não pode recusar nada a quem tem a alegria de conservar puros seu corpo e sua alma.

Escutai a narração do que aconteceu a Santa Pontamiena que viveu no tempo da perseguição de Maximiano. Esta jovem era escrava dum dissoluto e libertino, que não cessava de a solicitar para o mal. Ela preferiu sofrer todas as sortes de crueldades e de suplícios a consentir nas solicitações de seu senhor infame. Este, vendo que não podia conseguir nada, em seu furor, entregou-a como cristã nas mãos do governador, a quem prometeu uma grande recompensa se a pudesse conquistar. O juiz mandou que a conduzissem ante seu tribunal, e vendo que todas as ameaças não a faziam mudar de sentimentos, fez a Santa sofrer tudo o que a raiva pôde lhe inspirar. Mas o bom Deus concedeu à jovem mártir tanta força que ela parecia ser insensível a todos os tormentos. Aquele juiz iníquo, não podendo vencer sua resistência, faz colocar sobre um fogo bem ardente uma caldeira cheia de pez, e lhe diz: “Veja o que lhe preparam se você não obedece a seu senhor.” A santa jovem responde sem se perturbar: “Eu prefiro sofrer tudo o que vosso furor puder vos inspirar a obedecer aos infames desejos de meu senhor; aliás, eu jamais teria acreditado que um juiz fosse tão injusto de me fazer obedecer aos planos de um senhor dissoluto.” O tirano, irritado por esta resposta, mandou que a lançassem na caldeira. “Ao menos mandai, diz-lhe ela, que eu seja lançada vestida. Vós vereis a força que o Deus que nós adoramos dá aos que sofrem por Ele.” Depois de três horas de suplício, Pontamiena entregou sua bela alma a seu criador, e assim alcançou a dupla palma do martírio e da virgindade.