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19 setembro, 2016

Hoje na História... Do Mensalão [ 19 de Setembro ]


19/9/2005 "Lula reúne-se a portas fechadas com o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). A conversa leva uma hora. O Palácio do Planalto não permite que a reunião seja fotografada. Severino entrou pela garagem, para evitar ser visto em público. Do que transpira do encontro, Severino Cavalcanti recebeu garantias do presidente de que o ministro das Cidades, Márcio Fortes (PP-RJ), será mantido no cargo. A indicação de Severino continuará valendo durante o segundo mandato de Lula.

O presidente da Câmara vai renunciar. Da mesma forma que Márcio Fortes, José Maurício Valadão Cavalcanti, filho de Severino, permanecerá no posto de superintendente federal de Agricultura em Pernambuco. Continuarão empregados em cargos de confiança na Câmara, ainda, os seguintes parentes de Severino: Olga Maria, nora; Catharina, filha; Marlene Cavalcanti, irmã; e Rafaella, neta. Todas com vencimentos entre R$ 1.600 e R$ 7.500.

O TCU (Tribunal de Contas da União) divulga resultado de auditoria que apontou indícios de lucros excessivos por parte da GDK, a empresa contratada pela Petrobras que ficou famosa ao dar um jipe Land Rover de presente ao ex-secretário-geral do PT, Silvio Pereira. Auditores do TCM encontraram indícios de superfaturamento de R$ 7,2 milhões, e sobrepreços de outros R$ 48,9 milhões. O suspeito "lucro excessivo" também foi obtido por despesas financeiras em duplicidade, direcionamento de licitação e falhas na elaboração de orçamentos em dois contratos de R$ 160 milhões.

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📄 Os 403 Dias Do Mensalão

14 agosto, 2016

Capítulo 2 Montanhas de dinheiro: em pacotes, malas, carros-fortes e até em cuecas


O Chefe

Capítulo 2 Montanhas de dinheiro: em pacotes, malas, carros-fortes e até em cuecas

Da mesma forma que não se pode deixar de reconhecer os avanços das políticas sociais responsáveis por tirar milhões de brasileiros da pobreza nos dois governos do presidente Lula, não há como minimizar o expressivo crescimento econômico e o incremento da inserção do Brasil no cenário mundial, também registrados no período.
A era Lula significou, contudo, a continuidade do jeito criminoso de se fazer política no Brasil. Com a ressalva das honrosas exceções, o grande objetivo das ações dos representantes do povo manteve-se o mesmo: usar cargos públicos para participar de esquemas cuja finalidade primordial era desviar o dinheiro dos contribuintes. Obter comissões e caixinhas. Propinas. Para boa parte dos políticos brasileiros, independentemente da coloração partidária, a atividade política ainda é o caminho fácil do enriquecimento.
A notícia em destaque nas primeiras páginas dos jornais, no auge do escândalo do mensalão, chocou o País: uma bolada de R$ 200 mil, acondicionada numa maleta, e outros US$ 100 mil escondidos na cueca, tudo transportado pelo assessor de um deputado do PT (Partido dos Trabalhadores, a legenda fundada pelo presidente Lula), preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
José Adalberto Vieira da Silva trabalhava para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do então presidente nacional do PT, José Genoino (SP). Rápido, José Adalberto apagou a memória do celular. Disse ser agricultor. O dinheiro em seu poder, procurou justificar, era resultado do comércio de verduras. Logo foi desmascarado. Confessou quem era. Detido pela polícia, usou o paletó para cobrir o rosto e se esconder dos fotógrafos.
Outra imagem que marcou os anos Lula é a da montanha de dinheiro apreendida pela Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, pouco antes das eleições nas quais Lula conquistaria seu segundo mandato, em 2006. O R$ 1,7 milhão em cédulas de reais e dólares seriam usados pelo PT para comprar um dossiê contra políticos da oposição.
A Polícia Federal acusou Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), candidato petista a governador de São Paulo naquele ano, de ter levado o dinheiro da corrupção ao hotel. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do Ibis Congonhas, um dia antes da ação policial. Portava uma mala e se mostrava tenso.
Nas mãos cerradas de Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem com a alça em volta do ombro, uma garantia a mais de que ninguém roubaria a preciosa carga no lobby do hotel. Ele pegou o elevador e entrou num quarto. Saiu sem a mala. Na madrugada seguinte, voltou ao Ibis. Desta vez com uma maleta e uma sacola plástica. Tudo filmado. Foi embora depois, sem a sacola. A explicação da Polícia Federal: o R$ 1,7 milhão não coube na mala que Hamilton Lacerda trouxera na véspera, e ele retornou com mais dinheiro.
Quando o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciou o escândalo do mensalão, apresentou ao País o empresário Marcos Valério, dono de agências de publicidade. Roberto Jefferson era presidente nacional do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), partido da base aliada de Lula. Confessou que Marcos Valério entregou-lhe R$ 4 milhões em 2004. Roberto Jefferson descreveu Marcos Valério e como recebeu a propina:
- É carequinha, falante e fala em dinheiro como se fosse assim uma coisa que caísse do céu. Primeiro foram R$ 2,2 milhões. Em duas malas enormes, notas de R$ 50 e R$ 100, etiquetadas por Banco Rural e Banco do Brasil. E três dias depois, (...) ele volta com R$ 1,8 milhão. Notas de R$ 50 e R$ 100, Banco Rural e Banco do Brasil e a promessa de outras quatro parcelas iguais.
Roberto Jefferson citou Emerson Palmieri, apresentado como tesoureiro informal do PTB:
- Eu pedi ao Emerson Palmieri que guardasse o dinheiro no cofre de um armário de aço, grande.
Emerson Palmieri confirmou os dois pagamentos. E acrescentou que as duas malas com a bolada eram "de rodinhas". E a maioria das notas de R$ 50, sendo "poucas notas de R$ 100". O tesoureiro deu mais detalhes: foi encarregado por Roberto Jefferson de dividir o dinheiro no que chamou de "bolos" de R$ 150 mil e R$ 200 mil:
- Não coube tudo no cofre do partido, passei uma parte para um armário do lado. Entreguei a chave ao deputado Roberto Jefferson e ele me pediu sigilo.
Outra testemunha importante do escândalo do mensalão, a secretária de Marcos Valério. Fernanda Karina Ramos Somaggio relatou que Marcos Valério mantinha frequentes contatos com Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e fazia reuniões "com o pessoal do PT":
- Quando ele saía para as reuniões, antes de sair, passava no andar de baixo, no Departamento Financeiro, e saía com uma mala.
Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Fernanda Karina Ramos Somaggio deu pormenores. Mencionou Geysa Dias dos Santos e Simone Vasconcelos, funcionárias de confiança da agência de publicidade SMPB, de Marcos Valério:
- Quando o senhor Marcos ia a Brasília, sempre no dia ou no dia anterior eram sacadas grandes quantias de dinheiro, pela Geysa ou pelos boys. Os boys falavam que tinha saque de R$ 1 milhão. O dinheiro era levado para o Departamento Financeiro da agência, onde a Simone e a Geysa dividiam os maços e colocavam nas malas.
Outro trecho do depoimento de Fernanda Karina:
- O senhor Marcos passava na empresa e pegava as malas para levar no avião fretado. Algumas vezes, a Simone dizia que ficava em um hotel em Brasília, dentro de um quarto, o dia todo, contando dinheiro. E era um entra e sai de homem que ela ficava muito cansada. Ela só contava dinheiro e passava para essas pessoas.
À CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou corrupção nos Correios, Fernanda Karina falou da logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural:
- A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto. Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007, que ficavam no Departamento de Finanças da agência.
Fernanda Karina envolveu outras pessoas, como o líder do PMDB, deputado José Borba (PR), que renunciaria ao mandato durante as investigações do escândalo do mensalão, e Silvio Pereira, o secretário-geral do PT, surpreendido com um jipe importado em seu nome, mimo de uma empresa contratada pela Petrobras:
- Uma vez, eu me lembro que o senhor Marcos saiu com uma mala e foi para Brasília no avião do Banco Rural. E eu sabia que nessa mala tinha dinheiro. Ele pediu para eu ligar para o José Borba e depois para Delúbio ou Silvio Pereira, para dizer que estava indo para Brasília encontrar José Borba.
Ministro dos Transportes de Lula, Anderson Adauto (PL-MG) também foi acusado por Fernanda Karina:
- O irmão dele foi lá na agência, pegou uma mala de dinheiro e foi embora.
Outro caso rumoroso ocorreria no gabinete do ministro Anderson Adauto, no segundo semestre de 2003. Da reunião teriam participado, além de Anderson Adauto, Roberto Jefferson, outros dois deputados e Delúbio Soares, que supostamente levou uma mala de dinheiro para dividir entre os presentes.
Foi rico o depoimento de José Francisco de Almeida Rego à Polícia Federal. Ele era tesoureiro do Banco Rural e contou como a SMPB de Marcos Valério remetia dinheiro de Minas Gerais a Brasília. Os saques tornaram-se usuais desde o início de 2003, no primeiro ano do governo Lula. As retiradas chegavam à casa dos R$ 200 mil por operação. Um fax mencionava os valores e os nomes dos sacadores.
O tesoureiro José Francisco de Almeida Rego cuidava da liberação do dinheiro junto ao Banco Central. Para evitar que os saques ficassem volumosos, trabalhava com notas de R$ 50 e R$ 100. Era tudo levado a uma determinada sala do Banco Rural em Brasília. As cédulas eram colocadas em bolsas trazidas pelos próprios sacadores. Gente apressada que ia embora, em geral, sem conferir os valores.
Simone Vasconcelos também cuidava de fazer retiradas na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Mas nem sempre levava o dinheiro com ela. Assinava recibos e listava os nomes daqueles que passariam depois para receber. Desta forma, os nomes dos beneficiários não ficavam registrados como sacadores. As pessoas simplesmente não eram identificadas.
As investigações do escândalo do mensalão demonstraram que Marcos Valério operou a distribuição de dinheiro a deputados que apoiavam o governo Lula. Simone Vasconcelos fazia o trabalho de coordenar a entrega das somas. Foram atribuídos a ela saques de R$ 6,1 milhões. Cenas de cinema em outubro de 2003. Simone Vasconcelos fez duas retiradas, uma de R$ 800 mil e outra de R$ 650 mil. A bolada chegou de carro-forte ao escritório da SMPB em Brasília.
Em depoimento à CPI dos Correios, Simone Vasconcelos disse que se sentia "constrangida e preocupada de estar sendo identificada por desconhecidos", e também por estar "entregando altas somas de dinheiro para estes, sem ao menos saber quem eram".
Uma vez, Marcos Valério quis saber a cor da blusa de Simone, "para que fosse identificada pelo estranho que deveria receber o dinheiro". Ela também levou dinheiro a hotéis de luxo onde estava Marcos Valério. As entregas chegavam a R$ 300 mil.
Em determinada ocasião, outra cena cinematográfica: Simone Vasconcelos teve de localizar um táxi estacionado na frente de um certo centro de compras em Brasília e entregar ao ocupante desconhecido um pacote de dinheiro.
Outro que chamou a atenção no esquema Marcos Valério foi um policial mineiro de nome David Rodrigues Alves, a quem foram atribuídos saques de até R$ 6,5 milhões. Ele informou que recebia pagamento variando entre R$ 50 e R$ 100 por vez que ia buscar dinheiro em agências do Banco Rural em Belo Horizonte. Tinha a incumbência de levar as somas a Cristiano de Mello Paz, sócio de Marcos Valério na SMPB. Palavras do policial:
- Os pacotes já estavam prontos nas agências, eu apenas assinava o recebimento. Meu trabalho era retirar o dinheiro e entregar na SMPB.
De acordo com David Rodrigues Alves, ficava tudo separado no banco, em maços lacrados. O transporte era feito em caixas de sapato, de camisa ou de telefone celular, dependendo da quantia. Ele confessou que fazia até três viagens por dia. Carregava de R$ 50 mil a R$ 150 mil por vez.
Para não vincular Lula ao esquema de corrupção, o poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), braço direito do presidente, fez o que pôde para evitar ser relacionado a Marcos Valério. Se fosse descoberta ligação entre os dois, ficaria difícil dizer que Lula não tinha nada a ver com o escândalo do mensalão. Afinal, o presidente era o grande beneficiário do esquema: o suborno de parlamentares garantia maioria no Congresso para o governo Lula. O esforço de José Dirceu foi em vão.
A ligação José Dirceu/Marcos Valério ficou escancarada na compra de um apartamento em São Paulo por Maria Ângela Saragoça, ex-mulher de José Dirceu. Depois de ser contratada pelo BMG, banco também próximo de Marcos Valério e envolvido no esquema, Maria Ângela Saragoça recebeu empréstimo do Banco Rural. Ela também queria um apartamento novo. Vendeu o velho a Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério. Na hora de comprar o novo, levou dinheiro vivo, dentro de uma sacola.
Um caso terrível foi o assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT). Aqui, José Dirceu também acabou envolvido. Ele foi acusado pelo promotor Amaro Thomé, responsável pela investigação da morte de Celso Daniel:
- Parte dos recursos arrecadados em Santo André era utilizada em campanhas eleitorais do PT, levado em malas de dinheiro para o escritório de Dirceu.
Bruno Daniel, irmão do prefeito morto, afirmou ter ouvido do chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP), detalhes do caminho da propina em Santo André. Antes de ser guindado para o governo Lula, Gilberto Carvalho era secretário do prefeito Celso Daniel. Do depoimento de Bruno Daniel à CPI dos Bingos, referindo-se a Gilberto Carvalho:
- Ele foi claro: disse que os recursos arrecadados eram enviados ao PT para serem usados no financiamento de campanhas. Era ele quem entregava o dinheiro a José Dirceu. Ele disse que havia momentos de tensão porque carregava o dinheiro, sem segurança, em seu Corsa preto e, em uma só ocasião, entregou R$ 1,2 milhão ao deputado Dirceu.
Em sessão sigilosa da CPI dos Bingos, uma ex-empregada de Celso Daniel disse ter encontrado três sacolas com dinheiro no apartamento do então prefeito. Antes de ser morto, no início de 2002, Celso Daniel era coordenador da campanha de Lula a presidente da República.
José Dirceu também foi envolvido com a distribuição de dinheiro na campanha eleitoral para prefeito de Londrina (PR), em 2004. Na época ele ainda era o superministro do presidente Lula. Quem o denunciou foi Soraya Garcia, assessora financeira do prefeito Nedson Micheletti (PT), candidato à reeleição. Segundo ela, José Dirceu circulou na cidade num automóvel blindado da marca BMW:
- O ministro José Dirceu veio a Londrina em 18 de setembro. Era um sábado e durante a semana todo o mundo no comitê financeiro reclamava de dificuldades para pagar contas de campanha. Na segunda-feira o comitê tinha R$ 300 mil em caixa. Todo esse dinheiro era em notas de R$ 100 e com lacre do Banco do Brasil.
Soraya Garcia prestou depoimento à Polícia Federal. Oficialmente, a campanha eleitoral do PT em Londrina saiu por R$ 1,3 milhão. Já de acordo com ela, custou R$ 7,8 milhões. O dinheiro aparecia dentro de sacos plásticos de lixo e em sacolas de lojas.
Outro caso ocorrido na campanha de reeleição de Nedson Micheletti em Londrina. Foi narrado pelo motorista Rogério Bicheri. Ele trabalhava para o PT e recebeu ordens de pegar dinheiro vivo no apartamento de Zeno Minuzo, um assessor de Paulo Bernardo (PT-PR), nomeado por Lula ministro do Planejamento. Do motorista:
- Fui duas vezes lá, em setembro e em outubro de 2004, dirigindo o carro de Fábio Reali, assessor do prefeito. Estacionei e o Fábio voltou com 20 envelopes, todos com nomes de coordenadores e vereadores em campanha. Era coisa de uns R$ 50 mil. Ele botou dois envelopes no porta luvas, e o resto debaixo do banco. Ele disse que dessa forma, se fôssemos roubados, levariam menos dinheiro.
Diversos casos vincularam malas recheadas de dinheiro ao PT nos anos Lula. No final de 2007, veio à tona a história de uma mala abarrotada com R$ 500 mil, entregue ao partido do presidente da República por duas empresas supostamente laranjas que teriam agido a serviço da empresa multinacional norte-americana Cisco, interessada em vender produtos de informática para a Caixa Econômica Federal.
Um caso que deu o que falar envolveu a multinacional norte-americana Gtech, da área de sistemas de informação, e a mesma Caixa Econômica Federal. Vale a pena registrar a acareação promovida pela CPI dos Bingos entre Rogério Buratti, ligado ao esquema do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), a quem a Caixa estava subordinada, e Marcelo Rovai, diretor da empresa multinacional.
A discussão entre os dois era sobre a propina que Rogério Buratti disse ter sido oferecida pela Gtech para renegociar um contrato com a Caixa. A multinacional estaria disposta a desembolsar entre R$ 500 mil e R$ 16 milhões, dependendo do que ficasse acertado, sendo que no final do negócio a empresa teria consumado um pagamento de R$ 5 milhões a uma intermediária da corrupção, uma empresa de nome MM Consultoria. A reação de Marcelo Rovai ao dirigir-se a Rogério Buratti, que se tornara dono de empresas de ônibus:
- O senhor recusou R$ 16 milhões. O senhor, com a sua biografia, recusou? Quantos ônibus dava para comprar com esse dinheiro?
Agora o depoimento à CPI dos Bingos de Walter dos Santos Neto, da tal MM Consultoria. Ele estava protegido por habeas-corpus para não ser preso. Tentou dar origem lícita para os R$ 5 milhões e, para justificar o destino do dinheiro e negar ter sido um intermediário da propina, disse sofrer do distúrbio "compulsão ou disfunção do gasto". Declarou assim:
- Posso dizer que a motivação que sempre tive em relação ao dinheiro vem de uma deformação de minha personalidade, a necessidade de ver o dinheiro, de se sentir com o poder.
Assim, Walter dos Santos Neto alegou ter sacado R$ 650 mil transferidos pela Gtech, por exemplo, e mandado entregar o dinheiro em sua casa em carro-forte, a fim de gastá-lo:
- Minhas despesas são chocantes, gasto com frivolidades. Sou uma pessoa doente e comecei a fazer tratamento psiquiátrico.
Depois que José Dirceu foi cassado por corrupção, Antonio Palocci virou o superministro de Lula. Mas por pouco tempo. Caiu sob a acusação de ter determinado a violação do sigilo bancário de um homem simples, o caseiro Francenildo Santos Costa, encarregado de cuidar de uma mansão em Brasília que ficou conhecida como a "casa dos prazeres". Lá, a turma de Antonio Palocci se divertia com garotas de programa.
A agenciadora das prostitutas era Jeany Mary Corner. Ela contou que Rogério Buratti, fiel escudeiro de Antonio Palocci, montou um esquema no qual as "meninas" punham dinheiro dentro de revistas que eram colocadas em envelopes de papel. E saíam por Brasília entregando a "correspondência". Elas teriam pagado mensalões de R$ 50 mil a oito deputados. Jeany Mary Corner também recebeu R$ 50 mil. Para ficar quieta. Justificou:
- Fiquei no anonimato todo esse tempo. Fui muito digna. Diferentemente de outros que abriram a boca. Por isso, pedi ajuda. Isso é chantagem?
O caseiro Francenildo Santos Costa viu a dinheirama que rolava na "casa dos prazeres". Afirmação dele ao envolver Vladimir Poleto, também ligado a Antonio Palocci:
- Via, via notas, pacotes de R$ 100 e R$ 50 na mala de Vladimir. Ele trazia muito dinheiro.
Vladimir Poleto prestava serviços para Antonio Palocci desde quando o ministro da Fazenda de Lula era prefeito de Ribeirão Preto (SP). Depois da morte do prefeito Celso Daniel, o prefeito Antonio Palocci assumiu o papel de coordenador de campanha de Lula.
Alguns meses antes da eleição, Vladimir Poleto foi a Brasília de avião apanhar três caixas de bebida, todas lacradas com fitas adesivas. Caixas de uísque e de rum cubano. Dentro, cédulas norte-americanas. O dinheiro, US$ 1,4 milhão ou US$ 3 milhões, dependendo da versão, teria vindo de Cuba para irrigar a campanha de Lula.
Transportadas para São Paulo, as tais caixas foram parar nas mãos de Ralf Barquete, outro prócere da "república de Ribeirão Preto", e levadas num automóvel Omega, blindado, até o destino final: as mãos do tesoureiro Delúbio Soares.
Delúbio Soares, aliás, tornou-se bode expiatório para as tramoias do PT. Num dos raros momentos em que se despiu do papel de único responsável por todos os males, o tesoureiro, amigo histórico de Lula, escreveu uma carta endereçada ao PT, para afirmar que o caixa 2 é "prática antiga e habitual no partido, pela qual jamais se viu uma punição". E, com ironia:
"Respeito a ingenuidade. Não sei, no entanto, de onde imaginavam que o dinheiro viria – se do céu, puxado por renas e conduzido por um senhor vestido de vermelho – e menos ainda me recordo de que alguma preocupação com a origem desses recursos tenha me sido transmitida."
Mais uma montanha de dinheiro, desta vez para pagar parte da encomenda de 2,7 milhões de camisetas à Coteminas, empresa do vice-presidente da República, José Alencar. O PT levou em cash R$ 1 milhão. O dinheiro foi entregue por Marice Corrêa de Lima, coordenadora administrativa do partido, ao presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar. Palavras dele:
- Era dinheiro do PT. Eu não tinha por que pensar diferente.
A essa altura, final de 2005, o PT já tinha afastado Delúbio Soares para tentar se livrar dos problemas. Reação do novo tesoureiro, Paulo Ferreira:
- Não há nada dessa natureza registrado. Nenhum pagamento de R$ 1 milhão à Coteminas.
O novo tesoureiro não levou em conta que Marice Corrêa Lima, depois de entregar a pacoteira, assinou recibo. Confrontado novamente, Paulo Ferreira disse que ela "cumpriu ordens, nem sabia o que estava levando". Em seguida, corrigiu-se:
- Pode não ter sabido, entendeu?
Para tentar salvar a pátria, Delúbio Soares. Explicou que o R$ 1 milhão, dinheiro de caixa 2, estava no cofre do PT. Não convenceu o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR):
- Ninguém neste País acredita que ele tenha guardado R$ 1 milhão em espécie durante quase um ano, enquanto diuturnamente era abordado por credores.
Além de Delúbio Soares, perdeu o emprego o petista Henrique Pizzolato. Era diretor de marketing do Banco do Brasil. Comprou um apartamento a uma quadra da praia de Copacabana, no Rio, por R$ 400 mil. Um mês antes, Henrique Pizzolato havia enfiado nos bolsos R$ 326 mil, em dinheiro vivo, sacado de uma conta bancária da DNA Propaganda, outra agência de publicidade de Marcos Valério. O pacote com as notas foi retirado em uma agência do Banco Rural, no centro do Rio.
Amigo de Lula há 30 anos, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) também terminou envolvido com pacotes de dinheiro. Quem o denunciou foi o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o "Toninho da Barcelona". O operador de Devanir Ribeiro era o próprio filho do deputado, Marcos Lustosa Ribeiro, o Marcão. Usava o gabinete do pai, na época vereador em São Paulo. As trocas de dólares por reais eram frequentes. Dependendo da quantia, o dinheiro era carregado em sacolas, envelopes ou, como disse Marcelo Viana, incumbido de transportar as cédulas para o gabinete de Devanir, preso às meias ou debaixo da roupa.
Em depoimento conjunto às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, Toninho da Barcelona confirmou as operações com Marcão. Durante a sessão, Devanir Ribeiro procurou intimidá-lo, ameaçando-o com um processo. Em resposta, o doleiro enumerou somas e datas em que pacotes de dinheiro foram levados ao filho Marcão, em 2002: US$ 30 mil em 10 de julho, US$ 25 mil em 17 de julho, US$ 20 mil em 5 de agosto, US$ 8,5 mil em 9 de agosto, US$ 10 mil em 10 de agosto e US$ 35 mil em 30 de setembro.
Quem também mexeu com dinheiro vivo foi Zilmar Fernandes Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha eleitoral que elegeu Lula em 2002. Duda Mendonça confessou que recebeu R$ 10,5 milhões em uma empresa offshore nas Bahamas. Mas não foi só. Parte do acerto da campanha ficou para ser recebido, em dinheiro vivo, na agência do Banco Rural situada na avenida Paulista, em São Paulo. Zilmar Fernandes Silveira encarregou-se de buscar os pacotes, de R$ 300 mil. Palavras dela:
- Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me assustei, porque pensei que ia receber um cheque administrativo.
A sócia de Duda Mendonça logo se acostumou à rotina. Confessou que voltou nos dias seguintes para pegar mais duas boladas de R$ 300 mil cada uma, e depois para fazer outras duas retiradas, de R$ 250 mil cada vez. Total: R$ 1,4 milhão.
Em 16 de julho de 2003, Marcos Trindade e Paulo Antônio Bassoto, militantes do PT do Rio Grande do Sul, tentaram embarcar com R$ 200 mil em dinheiro vivo no aeroporto de Congonhas. Marcos Trindade carregava R$ 50 mil. Conseguiu. Paulo Antônio Bassoto, com R$ 150 mil, foi detido. Para evitar o problema, Marcos Trindade passou a viajar de ônibus. Fez quatro viagens. Confessou que levou R$ 850 mil em dinheiro vivo do valerioduto, sempre de Belo Horizonte a Porto Alegre.
Quem também viajou de ônibus transportando dinheiro foi Geraldo Reis, do PT da Bahia. Foi para Vitória da Conquista (BA) com uma mala carregada com R$ 200 mil. Dois assaltantes acabaram com a festa. De acordo com o testemunho de passageiros que estavam no ônibus, os ladrões reagiram surpresos ao abrir a mala. Foram embora satisfeitos. O PT não registrou queixa na polícia.
Ainda na Bahia, o caso do deputado Josias Gomes (PT-BA), um dos denunciados por envolvimento no escândalo do mensalão. Acusado de receber R$ 100 mil repassados por Marcos Valério, negou. Disse que fora ao Banco Rural apenas para obter informações sobre um empréstimo. Depois, confessou o saque. Esteve pessoalmente na agência e apresentou o próprio documento antes de fazer a retirada. Agiu como amador. Ao conceder entrevista, Josias Gomes declarou que o mensalão nunca existiu e foi criado pela imprensa. O discurso do deputado:
- Refuto as acusações que me são impostas. Não sou corrupto. Jamais o serei.
No Maranhão, o tesoureiro local do PT, Luís Henrique Sousa, se gabou ao dizer numa reunião do partido que a direção nacional do PT enviara um emissário a São Luís com uma mala repleta de "verdinhas". Na verdade não eram dólares, mas R$ 327 mil em reais. O dinheiro de caixa 2 teria sido mandado por determinação do então presidente do PT, José Genoino (SP).
A história de outra mala de dinheiro foi narrada por Wendel Resende de Oliveira, que trabalhou como motorista para a deputada Neyde Aparecida (PT-GO). Os R$ 200 mil foram transportados por ele do Diretório Nacional do PT em São Paulo para Goiânia. Por orientação da deputada, o motorista viajara a São Paulo de avião, apanhara a mala e seguira de ônibus até a capital de Goiás. Era mais seguro assim. Entregou a mala ao filho da deputada. O dinheiro teria sido repassado depois ao irmão de Neyde Aparecida, candidato a prefeito de Quirinópolis (GO) na época, e a Carlos Soares, irmão de Delúbio Soares.
Quando ainda era o poderoso tesoureiro do PT, Delúbio Soares telefonou ao vice-presidente do partido em Brasília, Raimundo Ferreira da Silva Júnior, e pediu para ele buscar um envelope. Raimundo Ferreira sabia que o conteúdo era dinheiro vivo, mas não quanto:
- O Delúbio me ligou de São Paulo e pediu para que eu fosse até a agência do Rural, onde deveria pegar um dinheiro que ele estava precisando para umas despesas. Ele me disse que precisava de alguém de confiança para buscar o pacote. Como sou amigo dele, nada mais natural.
Agora, o PT de Mauá (SP). Altivo Ovando Júnior era secretário de Habitação da Prefeitura local, comandada pelo PT. O grupo Peralta queria construir um centro de compras. Precisava da administração municipal que desapropriasse alguns imóveis. Altivo Ovando Júnior contou como Valdemir Garreta, ligado a Marta Suplicy (PT-SP), nomeada depois ministra do Turismo de Lula, abordou o empresário Armando Jorge Peralta:
- Se não der dinheiro, não vai ter shopping.
Valdemir Garreta teria exigido R$ 1,8 milhão. O empresário topou dar seis parcelas de R$ 300 mil cada. Quem confessou ter buscado duas das parcelas em Osasco (SP) foi o próprio Altivo Ovando Júnior. A primeira veio em cheque. A segunda, em dinheiro vivo, acabou nas mãos de José Mentor (PT-SP), que foi vereador líder da prefeita Marta Suplicy na Câmara Municipal de São Paulo, antes de ser eleito deputado federal. Trecho do depoimento de Altivo Ovando Júnior ao Ministério Público:
"O dinheiro lhe foi entregue em uma caixa de arquivo, destas de papelão, devidamente lacrada."
Em 2007, no primeiro ano do segundo mandato de Lula, o Brasil foi atormentado pelas sucessivas denúncias de corrupção contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado e protegido de Lula. Uma das acusações contra Renan foi feita pelo advogado Bruno Miranda Ribeiro Brito Lins, em depoimento à Polícia Civil de Brasília.
Bruno Miranda, afilhado de casamento de Renan Calheiros, denunciou que pelo menos em seis ocasiões foi encarregado pelo lobista Luiz Garcia Coelho, amigo e sócio de Renan, de buscar dinheiro, supostamente de propina. Bruno Miranda havia sido casado com a filha do lobista. O advogado confessou:
- Às vezes, tinha muito dinheiro. Depois parava, vinha pouquinho. Que eu tive acesso, o maior foi de R$ 3 milhões no BMG. Peguei uma sacola.
Em seu depoimento, Bruno Miranda relatou que em 2005 viajou de carro a Belo Horizonte, para apanhar um pacote com R$ 300 mil em notas de R$ 100 e R$ 50, que seria repartido em Brasília. O advogado revelou que a propina facilitou uma negociata no INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), presidido na época pelo deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), ligado a Renan Calheiros. A história vai ser contada adiante. De qualquer forma, Bruno Miranda contou que levou R$ 150 mil a Carlos Bezerra no hotel Metropolitan.
O advogado também envolveu na tramoia outro aliado de Renan, o senador Romero Jucá (PMDB-RR). Ministro da Previdência Social e responsável pelo INSS no primeiro mandato de Lula, Romero Jucá foi afastado depois da abertura de inquérito para investigar o envolvimento dele com desvio de empréstimos e com propriedades rurais fantasmas. No segundo mandato, Lula escolheu Romero Jucá como líder do Governo no Senado.
Um motorista de Romero Jucá, aliás, chegou a admitir ter feito um saque de R$ 50 mil na agência do Banco Rural do Brasília Shopping:
- Eu só cheguei lá e disse: "Meu nome é Roberto Jefferson Marques". Aí, o cara falou: "Ah, tudo bem". Só isso. E me entregou um envelope amarelo, grampeado em cima. Não abri, não fiz nada.
Ao denunciar o escândalo do mensalão ao STF (Supremo Tribunal Federal), o procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, afirmou em seu relatório que o líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), compareceu ao Banco Rural do Brasília Shopping para sacar R$ 200 mil. Recebeu o dinheiro das mãos de Simone Vasconcelos, a prestativa auxiliar de Marcos Valério. Do relatório do procurador-geral, ao explicar que Borba procurara o tesoureiro do banco, João Francisco de Almeida Rego:
"Todavia, José Borba recusou-se a assinar qualquer documento que comprovasse o recebimento da importância acima, fazendo com que Simone Vasconcelos se deslocasse até essa agência, retirasse, mediante a sua própria assinatura, a quantia acima informada, e efetuasse a entrega desse numerário ao então parlamentar."
Denunciado por envolvimento no escândalo do mensalão, José Borba renunciou ao mandato. Ele teria sido encarregado de receber, quase sempre à noite, uma fila de deputados do PMDB, numa sala da Câmara. Um total de 55 deputados do PMDB, todos da base aliada do governo Lula, teriam recebido mensalões. As quantias teriam variado de R$ 10 mil a R$ 200 mil, dependendo do cacife de cada um. O procurador-geral só acusou o líder Borba.
Um dos operadores do PMDB teria sido o advogado Roberto Bertholdo, assessor de José Borba e integrante do Conselho de Administração da hidrelétrica de Itaipu, nomeado no governo Lula. Bertholdo teria viajado em jatinho particular com uma caixa de papelão abarrotada com R$ 8 milhões em dinheiro vivo. Ficou com medo de transportar a quantia?
- Que perigo, o quê? Eu tô operando para o governo.
Antonio Celso Garcia, o "Tony Garcia", foi amigo de Bertholdo. Depois, acusou-o:
- O Bertholdo nunca andava com menos de R$ 50 mil, R$ 100 mil em dinheiro. Ele falava que era para fazer coisas eventuais, atender um ou outro.
Roberto Bertholdo também acusou, mas mirou o líder do PP (Partido Progressista), deputado José Janene (PR), outro a cumprir importante papel na base aliada do governo Lula, durante o primeiro mandato da administração do PT. Aqui, Bertholdo também envolveu um doleiro, Alberto Youssef. Afirmou ter visto o homem levar sacolas de dinheiro ao apartamento de José Janene em Brasília, para subornar parlamentares que apoiavam Lula:
- Por pelo menos três vezes. Uma vez, ele abriu uma sacola para mostrar algo ao Janene e vi que eram reais. Em uma outra vez, as sacolas eram tão pesadas que a Cleide, a cozinheira do Janene, teve que ajudar o Youssef a levar as sacolas para um aposento interno do apartamento.
De fato, o PP esteve sempre nas fileiras de sustentação do governo Lula no Congresso. E o presidente da República não poupou esforços na hora de proteger o aliado e presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), acusado de cobrar propina de um fornecedor da Câmara. Sebastião Buani, dono do restaurante Fiorella, deu dinheiro a Severino Cavalcanti, a fim de receber autorização para reajustar o valor das refeições e a manter o estabelecimento aberto. Sebastião Buani confessou:
- O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o dinheiro nas mãos, eu e ele andando pelos corredores.
Apesar dos esforços de Lula, o mensalinho de Severino Cavalcanti, no valor de R$ 10 mil, levou o presidente da Câmara a renunciar ao mandato. Severino Cavalcanti ficou com medo de ser cassado e queria se eleger novamente. Não conseguiu ser deputado em 2006, mas foi eleito prefeito João Alfredo (PE) em 2008. Segundo Buani, ele só decidiu parar de subornar o deputado depois de um pedido da filha, Gisele Buani:
- Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina, e disse: "Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina".
João Cláudio Genu, que ocupou o cargo de chefe de gabinete do deputado José Janene (PP-PR), foi apontado como responsável pela distribuição de envelopes com dinheiro a deputados do PP. Após aderir ao governo Lula, em 2003, a bancada do PP pulou de pouco mais de 20 para 56 parlamentares. Mensalinhos e mensalões variavam de R$ 5 mil a R$ 30 mil, conforme o quilate do político. A grana era distribuída na "pensão", como era conhecido o apartamento de José Janene, ou na sala da liderança do PP na Câmara.
Em depoimento à Polícia Federal, João Cláudio Genu admitiu que fez vários saques em dinheiro vivo na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Ele confessou retiradas no total de R$ 850 mil. Mas negou ter distribuído o dinheiro a deputados. Disse que funcionava como uma espécie de "mula", apenas transportando valores. Pegava os envelopes entregues por Simone Vasconcelos, punha dentro de uma pasta tipo 007, sem conferir, e entregava, sem mexer, na presidência do PP.
Na denúncia do procurador-geral da República, João Cláudio Genu foi acusado de receber dinheiro em malas e sacolas e também dentro de um quarto do hotel Grand Bittar ou na sede da agência de publicidade SMPB, em Brasília. Outro operador da distribuição da propina dentro do PP teria sido o deputado João Pizzolatti (PP-SC). Ele foi acusado de circular com dinheiro dentro de malas nos corredores da Câmara, protegido por funcionários da área de segurança do Congresso. Não foi denunciado.
O PL (Partido Liberal) ocupou papel de destaque na sustentação política do primeiro mandato de Lula. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP), foi acusado pela ex-mulher, Maria Christina Mendes Caldeira, de pagar as despesas sempre em dinheiro vivo:
- Teve uma época em que comecei a reclamar muito e ele passou a usar eventualmente um cartão. Mas ele mantinha um cofrão em nossa casa que parecia um armário. Tenho as notas fiscais desse cofre. Quando nos separamos, saí denunciando a existência dele. E o Valdemar mandou uma empresa ir lá retirar o cofre.
Em depoimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, Maria Christina Mendes Caldeira relatou uma conversa entre Valdemar Costa Neto e o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), na qual o assunto era o suborno de parlamentares para engordar a bancada do PL:
- Ouvi a conversa e vi o dinheiro, guardado no cofre da nossa casa.
Ela ouviu conversas sobre malas de dinheiro e disse ter visto uma mala repleta de dólares destinada ao deputado maranhense Remi Trinta. Maria Christina Mendes Caldeira contou que Valdemar Costa Neto gostava de andar de jatinho e torrar dinheiro em cassinos. Em uma noite, no Uruguai, perdeu US$ 500 mil. Em outra ocasião, em Las Vegas, nos Estados Unidos, deixou R$ 300 mil num cassino. Ela revelou também:
- Na volta de uma viagem acabei trazendo, sem saber, uma mala de dinheiro.
Na CPI do Mensalão, Jacinto Lamas, que atuou como tesoureiro do PL, afirmou ter ido buscar, por orientação de Valdemar Costa Neto, pacotes, envelopes e encomendas, sempre em dinheiro vivo, na sede da SMPB em Belo Horizonte, e na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. Quando ia pegar o numerário em hotéis, Simone Vasconcelos fazia a entrega:
- Era sempre um acerto entre o Valdemar e o Delúbio.
No segundo mandado de Lula, o PL se transformou em PR (Partido da República). Valdemar Costa Neto, que havia renunciado ao mandato para evitar possível cassação, disputou a eleição seguinte e foi novamente eleito deputado federal. Mas ficou de fora da presidência do novo partido. O PR continuou na base aliada de Lula. Em 2007, Emílio de Paula Castilho, assessor e sobrinho do deputado Aracely de Paula (PR-MG), foi preso com quase R$ 80 mil em dinheiro vivo.
A soma estava em uma caixa de papelão dos Correios, embrulhada com papel e lacrada com fita adesiva, dentro de uma mala de roupas no automóvel de Emílio de Paula Castilho. Nervoso, ele disse aos policiais que a grana era fruto da venda de um carro usado. Depois corrigiu para dois veículos. Por fim alegou que eram três automóveis, comprados por um homem com nome incerto, que teria feito o negócio sem ao menos ver o que estava comprando, "só na confiança".
Outro escândalo da era Lula que não pode deixar de ser mencionado é o dos sanguessugas, escancarado pela Polícia Federal no último ano do primeiro mandato da administração do PT. O esquema fraudulento envolveu possivelmente dezenas de deputados, prefeituras e funcionários do Ministério da Saúde. Fornecia ambulâncias a preços sobrevalorizados.
O advogado Eduardo Mahon comentou o depoimento de Maria da Penha Lino, funcionária do Ministério da Saúde presa durante a operação. Ele citou o trecho em que Maria da Penha Lino se refere ao motorista Fernando Freitas, encarregado de transportar à garagem do Congresso os donos da empresa que negociavam as ambulâncias:
- Na garagem, pegavam as malas e colocavam o dinheiro no paletó, nas meias e nas cuecas. Passavam pelo detector de metal da chapelaria. Não dava nada. Subiam à Câmara. Iam de gabinete em gabinete, fazendo os acertos. Acabava o dinheiro, voltavam para o carro e pegavam mais. Na cara dura, na cueca, na meia.
Cassado por corrupção, o ex-ministro José Dirceu resolveu desabafar à revista Piauí. Já corria o ano de 2008. José Dirceu mencionou o episódio da construção da sede do PT em Porto Alegre, em 2001. Sabia do que estava falando: na época, José Dirceu era o presidente do partido e Delúbio Soares, o tesoureiro.
De acordo com José Dirceu, a obra em Porto Alegre "foi feita só com dinheiro de caixa 2". Ele acrescentou: "era com mala de dinheiro". O ex-presidente do PT chamou de "esse pessoal" as lideranças gaúchas do partido:
- Chegava para Delúbio e falava: "Delúbio, preciso de R$ 1 milhão". Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra?
José Dirceu explicou:
- O pobre do Delúbio tinha de ir aos empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles.
Em outro trecho da entrevista, Dirceu atacou a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). Expulsa do PT, ela passou a denunciar condutas inadequadas de parte das lideranças do partido. O ataque de José Dirceu:
- Ela votou contra a cassação do Luiz Estevão. Votou mesmo, e por motivos impublicáveis.
Heloísa Helena reagiu, chamando José Dirceu de "ladrão dos cofres públicos" e de andar "passeando pelo Brasil e gastando todo o dinheiro que ele roubou do povo":
- Se durante toda a carreira dele de homem público medíocre e ladrão ele cometeu inúmeros atos que certamente não podem ser publicados, eu, como mulher trabalhadora, nunca fui capaz de nenhum ato impublicável.
Em 2009, a Polícia Federal desencadeou a Operação Boi Barrica e indiciou Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), um dos maiores aliados de Lula. Fernando Sarney foi acusado de montar um esquema para desviar dinheiro público usando a Valec, empresa estatal encarregada de construir a ferrovia Norte-Sul.
A relação de Fernando Sarney com a Valec se dava por intermédio do diretor de Engenharia da estatal, Ulisses Assad. Uma parte da obra, no valor de R$ 45 milhões, teria sido entregue à Lupama. Conforme as investigações, a Lupama era uma empresa de fachada ligada ao grupo de Fernando Sarney para desviar dinheiro da ferrovia.
Para pagar pelos serviços de Ulisses Assad, Fernando Sarney teria mandado propina por meio de seu motorista. Uma mala de dinheiro seguiu de Brasília para São Paulo. Os federais estavam na cola, mas não contaram com o zelador do prédio da família Sarney na capital paulista. Ele percebeu a movimentação e ajudou o motorista a entrar escondido com a mala dentro do porta-malas de um carro de Fernando Sarney. O homem se safou.





Link Original: O Chefe © 2010 Por Ivo Patarra Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

05 abril, 2016

Memórias de um combatente gaúcho

Veterano rememorou os 70 anos da tomada de Monte Castelo, a mais significativa da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália
« Por Humberto Trezzi [ Zero Hora ] »
Pracinhas Gaúchos

A entrada em cena foi épica, digna das homenagens a ele prestadas. O major reformado Rubem Barbosa ingressou de jipe no Museu do Comando Militar do Sul - não um veículo qualquer, mas um Willys da II Guerra Mundial, igual aos que ele tripulou em 1945. Um dos raros veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ainda vivos e lúcidos, o oficial porto-alegrense compareceu à sede do Exército para rememorar a tomada de Monte Castelo. Essa montanha, situada no norte da Itália, só foi capturada após quatro incursões dos brasileiros, que expulsaram dali os militares alemães, abrindo caminho para consolidar a tomada de todo o território italiano pelos Aliados.

A palestra, conferida em meio a armas da II Guerra e cartazes com fotos da época, ocorreu porque a tomada de Monte Castelo completa 70 anos neste 21 de fevereiro. E Rubem Barbosa, 89 anos, tem ainda nítida a memória daquela epopeia. Foram três meses de tentativas brasileiras de tomar as posições fortificadas dos alemães, montanha acima e sob nevasca.

O major Rubem, na época cabo, era sapador (especialista em localizar e desmontar minas explosivas). Fazia o serviço nos intervalos dos bombardeios - os alemães, encastelados nos morros com canhões de 88 mm e morteiros, faziam uma barragem cerrada de tiros contra o avanço brasileiro. Pior: 90% dos tiros eram dados à noite, o que dificulta a localização dos soldados inimigos.

— A cada explosão o joelho do sujeito tremia. Quem disser o contrário tá mentindo, a gente tem medo, claro...o próximo a morrer poderia ser eu - recorda Rubem, com sinceridade.


Rubem era seminarista quando se alistou no Exército, aos 17 anos. Não foi por vontade, mas porque era obrigatório. "Até padre servia, o país estava em guerra", ressalta. Natural de Porto Alegre, ele cursava o seminário de Gravataí, velho sonho da mãe, que já tinha outro filho padre. Era, também, coroinha na Igreja Nossa Senhora dos Navegantes. Quando começava a nascer barba, foi encaminhado ao quartel, preencheu os papéis e trocou a batina (que já usava) pelo uniforme verde-oliva. Fez um treinamento rápido como soldado em São Leopoldo, no 8º Batalhão de Caçadores (atual 19º Batalhão de Infantaria) e depois foi para o Rio de Janeiro, de navio. Lá fez curso de cabo e pegou outro navio, maior, para a Europa. Lembra bem da escolta da marinha inglesa a partir do rochedo de Gibraltar, até Nápoles (Itália), onde os pracinhas brasileiros desembarcaram após 13 dias de mar e enjoos.

Era dezembro e Rubem foi enviado a Roma para fazer curso de sapador (sabotagem e contra-sabotagem) com o Exército norte-americano.

Nevasca e tiroteios

Promovido a sargento - "na época, as promoções eram relâmpago" - Rubem foi enviado então a Monte Castelo, onde o Brasil travava já fazia sua terceira investida. Era uma montanha 61 km a sudeste de Bolonha, vital para a conquista do Vale do Rio Pó e consolidar a ocupação do território italiano pelos Aliados. Muita gente erra ao falar em batalha de Monte Castelo. Na realidade, foram combates que se arrastaram por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais o Brasil efetuou seis ataques e sofreu contra-ofensivas. Sempre sob nevasca e tiroteio constantes. Não é a toa que, dos 471 brasileiros mortos na II Guerra, a maioria morreu em Monte Castelo. Rubem, por conhecer os rigores do vento Minuano, achou que se daria bem. Diz que nunca passou tanto frio na vida. Colocava blusão sobre blusão e um capote por cima, para suportar - 18ºC.

— Pior foram os nordestinos, mal conseguiam se mexer - recorda ele, penalizado.


Após a tomada de Monte Castelo, Rubem participou de outras incursões, como a tomada de Montese.

— Lá a entrada na cidade foi de baioneta calada, combate corpo-a-corpo, casa por casa. Lembro de ter atirado num alemão, sargento como eu. Até recebi uma medalha.


O veterano lamenta sobretudo o encontro com a miséria na Itália, crianças passando fome, vítimas civis da guerra. Seja porque os Aliados já tinham supremacia, seja por competência, os brasileiros se deram bem melhor que os alemães nos confrontos desse final da II Guerra. Dos 25 mil pracinhas (militares) enviados à Itália, o Brasil perdeu 450 soldados, 13 oficiais e 8 pilotos, enterrados no cemitério de Pistóia (Itália). Ficaram ainda feridos 12 mil brasileiros nos combates. Em compensação, fizeram 20 mil militares alemães prisioneiros(entre eles, dois generais). Os brasileiros também apreenderam 80 canhões e 5 mil viaturas alemãs. O ex-pracinha afirma que jamais desenvolveu antipatia pelos alemães.

— Combatíamos um regime tirânico, não a Alemanha.


Rubem lamenta que a "turma de 45" esteja chegando ao final. Só no ano passado ele perdeu 9 colegas da associação de veteranos da FEB no Rio Grande do Sul. A saúde também requer cuidados: toma 20 comprimidos diferentes por dia, "alguns para anular os efeitos colaterais dos outros", graceja. Mas as lembranças continuam afiadas e o orgulho do passado, cada vez maior. Tanto que coronéis e generais fizeram fila para cumprimentá-lo ao final da palestra. Emocionados.

Os pracinhas de Antônio Prado [ Rio Grande Do Sul ]




Segunda Guerra Mundial / Pracinhas Gaúchos O pracinha Jácomo Valmorbida



Os pracinhas de Antônio Prado [ Rio Grande Do Sul ]

Dos mais de 25.000 soldados da FEB, 1.880 eram gaúchos. Em Antônio Prado (Rio Grande do Sul), na Praça Garibaldi, uma placa de bronze, colocada em 1981, homenageia os 13 filhos daquela comunidade que lutaram na Itália.


Segunda Guerra Mundial / Pracinhas Gaúchos
[ Antonio Reginatto ]
[ Anastácio De Dea ]
[ Angelo Terribelle ]
[ Benedito Pontel ]
[ Bejamin Luiz Bellé ]
[ Edegar Mondadori ]
[ Jácomo Valmorbida ]
[ Marino Borsol ]
[ Melsi Buzelato ]
[ Marciso A. Casarotto ]
[ Ramiro Faccio ]
[ Renato João Cipriani ]
[ Riceri Cervelin ]



Quando ainda viviam, certamente, foram menos reconhecidos do que mereciam. Ao retornarem da guerra, permaneceram esquecidos por muitos anos. O soldado 3082, Jácomo Valmorbida, por exemplo, nascido em 1922, voltou à agricultura como fazia antes. Casou-se, teve três filhos e, 33 anos após dar baixa, somente em julho de 1978, recebeu a primeira pensão. Tinha 56 anos e morreu dois meses depois.


Segunda Guerra Mundial / Pracinhas Gaúchos Valmorbida e dois colegas posam para foto no Rio de Janeiro, antes do embarque para a Itália



Segunda Guerra Mundial / Pracinhas Gaúchos O pracinha em um acampamento próximo a Nápolis, na Itália.



Anastácio De Dea, o segundo nome grafado em bronze na placa, com 93 anos lúcido e trabalhando como carpinteiro e pedreiro. O ex-pracinha Anastácio De Dea dedica-se a restaurar imagens sacras. Depois de voltar da guerra, Anastácio e sua mulher, Amélia, tiveram 16 filhos (13 deles vivem). Viúvo desde 1984, ele mora na localidade de Nova Treviso, no município de Nova Roma do Sul, que emancipou-se de Antônio Prado em 1987. Anastácio, com as pensões recebidas, conseguiu comprar alguma terra para ajudar os familiares.


Segunda Guerra Mundial / Pracinhas Gaúchos Foto: Daniela De Dea Andreazza (neta), Arquivo Pessoal



Fonte: « Os "13" pracinhas da F.E.B de Antônio Prado (RS) »

31 março, 2016

Déja vu [ O Fracasso Econômico de Goulart ]

Balanço econômico do governo Goulart: uma visão pouco complacente

Sem pretender criticar mais uma vez a visão pouco complacente da maior parte da literatura semi-acadêmica brasileira a respeito do governo Goulart, e deixando de lado, agora, a postura totalmente acrítica desses autores em relação às ‘chamadas reformas de base’ e às posições presumidamente ‘progressistas’ desse governo na maior parte dos temas sociais, cabe voltar, pela sua importância intrínseca em relação ao bem-estar e oportunidades de emprego e renda para a maioria da população, à administração da economia nacional nos anos Goulart. É um fato, e não uma opinião, que o ambiente macroeconômico deteriorou-se sensivelmente entre 1961 e 1964: a inflação e os desequilíbrios do setor externo, o estrangulamento cambial e o saldo (na verdade déficit) do balanço de pagamentos agravaram-se enormemente nesses anos; a instabilidade da política econômica gerou volatilidade e incertezas, que determinaram, por sua vez, fuga de capitais e desinvestimento produtivo. A rigor, não se pode dizer que 1961 possa ser colocado sob o domínio da política econômica de Goulart, posto que ele assumiu apenas em setembro desse ano, cerceado por um regime parlamentarista do que ele se desvencilharia apenas em janeiro de 1963.

Vamos, assim, considerar os anos de 1962 a 1964 como tendo sido ‘influenciados’, relativamente, pela política econômica de Goulart, sendo que os anos de 1962 e 1963 caem inteiramente sob sua responsabilidade. E quais são os números econômicos desses anos?

O desastre de Goulart


À vista desses números, não se pode considerar a gestão econômica de Goulart um sucesso, muito ao contrário, talvez mesmo um desastre. As ‘reformas de base’ só ocorreriam efetivamente sob os governos militares, que alteraram radicalmente as bases e o modo de funcionamento da política econômica e o papel do Estado. A característica essencial dessa política econômica sob o regime militar foi a centralização e a estatização, algo, aliás, muito próximo da ideologia socialista defendida pelos antigos líderes populistas e que os militares recusavam absolutamente nos planos político e cultural.

De fato, parece surpreendente que o regime militar tenha realizado muitos dos objetivos econômicos estatizantes que a esquerda defendia abertamente antes (e depois) do regime militar. Durante o período, a esquerda condenou as políticas de ‘arrocho’ salarial, de repressão aos movimentos sociais e de subordinação dos sindicatos de trabalhadores ao Estado, práticas que todos os regimes socialistas sempre mantiveram em todos os experimentos históricos conhecidos, em escala muito mais ampla do que qualquer ditadura capitalista ou economia de mercado. O regime militar brasileiro – é verdade que muito com base no endividamento interno e externo – levou o Brasil a taxas de crescimento jamais vistas, antes e depois, na economia brasileira: 10,4 em 1970, 11,3% em 1971, 11,9% em 1972 e, no auge de um ciclo que não mais se repetiria, 14% em 1974.

No plano mundial, apenas a China, bem mais tarde, reproduziria taxas sustentadas nesses picos durante muito tempo.

Cabe reconhecer, também, que a inflação, alimentada pela inércia da correção monetária e pelo frenesi expansionista dos gastos públicos – boa parte, é verdade, para investimento produtivo –, manteve-se consistentemente na faixa dos dois dígitos durante todos os anos 1970, e acima dos três dígitos a partir dos anos 1980. A redemocratização, em 1985, não foi particularmente feliz, nem em taxas de crescimento, nem nos índices de custo de vida, posto que o índice geral de preços saiu de 225% (1985) para 684% (1988), depois para 1.320% (1989) e, finalmente, 2.310% (1990), só superado pelo pico de 2.407% em 2004. O controle inflacionário só viria depois, com a introdução de medidas econômicas, para ser claro, de sentido totalmente contrário ao espírito da política econômica patrocinada por Goulart.

Qualquer que seja o julgamento que se faça dos ‘anos de chumbo’, durante a fase mais aguda da ditadura militar, é um fato que a história desses anos, como aliás, dos períodos anterior e posterior, está sendo escrita desde uma perspectiva de esquerda, ou pelo menos ‘progressista’.

Ora, é um fato, também, que essa história, até porque seus produtores se julgam (talvez corretamente) opositores do regime militar, é decididamente enviesada contra esse regime, ao mesmo tempo em que é profundamente leniente ou tolerante em relação aos anos Goulart, considerado geralmente como um período de ‘florescimento democrático’ e de ‘conquistas políticas e sociais’. Essa literatura descura por completo a incompetência econômica e administrativa desses anos.

As distorções começam, justamente, pelos motivos do golpe, como sendo mera reação de latifundiários, de capitalistas entreguistas e de militares teleguiados pelo império aos supostos avanços dos movimentos sociais reformistas. Mais até do que uma suposta ameaça de ‘ditadura comunista’ – justificativa utilizada por mais de um ideólogo do regime militar, na tentativa de legitimar o golpe de Estado de 1964 – o que assustou a classe média e levou os militares a se libertarem de seus escrúpulos legalistas, foi, basicamente, o recrudescimento da espiral inflacionária e o quadro de instabilidade econômica e social, que deteriorou gravemente o ambiente político no início dos anos 1960.

Não se pode dizer que o democratismo caótico dos anos Goulart tenha contribuído para reduzir os altos níveis de desigualdade social e de concentração da renda: ao contrário, posto que a aceleração da inflação trouxe, na verdade, uma elevação do coeficiente de Gini – o índice que mede a concentração de renda. Como se sabe, a inflação atinge basicamente os pobres, ao atuar como uma espécie de imposto sobre seus rendimentos, embora não se possa descurar o peso da (falta de) educação no perfil extremamente concentrado da distribuição de renda. Num cômputo meramente estatístico, os resultados econômicos do governo Goulart são negativos.

Concluindo, pode-se dizer que a subliteratura existente nos manuais escolares de história ou de ciências humanas no Brasil em torno do movimento militar que derrocou o regime Goulart e deu início a uma ditadura de duas décadas não serve à história nem à memória correta do Brasil de início dos anos 1960, uma sociedade em rápida transição para a industrialização, mas ainda atrasada nos planos agrícola, tecnológico, político e social. É correto dizer que a história é feita de mitos – heróis nacionais, episódios gloriosos de um passado incerto, etc. – mas neste caso específico, os mitos em torno de 1964 são especialmente mistificadores e deformadores da história real. Está em tempo de encerrar essa subliteratura e começar a escrever a história seriamente.

Trecho de [ Falácias acadêmicas, 7: os mitos em torno do movimento militar de 1964* ] [ Paulo Roberto de Almeida ] [ Balanço econômico do governo Goulart: uma visão pouco complacente ]

16 dezembro, 2015

O Chefe - Capítulo 5 - O escândalo do dossiê: flagrante de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo



O Chefe - Capítulo 5

O escândalo do dossiê: flagrante de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo



Lula conseguiu o que parecia impossível. Sobreviveu ao escândalo do mensalão. Mais que isso: não perdeu a popularidade e se tornou o favorito à própria sucessão. Provavelmente teria sido reeleito já no primeiro turno das eleições de 2006, não fosse um outro escândalo.

No País da corrupção e da impunidade, tamanha desfaçatez, duas semanas antes do pleito, talvez se explique pela crença de que após se livrar do episódio do mensalão nada mais poderia pegá-lo. Lula e o PT sentiram-se livres para delinquir novamente.

O novo esquema de corrupção serviu para levar as eleições ao segundo turno e confirmar os métodos daqueles que durante 20 anos, até a conquista do poder, definiram a si próprios como paladinos da ética na política.

A história começou em 15 de setembro de 2006, quando dois homens foram presos pela Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, com o equivalente a R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. Um deles, o empresário Valdebran Carlos Padilha da Silva, ligado ao PT de Mato Grosso, foi apontado como lobista, receptador e próximo ao deputado Carlos Abicalil (PT-MT). Foi tesoureiro da campanha de Alexandre César (PT) a prefeito de Cuiabá.

Valdebran Padilha mantinha ligações com Carlos Bezerra, que foi presidente do PMDB de Mato Grosso e presidente do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), no governo Lula. Além disso, tinha sido citado no escândalo do mensalão. Com Valdebran Padilha foram apreendidos R$ 758 mil em reais e outros US$ 109,8 mil em moeda norte-americana.

O outro homem preso no hotel em São Paulo, o advogado e ex-agente da Polícia Federal Gedimar Pereira Passos, também era ligado ao PT. Com ele acharam R$ 410 mil e outros US$ 139 mil em dólares. Gedimar Passos fazia parte da equipe da campanha de Lula à reeleição. Trabalhava no núcleo de inteligência do comitê eleitoral, encarregado de "tratamento de informações".

As escutas telefônicas que levaram às prisões registraram diálogos sobre uma negociação envolvendo a venda de materiais e documentos, com a finalidade de associar os candidatos do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin (SP), e ao Governo de São Paulo, José Serra, a operações de superfaturamento para a aquisição de ambulâncias por prefeituras, um esquema criminoso que ficou conhecido como a máfia dos sanguessugas.

As escutas telefônicas implicariam ainda o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, acusado de chefiar o esquema de venda das ambulâncias, e a revista Isto É, por ter publicado entrevista de Luiz Antônio Trevisan Vedoin com acusações a integrantes do PSDB. Luiz Antônio Vedoin foi preso. Por tratar da compra e venda de materiais e documentos, o caso ficou conhecido como o escândalo do dossiê.

Em depoimento à Polícia Federal, Gedimar Passos confessou ter sido contratado pela direção executiva nacional do PT para acertar com a família Vedoin, dona da empresa Planam Comércio e Representação, a compra de um dossiê contra políticos tucanos. A transação com os Vedoin traria em seu bojo, ainda, a entrega de uma papelada de 2 mil páginas com diversas denúncias, inclusive contra o próprio PT. Com a operação, o calhamaço seria tirado de circulação e não poderia mais ser usado contra o partido de Lula.

No depoimento, Gedimar Passos mencionou acordo entre o PT e um "órgão de imprensa" para a divulgação dos documentos de interesse da campanha do presidente Lula. Informou que R$ 1 milhão já teria sido entregue antecipadamente a um representante dos Vedoin.

Gedimar Passos implicou no escândalo um assessor especial da Presidência da República. Tratava-se de Freud Godoy, amigo de Lula havia 20 anos. Ele teria participado da trama ao providenciar o dinheiro para comprar o dossiê, entregando-o a ele próprio, Gedimar Passos, por intermédio de dois emissários do PT. Dias depois, Gedimar Passos voltaria atrás: retirou a informação e eximiu Freud Godoy de qualquer responsabilidade. Dessa forma, blindou Lula e ajudou a livrá-lo do escândalo.

Freud Godoy foi segurança pessoal de Lula desde o final da década de 80. Frequentava o apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP). Para se ter ideia da ligação dos dois, quando Lula assumiu a Presidência da República, em janeiro de 2003, levou Freud Godoy para morar com o casal presidencial na residência oficial do Palácio da Alvorada. O segurança também era figura certa em viagens no avião presidencial, o Aerolula.

Imediatamente, Freud Godoy pediu exoneração do cargo de assessor especial e abandonou a sala que ocupava no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete de Lula. À Polícia Federal, Freud Godoy admitiu conhecer Gedimar Passos e o relacionou à contratação da empresa Caso Sistemas de Segurança, de propriedade de sua mulher, jornalista Simone Godoy, pelo comitê do PT em Brasília.

Freud Godoy introduziu mais um personagem importante da história: Jorge Lorenzetti, outro amigo pessoal de Lula, encarregado de preparar churrascos para o presidente. Mais do que churrasqueiro oficial de Lula, Jorge Lorenzetti, chefe de Gedimar Passos, era tido como "o homem da inteligência", escolhido por Lula para, entre outras coisas, cuidar de campanhas eleitorais em Santa Catarina. Nesse Estado foi fundador do PT e da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao partido) e o primeiro candidato petista a prefeito de Florianópolis, em 1985.

Na campanha de reeleição de Lula, em 2006, Jorge Lorenzetti foi nomeado para a sinistra posição de "analista de mídia e risco". Com tal objetivo licenciou-se do cargo de diretor administrativo do Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), um banco federal, para o qual fora nomeado por influência de Lula. Jorge Lorenzetti mantinha ligações com José Dirceu (PT-SP), cassado por corrupção em 2005, e era conhecido arrecadador de fundos internacionais.

De acordo com Freud Godoy, Jorge Lorenzetti o apresentou a Gedimar Passos, a quem não conhecia, o que teria ocorrido em agosto de 2006, apenas um mês antes de o escândalo explodir. Foi no Diretório Nacional do PT, em Brasília. Gedimar Passos era o responsável pela segurança e a logística do comitê político de Lula.

Durante aquele mês, Freud Godoy admitiu ter se reunido em outros quatro momentos com Gedimar Passos, mas apenas a fim de discutir o processo de varredura nos telefones do comitê, trabalho para o qual a empresa em nome de sua mulher, Simone Godoy, fora contratada.

Freud Godoy também teria ligações com Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", outro segurança famoso que se tornou empresário, acusado de envolvimento na morte do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).

Antes da eleição de Lula em 2002, Freud Godoy era chefe de segurança da Prodam, a empresa de processamento de dados da Prefeitura de São Paulo, na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT). A Caso Sistemas de Segurança, em nome de Simone Godoy, também trabalhou na área de segurança da campanha de Marta Suplicy à reeleição, em 2004.

O escândalo do dossiê repercutiu em todo o País. No depoimento que prestou à Polícia Federal, Gedimar Passos mencionou a revista Época: teria sido procurada por integrantes do PT, cuja missão seria a de garantir a publicação da notícia do dossiê contra o PSDB na grande imprensa. A investida não prosperou.

A revista, no entanto, emitiu nota para informar que Oswaldo Bargas, o "Valdo", responsável pelo setor de "trabalho e emprego" na campanha da reeleição de Lula, pediu uma reunião com jornalistas para apresentar denúncia contra políticos tucanos. Oswaldo Bargas também era amigo pessoal de Lula.

Na reunião, no hotel Crowne Plaza, em São Paulo, Oswaldo Bargas apareceu acompanhado de Jorge Lorenzetti, o amigo e churrasqueiro de Lula. Em relação a Jorge Lorenzetti, aliás, vieram à tona informações segundo as quais a Unitrabalho, uma fundação vinculada a universidades e a instituições de ensino superior, recebeu, por meio de convênios, R$ 18,5 milhões durante o governo Lula, a maior parte por intermédio do Ministério do Trabalho. Jorge Lorenzetti foi apontado como colaborador da Unitrabalho. Com o nome nos jornais, ele se afastou da campanha de Lula.

Antes de afastar-se, porém, Oswaldo Bargas envolveu outro peixe graúdo na história: o presidente do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, o ex-ministro do Trabalho e deputado Ricardo Berzoini (PT-SP). Detalhe: a mulher de Oswaldo Bargas, Mônica Cristina Zerbinato, ocupava o cargo de secretária particular de Lula. Como se vê, tudo em família.

Segundo Oswaldo Bargas, que trabalhou com Ricardo Berzoini no Ministério do Trabalho, Ricardo Berzoini sabia que ele, Oswaldo Bargas, acompanhado de Jorge Lorenzetti, procuraram a revista Época para negociar a publicação de reportagem contra o PSDB.

Lula foi rápido no gatilho e afastou Ricardo Berzoini da coordenação da campanha. Em seguida, Ricardo Berzoini também perdeu o cargo de presidente do PT. Recuperaria-o depois da reeleição de Lula, com o apoio do presidente. Oswaldo Bargas também foi defenestrado. Um a um, caíram os homens do presidente naquele momento.

O caso do dossiê não parou de trazer revelações. Freud Godoy manteve relações com um dos próceres do escândalo do mensalão, o empresário Marcos Valério. A Caso Comércio e Serviços, uma segunda empresa ligada ao segurança-empresário, recebeu R$ 98,5 mil da SMPB Comunicações, uma das agências de publicidade de Marcos Valério.

Até a Duda Mendonça e Associados, igualmente famosa durante o escândalo do mensalão, pertencente a Duda Mendonça, o publicitário marqueteiro de Lula durante a campanha de 2002, pagou R$ 22,8 mil à Caso Sistemas de Segurança, de Simone Godoy. E mais: a Caso Sistemas de Segurança teria servido para o investidor Naji Nahas fazer um depósito de R$ 396 mil em favor de Freud Godoy, cerca de um mês antes da eclosão do escândalo do dossiê. Naji Nahas negou.

A sede da empresa de segurança em nome de Simone Godoy ficava em Santo André, onde o casal morava em apartamento luxuoso. Freud Godoy também era dono de um sobrado na cidade e de outro apartamento, este a poucas quadras do apartamento de Lula, na vizinha São Bernardo do Campo. O Ministério Público Federal abriu investigação para apurar um suposto saque de R$ 150 mil feito por Freud Godoy, em março de 2006.

Mais um nome no escândalo do dossiê: Expedito Afonso Veloso, filiado ao PT e diretor do Banco do Brasil em Brasília, onde exercia a função de responsável por "gestão de risco". Estava em licença remunerada, para participar da campanha de Lula. Quem mencionou o nome dele foi Valdebran Padilha. Expedito Veloso teria participado da preparação do dossiê e da estratégia para divulgá-lo, em negociação ocorrida em Cuiabá, com o empresário Luiz Antônio Vedoin.

Expedito Veloso acompanhou a entrevista de Vedoin a Isto É, ao lado de Oswaldo Bargas. Também esteve no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, onde o escândalo começou, com a apreensão do R$ 1,7 milhão. Descoberto, pediu demissão do Banco do Brasil e abandonou a campanha. Apesar de afastado do banco, Veloso continuava a receber salário de R$ 17 mil por mês.

Outro envolvido foi Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) a governador de São Paulo em 2006. Foi três vezes vereador pelo PT de São Caetano do Sul (SP). Até ser envolvido no escândalo, Hamilton Lacerda também exercia o cargo de assessor parlamentar de Aloizio Mercadante. Entre as explicações da revista Isto É para o caso, estava a de que Hamilton Lacerda atuou como intermediário da entrevista em que os Vedoin fizeram acusações contra José Serra.

O coordenador de Aloizio Mercadante reuniu-se com jornalista da revista e marcou o encontro entre a reportagem e Luiz Antonio Vedoin, em Cuiabá. Descobriu-se durante as investigações que as viagens e passagens aéreas dos assessores do PT à capital de Mato Grosso, para negociar o dossiê, teriam sido pagas com dinheiro do caixa da campanha de Lula.

Apanhado, Hamilton Lacerda foi forçado a deixar a campanha de Aloizio Mercadante. O senador, por sua vez, admitiu ter se encontrado com Osvaldo Bargas e Expedito Veloso, dez dias antes da apreensão do R$ 1,7 milhão. Mas garantiu não ter tomado conhecimento da operação para prejudicar José Serra, seu adversário direto na disputa pelo Governo de São Paulo.

Para a Polícia Federal, Hamilton Lacerda levou o dinheiro apreendido ao hotel Ibis Congonhas. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do hotel, um dia antes das prisões. Portava uma mala. As imagens não deixaram dúvidas: o homem com cabelos grisalhos, um pouco tenso, entrou no lobby do hotel por volta das 8 horas da manhã. Nas mãos de Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem, com a alça em volta do ombro esquerdo, para ninguém roubar a preciosa carga. Ele estava acompanhado de Gedimar Passos. Os dois pegaram o elevador. As câmeras também o filmaram andando pelo corredor onde ficava o quarto em que Gedimar Passos estava hospedado. Hamilton Lacerda entrou no quarto. Saiu em seguida. Sem a mala.

Mais tarde, Gedimar Passos foi filmado com a mesma mala, caminhando em direção ao restaurante do hotel. Foi fazer uma refeição, mas preferiu não deixar a preciosa carga no quarto. Na madrugada do dia 15, horas antes das prisões, Hamilton Lacerda voltou ao Ibis Congonhas. Desta vez, portava uma maleta e uma sacola plástica. Foi embora pouco depois. Sem a sacola. Para a Polícia Federal, ele fora levar uma segunda remessa de dinheiro ao hotel. O R$ 1,7 milhão não teria cabido em uma só mala.

Trecho do depoimento de Hamilton Lacerda à Polícia Federal:

"O declarante informa que, provavelmente na última semana de agosto, foi contatado por Jorge Lorenzetti e Expedito Veloso, afirmando que existiam documentos em Cuiabá relacionados à ‘máfia dos sanguessugas’ e que poderiam ser utilizados na campanha em desfavor dos candidatos do PSDB, caso fossem verdadeiros; que o material existente teria um reflexo negativo na campanha nacional e estaduais onde concorresse o PSDB".


Ou seja, a campanha de Lula seria diretamente beneficiada pela operação. Quando as fotografias da montanha de dinheiro apreendida no Ibis Congonhas apareceram nos jornais, o PT tentou impedir a divulgação das imagens nos programas eleitorais. Não conseguiu. A reeleição de Lula teve de ficar para o segundo turno.

Em entrevista ao jornal O Globo, Lula foi questionado se perguntou aos envolvidos no escândalo, quase todos ligados historicamente a ele e ao PT, sobre quem teve a idéia de comprar o dossiê e qual era a origem do dinheiro. Resposta do presidente:

- Não perguntei nem perguntarei.

Tradução: Lula não sabia de nada, como sempre, nem se interessava em saber. Mais uma vez, porém, era beneficiário de um esquema de corrupção.


As investigações sobre o escândalo do dossiê continuaram no segundo mandato de Lula. Avançaram pouco, porém, resvalando sempre no falso dilema e na desculpa de que não havia sido descoberta a origem do R$ 1,7 milhão. O importante deveria ter sido o fato de que havia o dinheiro, devidamente apreendido, e que uma quadrilha fora desbaratada num ato criminoso. E que várias pessoas envolvidas acabaram desligadas de seus cargos, inclusive da campanha eleitoral do presidente da República.

A CPI dos Sanguessugas, responsável pela investigação do caso do dossiê em âmbito do Congresso Nacional, encerrou os trabalhos sem apontar nada consistente. Não responsabilizou ninguém. A Polícia Federal, encarregada da apuração do crime, chegou a acusar Jorge Lorenzetti, Osvaldo Bargas, Expedito Veloso e Gedimar Passos, todos homens da campanha de Lula, como os autores da operação.

Dos quatro, no entanto, acabou indiciando apenas Gedimar Passos, preso com o dinheiro no hotel Ibis Congonhas. Foi acusado de lavagem de dinheiro. Resumo da ópera: Lula foi blindado, mais uma vez.

Ao tirar o foco do Palácio do Planalto, a Polícia Federal tratou de culpar o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Além de Gedimar Passos, indiciou Valdebran Padilha, que fora preso com ele segurando a bolada, Hamilton Lacerda, o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante, José Giácomo Baccarin, tesoureiro de Aloizio Mercadante e suspeito de ser o dono do caixa 2, além do próprio candidato petista a governador, que seria beneficiado com a divulgação do dossiê.

Interessante notar que o relatório da Polícia Federal afirmava que Hamilton Lacerda, indiciado por lavagem de dinheiro, só fora chamado posteriormente a participar da ação, pelos quatro homens da campanha de Lula, sendo que três deles, como vimos, foram inocentados no final.

Ao justificar a acusação a Hamilton Lacerda, a Polícia Federal registrou que o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante era "pessoa da confiança do senador, não se imaginando que fosse tomar uma atitude daquela responsabilidade e risco sem sua anuência".

Outro trecho do relatório da Polícia Federal:

"A alegação do candidato Aloizio Mercadante de que não teria autorizado ataques ao seu rival político José Serra e que, por consequência, nada sabia do dossiê, nos aparenta, no mínimo, inverossímil".


Mas ficou nisso. O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pediu o arquivamento da denúncia contra Aloizio Mercadante. O STF (Supremo Tribunal Federal) acatou. E seis meses após as eleições foi a vez do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) arquivar investigação judicial para apurar abuso do poder econômico e político por parte de Lula no escândalo do dossiê. O País da corrupção e da impunidade seguiu o mesmo.

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O Chefe - Capítulo 4 - A história do 'acordo criminoso' da chapa Lula/José Alencar em 2002



O Chefe - Capítulo 4

A história do 'acordo criminoso' da
chapa Lula/José Alencar em 2002




A revelação dos detalhes da negociação entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Liberal para acertar a chapa Lula/José Alencar que disputaria a Presidência da República em 2002 constituiu um dos episódios mais graves da era Lula.

Não teve a repercussão merecida.

A verdade é que não houve entendimento político em torno de propostas para o País, nem tampouco o debate sobre um programa de governo.

Tratou-se de dinheiro, apenas.

De quanto o PT repassaria para o PL, a fim de obter apoio do partido ao qual era filiado o homem que Lula desejava como seu vice-presidente.


Ao denunciar o escândalo do mensalão, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, qualificou a aliança eleitoral entre PT e PL de "acordo criminoso". Ele acusou o deputado cassado José Dirceu (PT-SP) e os presidentes nacionais das duas legendas, deputado José Genoino (PT-SP) e o na época ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), que havia renunciado para se livrar de eventual cassação do mandato por quebra de decoro. Mas deixou de fora Lula (PT-SP) e José Alencar (PL-MG). Trecho da denúncia encaminhada ao STF (Supremo Tribunal Federal), na qual o procurador-geral abordou as operações de lavagem de dinheiro com as quais o PT pagou o PL:

"De fato, consciente de que os montantes eram oriundos de organização criminosa voltada para o cometimento de crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional, os denunciados articularam mecanismo para dissimular a origem, natureza e destino dos valores auferidos."


A história do acordo PT/PL quase não repercutiu porque foi revelada num dos momentos mais graves do escândalo do mensalão e acabou ofuscada pela enxurrada de acontecimentos. A revista Época que trouxe a entrevista com Valdemar Costa Neto confessando a operação de suborno circulou em 13 de agosto de 2005, no dia seguinte àquele em que Lula admitiu ter sido "traído por práticas inaceitáveis" e afirmou não ter vergonha de dizer ao povo brasileiro "que nós temos de pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas".

Lula, aliás, jamais iria apontar quem o traíra. Nem tampouco é o caso de simplesmente pedir desculpas para se livrar de atos criminosos. Lula procurava ganhar tempo na tentativa de reduzir os danos do depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios, ocorrido na véspera. Talvez tenha sido o fato mais marcante da crise. O homem responsável pela campanha que elegera o presidente da República confessara o recebimento de R$ 11,9 milhões em caixa 2. Dinheiro repassado por Marcos Valério, e que serviu para pagar os serviços prestados a Lula por Duda Mendonça em 2002. Para muitos analistas, teria sido o momento certo para deflagrar o processo por crime de responsabilidade contra Lula, cuja pena seria o seu impeachment.

Neste contexto, chegava às bancas de jornal a revista Época com a entrevista de Valdemar Costa Neto concedida aos repórteres Thomas Traumann e Gustavo Krieger. Como se sabe, Valdemar Costa Neto foi um dos artífices da aliança PT-PL. Ele dera os detalhes do acordo:

- Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice. Tivemos muitas reuniões em Brasília, na casa do José Dirceu. Sempre participavam o João Paulo Cunha, quase sempre o Silvio Pereira, sempre o Delúbio Soares, além do José Alencar.


Valdemar Costa Neto contou que, com a aprovação da verticalização das eleições, ou seja, com a obrigatoriedade de as alianças regionais seguirem a coligação nacional, o PL precisou de dinheiro:

- A questão é que o PL precisava ter 5% dos votos para ter as verbas do fundo partidário. Com a verticalização, as nossas chances de chegar a 5% eram pequenas, porque só poderíamos coligar com o PT. Falei para o Zé Dirceu: "Para isso, preciso de uma estrutura muito maior para segurar meu pessoal". Ele falou: "Mas quanto?" Eu falei: "R$ 15 milhões, R$ 20 milhões".


O PT dizia não ter dinheiro. Valdemar Costa Neto envolveu Lula e Alencar:

- Já estávamos fazendo uma nota conjunta dizendo que a coligação PT-PL não ia sair quando me liga o Zé Alencar. Eu contei a ele que não conseguimos chegar a um número. "Não vou prejudicar nosso pessoal todo em troca de uma aliança", falei. O Zé Alencar disse para eu não assinar a nota conjunta. Daí 15 minutos, ele ligou e disse que o Lula viria no dia seguinte a Brasília resolver o assunto.


Ficou claro o envolvimento de Lula. Valdemar Costa Neto dissera que não se chegara a "um número", Alencar pediu um tempo e em 15 minutos telefonou e informou que Lula viajaria a Brasília para resolver. A negociação:

- A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha. Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: "Quer dizer então que você é o nosso problema?" "Não posso matar o nosso pessoal", respondi. O Zé Dirceu não queria falar de dinheiro, queria negociar a participação no governo: "Valdemar, vamos governar juntos?" Respondi: "Mas, desse jeito, não vai sobrar ninguém na Câmara para governar junto com vocês". Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: "Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos". Daí o Delúbio chegou perto de mim e disse: "Vamos conversar".

- E vocês falaram de números...

- O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu comecei pedindo R$ 20 milhões, para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão. Uma hora, o Zé Alencar entrou e falou: "E aí, já resolveram?" Eles achavam que iam arrecadar R$ 40 milhões. Eu falei: "Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo". Eles ameaçaram ir embora. O Lula mandou ligar para o Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer "acabou". Eles batiam tanto o pé comigo que eu pensei: "Ô povo firme. Esses vão me pagar rigorosamente em dia". Daí chamei o Zé Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto. Falei: "Vamos acertar os R$ 10 milhões". Voltamos para a sala e avisamos: "Está fechado". Lembro ainda que o Zé Alencar falou "peça tudo por dentro".

- Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?

- Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi lá para bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.

- O vice-presidente José Alencar falava "tudo por dentro". E o presidente Lula dizia o quê?

- Nunca falou. Quando saí, ele me falou: "Então está liquidado o assunto". O Lula foi lá para autorizar a operação. E não vejo nada demais. O que ninguém esperava é que desse essa lambança.


Hora do pagamento. Delúbio Soares procurava Valdemar Costa Neto:

- Em fevereiro de 2003, ele falou que ia me dar a primeira parcela. Era para eu mandar meu pessoal até a SMPB, em Belo Horizonte, para pegar o dinheiro. Perguntei quanto era. Ele disse: "Eu não sei. Vai lá". Mandei o Jacinto Lamas. Chegou lá, o Jacinto me liga: "Não é dinheiro, me deram um envelope". Eu falei: "Nem abre". E liguei para o Delúbio. Falei: "Delúbio, é um envelope". Ele falou: "Não tem problema, pode trazer". Mandei o Jacinto levar o envelope fechado para São Paulo, até o flat onde eu morava. Quando abri o envelope, eram cheques. O total era de R$ 800 mil. Todos cheques da SMPB, para uma empresa chamada Guaranhuns. Eu liguei de novo para o Delúbio. Ele falou: "Fica tranquilo, que eu vou mandar buscar o cheque aí". Passa uma hora, vem um segurança, desse pessoal que mexe com dinheiro, e falou assim: "Vim resgatar". E me deixou o dinheiro. Dinheiro vivo, cash. Estava numa daquelas malinhas com rodinhas, de levar no aeroporto. Chamei alguns fornecedores de campanha e eles pegaram todo o dinheiro.

- Esse procedimento, de pegar cheques na SMPB e trocar por dinheiro em São Paulo, se repetiu?

- Duas ou três vezes. O sujeito chegava, colocava o dinheiro na mesa e pedia que eu conferisse. Separava direitinho nos pacotes.


Valdemar Costa Neto garantiu que o dinheiro não seguia para deputados do PL, apenas para fornecedores de campanha. Nas viagens a Belo Horizonte, segundo ele, o tesoureiro Jacinto Lamas foi buscar um total de R$ 3,2 milhões. O presidente do PL disse que ficava preocupado com a logística de mandar pegar cheques na capital mineira, mas o esquema não incomodava Delúbio.

- Quando você está no governo, você é o dono do mundo. Você não tem preocupação com nada. Eu disse para ele: "Você está me mandando em cheque e eu quero em dinheiro. Para com isso. Me tira desse negócio lá de Minas Gerais, que está ficando ruim para mim". Aí, eles inventaram aquele negócio do Banco Rural. Mas foi só em setembro. De abril a setembro de 2003, não recebi nada.

- O dinheiro era sempre entregue na SMPB ou no Banco Rural?

- Não, teve dinheiro que eles entregaram para mim. Entregaram para o Jacinto em Brasília... O Jacinto chegou a receber em hotéis. Uma vez, em São Paulo, mandaram ele pegar o dinheiro num restaurante. Era sempre o Delúbio quem me avisava que o dinheiro estava liberado.


Os repórteres de Época perguntaram quando os pagamentos passaram a ser feitos diretamente no Banco Rural. Valdemar Costa Neto respondeu:

- O Delúbio falou: "Vou mandar o dinheiro para Brasília. Pega no Banco Rural". Isso me atrapalhava, porque os credores do PL estão em São Paulo. O Jacinto Lamas deixava o dinheiro comigo, e os credores iam receber lá em casa. Primeiro no hotel Academia de Tênis, onde eu morava. Depois na minha casa, em Brasília.


Valdemar Costa Neto levou uma "geladeira de um ano" do ministro José Dirceu, por divergências na Reforma da Previdência. Nesse período, de acordo com ele, "José Dirceu escolheu operar com o Roberto Jefferson. O Jefferson era o cara que estava sempre com eles, que andava com o Lula. Eles entraram nesta porque quiseram. Jefferson é um sujeito conhecido na praça".

- Conhecido como?

- Conhecido. Como um cara mal-intencionado, perigoso. Para indicar diretor de estatal... Ele diz que indicava diretores de estatais para arrecadar dinheiro para o PTB. Em dois anos de governo Lula, o PTB arrecadou oficialmente R$ 200 mil. Ele diz que arrecadava R$ 400 mil por mês em uma estatal. Onde ele punha esse dinheiro? Ia para o bolso dele. Eles acabaram como tinham de acabar. Em Brasília, você é obrigado a conviver com pessoas que não gosta. Mas não precisa colocar dentro de sua casa. Eles escolheram conviver com um cidadão assim. Eles indicavam aos deputados para ir para o PTB. Tem de perguntar para eles por que esta preferência.


Época indagou quanto Valdemar Costa Neto recebeu do esquema Valério:

- Foram R$ 6,5 milhões. Não chegou aos R$ 10,8 milhões que estão falando. Estão botando R$ 4 milhões a mais na minha conta. Dinheiro que foi repassado para a Guaranhuns e um outro cheque, que não é nosso.

- Delúbio Soares diz ter montado o caixa 2 sozinho. É possível que o ex-ministro José Dirceu não soubesse do que estava acontecendo?

- O Zé Dirceu sempre comandou o PT. O Zé e o Lula. Eu cheguei a cobrar o Zé diversas vezes no Planalto. Falei: "Zé, meu dinheiro está vindo pingado, em conta-gotas". Falei que eu queria receber tudo de uma vez. O Zé disse: "Calma que o Delúbio está providenciando o dinheiro para te pagar. Ele vai arrumar o dinheiro e resolver tudo".

- Ele sabia o que o Delúbio estava fazendo?

- É gente deles. Esse pessoal construiu o PT junto. Delúbio, Lula e José Dirceu são a mesma família. Por que, agora, na desgraça, só um vai pagar? Tenho certeza de que o Dirceu nunca fez nada que o presidente não aprovasse.


Três dias depois de publicada a confissão de Valdemar Costa Neto, o vice José Alencar concedeu entrevista durante evento no Palácio do Planalto. Confirmou as declarações de Valdemar:

- Tudo aquilo que ele fala é verdade. Houve uma reunião e houve um acordo. Esse acordo está registrado na imprensa no ano de 2002, um acordo eminentemente político.


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12 dezembro, 2015

O APOIO DE CUBA À LUTA ARMADA NO BRASIL: O TREINAMENTO GUERRILHEIRO [ Exportar a revolução ]

Exportar a revolução

«Ele [Che Guevara] nos dizia [ao grupo de guerrilheiros que preparava para partir para a Bolívia] que um homem pode morrer não importa onde sem que ninguém saiba ou ainda morrer na sua família e ser completamente esquecido em muito pouco tempo. Nós, ao contrário, nos tornaríamos heróis da Revolução latino-americana e ficaríamos para sempre como símbolo. (...)...nós decidimos que era mais bonito se transformar assim em herói que levar uma vida mesquinha, cheia de miséria e amargura. Nós nos dizíamos que, em breve, as pessoas próximas a nós e todos aqueles que nós conhecíamos nos considerariam com orgulho».

Benigno *VI. Exportar a revolução é o título de uma parte do livro de Benigno, nome de guerra de Dariel Alarcón Ramírez, revolucionário cubano que participou de Sierra Maestra e lutou, ao lado de Che Guevara, na África e na Bolívia. Nos anos 1990, Benigno deixou Cuba, o poder e o prestígio que sua trajetória lhe conferia e tornou-se um dissidente. A condenação e o fuzilamento de outro antigo revolucionário, Arnaldo Ochoa, em 1989, motivaram o rompimento. O ciclo do revolucionário dissidente está contido no título, Vida e morte da revolução cubana, síntese de um processo que se confundiu com sua própria história. Benigno relatou a saga da tentativa de levar a revolução pelo mundo, como uma onda que asseguraria a vitória da revolução em Cuba e libertaria os povos do Terceiro Mundo.

Como sabemos, a tese do internacionalismo revolucionário nasceu com o próprio socialismo e, historicamente, sempre encontrou tensões e obstáculos entre os revolucionários. No caso da América Latina dos anos 1960, a experiência na Bolívia, ou melhor, a tentativa de implantar o foco guerrilheiro no país, é significativa: levou à morte o símbolo do guerrilheiro sem pátria, trouxe à tona o seu isolamento em relação à sociedade que queria libertar e à própria esquerda, evidenciou as diferenças nacionais no continente, colocando em xeque o mito da pátria latina.

O drama da vivência de Benigno, onde a realidade massacrou o sonho, não o impediu de, ao voltar como sobrevivente da Bolívia a Cuba, reassumir as ocupações anteriores à partida: o treinamento de estrangeiros *VII. Em meio às pressões da URSS para que a revolução não fosse exportada – embora com a sua cumplicidade - e aos fracassos no exterior, o treinamento guerrilheiro foi mantido até meados dos anos 1970.

Desde a crise dos mísseis e a definição do governo cubano como socialista, em 1961, a questão da exportação da revolução para os países latinoamericanos se colocou na ordem do dia, como condição para sobrevivência e consolidação da revolução em Cuba. Nesse momento, os revolucionários passaram a contar a história da vitória de tal maneira que construíram um dos maiores mitos da esquerda latino-americana dos anos 1960: o do foco guerrilheiro. A revolução teria se desencadeado e tornara-se vitoriosa a partir de guerrilheiros capazes de subverter a ordem e reorientar os rumos do país. No processo de construção da memória da revolução, ainda no calor dos acontecimentos, pouca ênfase foi dada à conjuntura, onde o clima de descontentamento e revolta contra a ordem estabelecida havia levado à mobilização e à organização da sociedade. Quando os revolucionários desembarcaram em Cuba, um episódio tantas vezes narrado como um quadro épico, não estavam sozinhos. Ao contrário, encontravam uma situação plenamente favorável à sublevação *VIII. Assim, os revolucionários, ao construir a memória da revolução, não romperam com a maneira pela qual, tradicionalmente, os vencedores constróem o passado. Aliás, como sabemos, assim tem sido em todas as revoluções. O fato é que essa versão serviu como uma luva para movimentos revolucionários dos chamados países do Terceiro Mundo, em especial para os da América Latina, que não contavam com a participação social na luta revolucionária ou o faziam com limites e contradições. Nada como um exemplo, um modelo a ser seguido, equacionado as dificuldades, apontando soluções, propondo caminhos, encorajando a luta. Essa construção não serviria, exclusivamente, aos guerrilheiros dos países hermanos. Sobretudo, internamente, fortalecia Cuba, redirecionando a força da sociedade para a "vanguarda", potencializando-a, colocando aquela refém desta. Externamente, redefinia o país no cenário do movimento comunista internacional, fazendo da pequena Ilha tão próxima dos EUA o primeiro território "socialista" da América Latina.

No entanto, não se está aqui defendendo esse processo como algo simplista. Contar a história envolve aspectos complexos que têm a ver com os mecanismos através dos quais grupos sociais, homens e mulheres lidam com a realidade, as ilusões, as frustrações, os desejos, os conflitos, o poder, a dominação. De outra maneira seria impossível compreender a opção de Che Guevara e de outros revolucionários pela luta na África e na Bolívia. Nesse ponto, o testemunho de Benigno também é bastante esclarecedor. Por um lado, desvenda uma trama de meias-verdades, de meias-palavras, de pressão e de resistência que envolveu o governo cubano e o Partido Comunista Boliviano.

Entre uma queda de braço e um jogo de sedução, Mário Monje, primeiro secretário do PC boliviano e os cubanos se aproximavam, mediam forças, se afastavam, se encaravam, desviavam olhares, dissimulavam mutuamente, fingiam acreditar no fingimento. Foi assim que Monje fez treinamento guerrilheiro em Cuba, sem se envolver, sem entusiasmo, em silêncio, como um remédio que se toma, mas no qual não se acredita, mas que se toma. Quando Guevara chegou com seus homens à Bolívia ficou profundamente irritado: as condições para a guerrilha eram nulas, sem apoio do Partido, isolados, sem armas, num meio hostil, onde os camponeses que apareciam eram para denunciar a presença dos guerrilheiros. Benigno assegura que o governo cubano não informou Guevara sobre as condições concretas, embora as conhecesse. Mas Che já estava lançado, num caminho sem volta. Todos ali acreditavam na exportação da revolução. Benigno é o testemunho dessa crença mesmo quando já acumulavam a experiência frustrada no Congo: a formação dos homens, a preparação, a fé no projeto que tentavam realizar. Se não houvesse revolução em outros países, não haveria lugar para Che. O poder burocratizado lhe era estranho e as críticas à URSS, manifestadas publicamente em 1965, o indispunham a permanecer no governo, em um momento em que Cuba já dependia da ajuda soviética *IX. Assim, seguiu a opção feita desde sempre, coerente com sua vida, em direção à revolução, à transformação, à vida, ao abismo, à morte, à lenda.

A partir da derrota e da morte de Che na Bolívia, em outubro de 1967, Fidel Castro confirmou o caminho que vinha seguindo desde 1964 de aproximação com a URSS e os partidos comunistas, assumindo a realidade da construção do socialismo em um só país e a dependência em relação à grande potência socialista *X. No entanto, a própria posição de Fidel a esse respeito era ambígua. Moniz Bandeira acredita que Fidel e Che...
«...coincidiam quanto à necessidade de impulsionar a revolução no Terceiro Mundo. Castro não se submetera ao acordo de refrear a luta armada, estabelecido em novembro-dezembro de 1964, sob inspiração de Moscou, com os partidos comunistas ortodoxos, e convocara a Havana cerca de 430 representantes tanto da esquerda legal ou clandestina (exceto os maoístas) dos três continentes, como dos movimentos nacionalistas mais radicais, para participar da Conferência Tricontinental, instalada em 13 de janeiro de 1966, com o objetivo de criar uma Internacional revolucionária no Terceiro Mundo, a Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAL)» *XI.
É nesse sentido que, em 1967, entre 31 de julho e 10 de agosto, ocorreu a conferência que deu origem à Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), que, como ondas - olas - estenderia a revolução através da América Latina. Assim, para Moniz Bandeira, a ida de Guevara para a África e a Bolívia não foi motivada pelos desentendimentos com Fidel quanto às relações com a URSS, que se opunha às tentativas de desencadeamento da revolução na América Latina, como muitos a interpretam. Inseria-se, ao contrário, no projeto apoiado pelo próprio Fidel. Sobre esta posição da URSS, no entanto, é bom lembrar que a própria URSS, evidentemente, sempre esteve a par do fluxo mantido nos anos posteriores de militantes indo a Cuba treinar. As rotas de entrada e saída do país, por exemplo, passavam por Moscou e Praga, onde os guerrilheiros eram recebidos e orientados.

Ao longo dos anos 1964, 1965 e 1966, as derrotas das tentativas de implantação de focos guerrilheiros foram inúmeras, levando à morte diversos guerrilheiros *XII. Em 1968, diante de uma grave crise econômica, o isolamento internacional de Cuba e da derrota das guerrilhas na América Latina, sobretudo na Venezuela, na Colômbia, na Guatemala e na Bolívia, Fidel buscou a reaproximação com a URSS, simbolizada no apoio à invasão à Tchecoslováquia *XIII.

Nos primeiros meses de 1969, as negociações comerciais entre os dois países já apontavam para a distensão da crise. O compromisso de pôr fim à exportação da revolução acabou se concretizando em 4 de agosto de 1970: Cuba não atacaria os países vizinhos e os EUA não invadiria a Ilha *XIV. A partir de 1972, Cuba integrou-se formalmente no Bloco Socialista, incluindo-se no Conselho para a Ajuda Econômica Mútua, o COMECOM *XV. Em 1975, entretanto, Cuba interveio em Angola atendendo o pedido de Agostinho Neto, líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA):
«Conquanto se retraísse na exportação de guerrilhas para a América Latina e limitasse a assistência (treinamento, assessoramento e armas) apenas à Frente Sandinista de Libertação Nacional (Nicarágua) e à Frente de Libertação Nacional Farabundo Martí (El Salvador), Castro não abdicara de sua militância internacional e intensificara a presença de Cuba na África, [...] Angola, bem como, em 1977, da Somália e da Etiópia» *XVI.
Ver:
A Morte pela Fome no Comunismo na
Etiópia
Assim, mesmo diante da redefinição quanto ao apoio à guerrilha na América Latina, em 1968, ainda que considerando as ambigüidades a esse respeito, Cuba continuou, nos anos seguintes, treinando guerrilheiros latinoamericanos. Por quê? A maior parte dos brasileiros, aliás, foi treinada exatamente a partir deste ano. Cuba teria treinado de 2.000 a 3.000 guerrilheiros latinoamericanos entre 1962 e 1967 e continuou a fazê-lo até pelo menos 1970 *XVII. A redefinição, no entanto, quanto à exportação da revolução já era clara desde 1968. Como um disco tocando em duas rotações, simultaneamente. Uma afinava-se com a realidade da necessidade e das derrotas, outra com o mito da "vanguarda", que alimentava o sonho que não existia mais.

Domingos Fernandes, militante da ALN, treinado em Cuba, acredita que esta dubiedade foi mantida:
«...havia uma coisa surda entre os que se consideravam revolucionários cubanos e aqueles que tocavam o país. Sentia-se que não era uma coisa só: os que cuidavam do Estado, do futuro eram pessoas mais preocupadas com a relação com a URSS, que dava muito apoio econômico, e os caras que esses chamavam de porra-louca, que davam assistência às guerrilhas latino-americanas» *XVIII

Assim é que, de volta a Cuba, depois do episódio na Bolívia, em fins de 1967, Benigno pôde reassumir sua posição como instrutor de treinamento. A experiência só consolidou o seu currículo de revolucionário. Derrotada a exportação da revolução, o herói legitimaria como ninguém o projeto que reforçava interna e externamente a posição de Cuba [...] do continente e produziria outros [...] muitos presos e mortos.

Quanto à revolução brasileira, Cuba apoiou a formação de guerrilheiros, desde o momento em que assumiu a função de exportar a revolução, quando o Brasil vivia sob o regime democrático do governo João Goulart, ou seja, antes da instauração da ditadura. 1955 - pós período Vargas

A maior parte, como disse, foi treinada a partir de 1968, quando Cuba já havia se voltado para a construção do socialismo em um único país, com o apoio da URSS. Embora um caso isolado, chegou a haver treinamento mesmo ao longo de 1973, quando a guerrilha no Brasil já estava aniquilada, à exceção da guerrilha do PCdoB, no Araguaia (1972-74). Em junho de 1973, quando a ALN estava esmagada e vencida, com os militantes mortos, presos ou no exílio, Arnaldo Ochoa chegou a propor à organização um plano de entrada, pela Amazônia, de guerrilheiros cubanos e brasileiros para implantar a guerrilha no Norte e disseminá-la a partir daí.

A avaliação da realidade parecia secundária. Como se o plano tivesse autonomia, vida própria. Ainda que numa outra conjuntura, não teria sido assim que Che e seus guerrilheiros chegaram à Bolívia, secundarizando a realidade do país a partir do qual todo o continente iria se levantar?

Cuba apoiou, concretamente, os brasileiros em três momentos bem diferentes. O primeiro, como disse, foi anterior ao golpe civil-militar. Nesse momento, o contato do governo cubano era com as Ligas Camponesas. Após a instauração do novo regime e, desarticuladas as Ligas, o apoio cubano foi dado ao grupo liderado por Leonel Brizola, composto de outras lideranças dos movimentos sociais do período pré-1964, tendo como base os sargentos e marinheiros expulsos das Forças Armadas. A partir de 1967, desmobilizadas as tentativas de implantação da guerrilha ligadas a este grupo, Carlos Marighella, presente na Conferência da OLAS, surgiu, para os cubanos, como o grande nome da revolução no Brasil *XIX. Daí até o início dos 1970, Cuba treinou guerrilheiros de organizações de vanguarda que seguiram o caminho da luta armada, principalmente, da ALN, da VPR e do MR-8.


Publicado em: Rollemberg, Denise. O apoio de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2001. 96 pp.


VI - BENIGNO, 1996. p. 128. vii - Benigno esteve no treinamento de brasileiros.
VIII - Não é o caso aqui de desenvolver essa questão do mito do foco guerrilheiro, uma vez que diversos autores já a abordaram em detalhes sem deixar dúvidas a respeito de sua construção. Cf. GORENDER, J., 1987. p. 82.
IX - Cf. o discurso de Che Guevara em 24 de fevereiro de 1965, no Seminário Econômico de Solidariedade Afro-Asiática, em Argel, in MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 549.
X - Cf. MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, cap. XVI.
XI - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 562. XII - Cf. MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, cap. XVI.
XIII - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 587.
XIV - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 589.
XV - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 595-6.
XVI - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998, p. 594.
XVII - MONIZ BANDEIRA, L. A., 1998. Sobre a quantidade de guerrilheiros treinados em Cuba, há, no Fundo DEOPS-SP, o documento 30-Z-160-11.891, da Secretaria de Segurança Pública, DEOPS, Serviço de Informações, São Paulo, 28 de fevereiro de 1972. Trata-se da transcrição do boletim Les informations politiques et sociales: «2.500 agentes subversivos treinados em Cuba em 10 anos. Cuba formou cerca de 2.500 agentes de toda a América Latina, entre 1960 e 1969, continuando seu apoio ativo aos movimentos revolucionários dos países latino-americanos. Estes detalhes sobre as atividades subversivas cubanas na América Latina foram apresentados por importantes funcionários do Pentágono à Subcomissão latino-americana da Câmara de Representação, presidida por Dante Pascall, senador democrata da Flórida (EUA). Segundo o comandante Gerald Cassel, da Agência de Informações Militares, a instigação dos soviéticos e o papel dos cubanos na subversivação latinoamericana é mais difícil de identificar desde algum tempo. Porém, segundo M. Philpott, diretor da dita Agência, entre 1960 e 1969, se formaram em Cuba de 2.150 a 2.500 agentes subversivos».
XVIII - Entrevista com Domingos Fernandes concedida a DR. São Paulo, 4 de julho de 2000. Fita 2, lado A, p. 14 da transcrição.
XIX - Carlos Marighella esteve em Cuba entre junho e dezembro de 1967.
XX - Para a história das Ligas Camponesas, ver AZEVÊDO, Fernando Antônio, 1982; BASTOS, Elide Rugai, 1984; MORAIS, Clodomir, 1970; NOVAES, Regina Reyes, 1997.
XXI - DOPS-RJ. «Ligas Camponesas no Estado do Rio». Setor: diversos, pasta 26, dossiê 7; doc., Rio, GB, 9/11/61