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01 março, 2016

TEORIA INSTITUCIONAL DO PROGRESSO

Para tornar menos abstratas as considerações que vimos fazendo, tentaremos, na presente seção, esboçar, em brevíssimas linhas, uma teoria do progresso científico e industrial. Procuraremos, dessa maneira, concretizar as idéias expostas nas quatro últimas seções e, mais particularmente, as idéias de lógica situacional e de um individualismo metódico isento de psicologia. Recorro ao exemplo do progresso científico e industrial porque foi esse, indubitavelmente, o fenômeno inspirador do moderno historicismo do século XIX e porque já examinei, atrás, algumas idéias de Mill a respeito do assunto. Comte e Mill, lembremos, sustentaram que o progresso é uma tendência incondicional ou absoluta, reduzível às leis da natureza humana.

“Uma lei de sucessão”, escreve Comte, “ainda quando revestida de toda a autoridade que lhe possa conferir o método de observação histórica, não deve ser acolhida antes de ver-se racionalmente reduzida à teoria positiva da natureza humana”. Acredita ele que a lei do progresso é dedutível de uma tendência dos homens que os impele a, mais e mais, aperfeiçoar a própria natureza. Nesse ponto, Mill dá completa adesão a Comte e procura reduzir a lei comtiana do progresso ao que ele, Mill, denomina “caráter progressista do espírito humano”, cuja primeira “força impulsionadora ... é o desejo de crescente conforto material”. Ao ver de ambos, Comte e Mill, a feição incondicional ou absoluta dessa tendência ou quase-lei capacita-nos a deduzir, a partir dela, os primeiros estágios ou fases da História, sem que se faça necessário o conhecimento de quaisquer condições históricas iniciais, observações ou dados.

Em princípio, dessa forma poderia ser deduzido todo o curso da História; a única dificuldade reside, como diz Mill, em que “uma série tão longa (...) onde cada termo sucessivo se compõe de crescente e variado número de partes não pode ser abrangida pelas faculdades humanas.”.

Parece óbvia a inconsistência dessa “redução” que Mill propõe. Ainda que admitíssemos as premissas e deduções por ele sugeridas, daí não decorreria significativo efeito social ou histórico. O progresso pode tornar-se desprezível, em razão, digamos, de um incontrolável ambiente natural. Além disso, as premissas estão apoiadas em um aspecto apenas da natureza humana, desconsiderando aspectos outros, como o esquecimento ou a indolência. Assim, onde observamos exatamente o oposto do progresso descrito por Mill, poderemos, com igual procedência, “reduzir” essas observações à “natureza humana”. (Não são, com efeito, a ociosidade e a tendência de comer em excesso características a que as chamadas teorias históricas recorrem comumente, para explicar declínio e queda de impérios?) São pouquíssimos, em verdade, os acontecimentos que não poderíamos explicar plausivelmente, fazendo apelo às propensões da natureza humana. E um método que explica tudo quanto pode acontecer nada explica. Se desejarmos substituir essa teoria espantosamente ingênua por uma doutrina mais sustentável, teremos de tomar duas medidas. Teremos, inicialmente, de tentar determinar as condições do progresso e, para esse fim, aplicar o princípio estabelecido na seção 28: deveremos tentar determinar as condições sob as quais o progresso se deteria. Isso nos leva a compreender, de imediato, que a propensão psicológica isoladamente não basta para explicar o progresso, pois podem ser descobertas condições de que ela dependa. Impõe-se, por isso mesmo, substituir a teoria das propensões psicológicas por algo mais satisfatório; sugiro seja ela substituída por uma análise institucional (e tecnológica) das condições de progresso. Como poderia ser detido o progresso científico e industrial? Fechando ou controlando os laboratórios de pesquisa, suprimindo ou controlando as revistas científicas e outros veículos de debate de idéias, impedindo conferências e congressos científicos, eliminando universidades e escolas, suprimindo os livros, as editoras, a escrita e, ao fim, a própria fala. Todas essas coisas, suscetíveis, sem dúvida, de supressão (ou controle), são instituições sociais. A língua é uma instituição social sem a qual não cabe pensar em progresso científico, pois, sem ela, não pode haver ciência e nem pode existir uma tradição crescente e progressiva. A escrita é uma instituição social, como o são as organizações criadas para imprimir e publicar, e todos os outros instrumentos institucionais do método científico. O próprio método científico tem aspectos sociais. A ciência e, mais especialmente, o progresso científico resultam não de esforços isolados, mas da livre competição de idéias. A ciência requer competição cada vez mais severa entre hipóteses e testes cada vez mais rigorosos. E as hipóteses em luta reclamam, por assim dizer, representação pessoal: precisam de advogados, precisam de um tribunal e até mesmo de público. Essa representação pessoal há de ser institucionalmente organizada, se desejarmos dar-lhe condições de operar. Essas instituições têm um custo de manutenção e pedem proteção legal.

Em última instância, o progresso depende largamente de fatores políticos, de instituições políticas que assegurem a liberdade de pensamento, depende da democracia.

É de algum interesse notar que a usualmente denominada “objetividade científica” se fundamenta, até certo ponto, em instituições sociais. A ingênua concepção de que a objetividade científica se apóia na atitude mental ou psicológica do cientista individual, no treinamento que recebe, na cautela com que age, em sua imparcialidade científica, é uma concepção que gera, como reação, a concepção cética segundo a qual o cientista jamais é objetivo. De acordo com essa maneira de ver, a falta de objetividade do cientista pode não ter maior importância no campo das Ciências Naturais, onde suas paixões não se excitam, mas será fatal no campo das Ciências Sociais, onde as tendenciosidades, os preconceitos de classe e os interesses pessoais estão presentes. Essa doutrina, apresentada em pormenor pela chamada “sociologia do conhecimento” (ver seções 6 e 26), esquece inteiramente o caráter social ou institucional do conhecimento científico, porque se baseia na simplória doutrina de que a objetividade depende da psicologia do cientista individualmente considerado. Esquece o fato de que nem a aridez, nem o abstrato caráter de um tópico de ciência natural impedem a parcialidade e o interesse próprio de interferirem nas crenças do cientista, e esquecem que, se tivéssemos de depender de sua imparcialidade, a ciência, mesmo a ciência natural, seria impossível. O que a “sociologia do conhecimento” esquece é justamente a sociologia do conhecimento – o caráter social ou público da ciência. Esquece que é o caráter público da ciência e de suas instituições que impõe disciplina mental ao cientista e que preserva a objetividade da ciência e sua tradição de debater criticamente as idéias novas. A este propósito, será talvez de conveniência referir uma outra das doutrinas mencionadas na seção 6 (Objetividade e valoração). Sustentou-se, ali, que, se a pesquisa científica em torno de problemas sociais exerce influência sobre a vida social, torna-se impossível ao cientista social, ciente dessa influência, conservar a adequada atitude científica de desinteressada objetividade. Nesse terreno, entretanto, nada há de peculiar à ciência social. Um físico ou um engenheiro comum enfrenta a mesma situação. Sem ser um cientista social, ele se dá conta de que a invenção de uma nova aeronave ou de um novo foguete pode exercer enorme influência sobre a sociedade. Esbocei, assim, algumas das condições institucionais de cuja concretização depende o progresso científico e industrial. É importante assinalar, agora, que essas condições, em sua maioria, não podem ser consideradas necessárias, e que todas elas, tomadas em conjunto, não chegam a ser suficientes. As condições não são necessárias porque, sem as instituições referidas (excluída, talvez, a língua), o progresso científico não seria estritamente impossível. “Progresso”, afinal de contas, ocorreu da palavra falada para a palavra escrita, e até para mais além (embora aquele primeiro desenvolvimento não tenha, talvez, correspondido, propriamente falando, a um progresso científico). De outra parte, e isto é mais importante, devemos reconhecer que, apesar das melhores organizações institucionais de que disponha o mundo, o progresso científico pode, um dia, cessar. Pode manifestar-se, por exemplo, um misticismo epidêmico. Isso é certamente possível, pois, se alguns intelectuais reagem ao progresso científico (ou às exigências de uma sociedade aberta) recolhendo-se ao misticismo, qualquer outra pessoa poderia reagir da mesma forma. Talvez que essa eventualidade possa ser combatida, fazendo-se com que um outro conjunto de instituições sociais; as instituições educacionais, por exemplo, desencorajem a uniformidade de visão e estimulem a diversidade. A idéia de progresso e sua disseminação entusiástica terão também algum efeito. Sem embargo, nada disso torna certo o progresso. Não há, em verdade, por que excluir a possibilidade lógica de surgimento de uma bactéria ou vírus que, digamos, espalhe o desejo do Nirvana. Verificamos, assim, que nem mesmo as instituições mais bem estruturadas mostram uma solidez a toda prova. Como já registrei, “As instituições são semelhantes a fortalezas: hão de ser bem projetadas e bem guarnecidas”. Nunca, porém, estaremos seguros de que o homem certo será atraído para a pesquisa científica. Nem poderemos estar seguros de que haverá homens de imaginação, engenhosos no inventar hipóteses novas. E, por fim, em tais assuntos, muito depende da pura sorte. E isso porque a verdade não é manifesta, e constitui erro crer como creram Comte e Mill – que, uma vez afastados os “obstáculos” (e aqui se alude à Igreja), a verdade se tornará visível para todos quantos desejam realmente enxergá-la. Parece-me que o resultado dessa análise admite generalização. O fator humano ou pessoal se mantém como o elemento irracional na maior parte das teorias sociais institucionais, ou em todas elas. A doutrina contrária, que prega a redução das teorias sociais à Psicologia – à semelhança de como procuramos reduzir a Química à Física está, penso eu, fundada em um mal-entendido. Brota da falsa crença de que esse “psicologismo metodológico” é corolário necessário de um individualismo metodológico – da inatacável doutrina segundo a qual devemos tentar compreender todos os fenômenos coletivos como algo que decorre das ações, interações, objetivos, esperanças e idéias de homens individualmente considerados, e que decorre das tradições criadas e preservadas por homens considerados de per si. É possível, entretanto, sermos individualistas, sem aceitação do psicologismo. O “método zero” de construir modelos racionais não tem caráter psicológico, sendo, antes, um método lógico. Em verdade, a Psicologia não pode colocar-se como base da ciência social. Em primeiro lugar, porque ela própria é apenas uma das Ciências Sociais: a “natureza humana” varia consideravelmente com a variação das instituições sociais, e seu estudo pressupõe, conseqüentemente, compreensão dessas instituições. Em segundo lugar, porque as Ciências Sociais muito se preocupam com as conseqüências ou repercussões não desejadas que as ações humanas possam ter. E, neste contexto, “não desejada” talvez não signifique “conscientemente não desejada”; caracterizará, antes, as repercussões que possam violar todos os interesses do agente social, sejam eles conscientes ou inconscientes. Embora algumas pessoas afirmem que apreciar as montanhas e a solidão é psicologicamente explicável, ocorre que, se muitas pessoas apreciarem as montanhas, deixarão de nelas poder gozar da solidão – e isso não é um fato psicológico; essa espécie de problema está, porém, na própria raiz da teoria social. Com essas ponderações, alcançamos um resultado que se põe em contraste flagrante com o ainda correntemente empregado método de Comte e de Mill. Em vez de reduzir considerações de ordem sociológica à base, aparentemente firme, da psicologia da natureza humana, diremos que, em última análise, o fator humano é o elemento incerto e instável da vida social e de todas as instituições sociais. Com efeito, esse é o elemento que, em última análise, não pode ser inteiramente controlado pelas instituições (tal como Spinoza originalmente sustentou).

Toda tentativa de sobre ele exercer completo controle conduz à tirania, ou seja, à onipotência do fator humano – submissão aos caprichos de uns poucos homens, ou até mesmo de um só homem.
Não será, entretanto, possível controlar o fator humano por meio da ciência –, o oposto do capricho? Sim dúvida, a Biologia e a Psicologia podem, ou poderão dentro em pouco, resolver o “problema da transformação do homem”. Todavia, os que tentarem assim proceder destruirão a objetividade da ciência e, com isso, a própria ciência, pois que a ciência e sua objetividade dependem de uma admitida competição de idéias, isto é, de liberdade. Caso se deseje que a razão se desenvolva e que a racionalidade humana sobreviva, nunca se deverá interferir com a diversidade dos indivíduos e de suas opiniões, objetivos e propósitos (a não ser em casos extremos de ameaça à liberdade política). Até mesmo o apelo, emocionalmente persuasivo, no sentido de que haja reunião em torno de um propósito comum, por excelente que seja, é apelo no sentido de que sejam abandonadas todas as opiniões morais contrastantes, as críticas recíprocas e os argumentos que elas provocam – é um apelo para que se abandone o pensamento racional. O evolucionista que exige controle “científico” da natureza humana ignora o quão suicida é essa exigência. A mola da evolução e do progresso é a variedade do material que venha a ser sujeito à seleção; é, no que interessa à evolução do homem, a “liberdade de ser ímpar e diferente dos outros”, “de discordar da maioria e seguir o próprio caminho”.

O controle holístico, levando à equiparação não dos direitos humanos, mas dos espíritos humanos, significaria o fim do progresso.

Frase Do Dia

KARL POPPER
A MISÉRIA DO HISTORICISMO » Download PDF «
© 1957 TÍTULO ORIGINAL: The poverty of historicism
TRADUTORES: Octany S. da Mota & Leonidas Hegenberg
KARL POPPER A MISÉRIA DO HISTORICISMO



Nascido na Áustria e naturalizado britânico, Karl Popper (1902 - 1994) foi um dos mais notórios filósofos da ciência do século XX. Oponente implacável do totalitarismo, seu conceito de Sociedade Aberta é o mais importante de sua obra.

Os dois volumes de A Sociedade Aberta e Seus Inimigos estão disponíveis online nos seguintes links:
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