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16 agosto, 2016

Margaret Heafield Hamilton [ 17 de agosto de 1936 ] [ Mulheres Admiráveis ]




Margaret Hamilton, engenheira líder de software do Projeto Apollo ao lado do código que ela escreveu À MÃO e foi usado para enviar a humanidade à lua. (1969)
Margaret Hamilton, engenheira líder de software do Projeto Apollo ao lado do código que ela escreveu À MÃO e foi usado para enviar a humanidade à lua. (1969)



Margaret Heafield Hamilton [ 17 de agosto de 1936 ] Cientista da Computação, engenheira de sistemas e de negócios, foi Diretora da Divisão de Engenharia de Software do MIT no Laboratório de Instrumentação, o qual desenvolveu o software de vôo on-board para o programa espacial Apollo. Em 1986, ela tornou-se a fundadora e CEO da Hamilton Technologies Inc. em Cambridge, Massachusetts. A empresa foi a desenvolvedora do 📄 Universal Systems Language baseado em seu paradigma de desenvolvimento antes do fato (DBTF) para os sistemas e design de software. Hamilton publicou mais de 130 papers, processos, e reportagens sobre os 60 projectos e seis grandes programas em que ela esteve envolvida.

Ela ensinou brevemente matemática no ensino médio e francês após a formatura, a fim de apoiar o marido enquanto ele trabalhava em seu diploma de graduação em Harvard, com o objetivo final de obter um diploma de pós-graduação em um momento posterior. Ela se mudou para Boston, Massachusetts, com a intenção de fazer a pós-graduação em matemática abstrata na Universidade de Brandeis. Em 1960, ela tomou uma posição provisória no MIT para desenvolver software para a previsão do tempo no LGP-30 e os computadores PDP-1 (no Projeto MAC de Marvin Minsky) para o professor Edward Lorenz no departamento de meteorologia. Hamilton escrevia, o quê naquela época na ciência da computação e engenharia de software, que ainda não eram disciplinas e os programadores aprendiam com o trabalho a experiência, à mão.


Margaret Hamilton, engenheira líder de software do Projeto Apollo
Em 1995. 📄 Postagens com marcador Mulheres Admiráveis.



08 agosto, 2016

Xenofonte, Economista [ Ωἰκονομικός / Oeconomicus ] Capítulo III


Um diálogo socrático principalmente sobre gestão doméstica e da agricultura, um dos primeiros trabalhos sobre economia em seu sentido original, a gestão doméstica, e uma fonte significativa para a história social e intelectual da Athenas clássica. Além da ênfase na economia do agregado familiar, o diálogo trata temas como a qualidades das relações de homens e mulheres, vida rural ou vida urbana, escravidão, religião e educação. 📄 Joseph Epstein afirma que o Oeconomicus [ Ωἰκονομικός ] pode realmente ser visto como um tratado sobre o sucesso na liderança tanto de um exército, ou de um estado. A composição do Oeconomicus [ Ωἰκονομικός ] talvez seja posterior à 362 a.C.. 📄 Cícero [ Marcus Tullius Cicero ] traduziu o Oeconomicus [ Ωἰκονομικός ] para o latim, ea trabalho ganhou popularidade durante o Renascimento com inúmeras traduções.


Xenofonte, Economista [ Ωἰκονομικός / Oeconomicus ] Cap. III
Críton, ao ouvir isso, exclamou: "Certifique-se, Sócrates, que eu não o deixarei ir agora até que você dê-me as provas que, na presença dos nossos amigos, você se comprometeu, então, a dar-me."

Bem, então, Críton (Sócrates respondeu), e se eu começar por mostrar(1) a ti dois tipos de pessoas, aquele gastando grandes somas de dinheiro na construção de casas inúteis, ea um custo menor, outro que erguem muitas moradias repletas de tudo do quê se precisa; Tu admitirias que eu coloquei meu dedo aqui em um dos fundamentos da economia?
[1] Como "manifestar".
[ Críton ] Um ponto essencial certamente.

[ Socrátes ] E suponha que em conexão com o mesmo, eu em seguida mostre-lhe(2) dois outros conjuntos de pessoas: -Os primeiros são possuidores de móveis de vários tipos, que eles não podem, no entanto, colocar as mãos quando surge a necessidade; na verdade, eles quase não sabem se eles têm a todos sãos e salvos ou não: No qual eles mesmos e seus criados se colocam a muita tortura mental. Os outros são talvez menos amplamente, ou pelo menos não mais amplamente supridos, mas eles têm tudo pronto no instante para uso imediato.
[2] Como em um espelho, ou uma imagem.
[ Críton ] Sim, Sócrates, e não é a razão, simplesmente, que no primeiro caso, tudo o que há está atirado ao acaso, e desses outros já têm tudo organizado, cada um em seu lugar designado?

Muito bem (ele respondeu), ea frase implica que tudo está em arranjada ordem, não no primeiro lugar ao acaso, mas no qual pertence naturalmente.

[ Críton ] Sim, o caso é este ponto, que eu pondero envolver um outro princípio econômico.

[ Socrátes ] Do qual, então, se eu apresentar a ti uma terceira para contraste, que carrega a condição de escravos domésticos? Por um lado, você deve vê-lo rapidamente agrilhoado duramente, como poderia dizer, e ainda assim, sempre quebrando as suas celas e fugindo. Por outro lado, os escravos estão soltos e livres para se moverem, mas apesar de tudo, eles escolhem trabalhar, ao que parece; Eles são constantes a seus senhores. Eu acho que você admitiria que eu aqui saliente outra função da economia(3) digna de nota.
[3] Ou, "resultado econômico"
[ Críton ] Eu o faço, na verdade, uma característica mais notável.

[ Socrátes ] Ou tome, mais uma vez, o exemplo de dois agricultores envolvidos no cultivo de fazendas, como possível. O primeiro nunca havia afirmando que a agricultura tem sido a sua ruína, e está no profundo desespero; O outro tem tudo que ele precisa em abundância, e do melhor, e como adquiriu? Por essa mesma agricultura.

Sim (Críton respondeu), com certeza; talvez como há o suficiente em um caso, o dinheiro e as dores simplesmente sobre o outro que precisa, mas as coisas que causam o prejuízo abrigam igualmente os proprietários.

[ Socrátes ] Isso é um caso possível, sem dúvida, mas não é a única que eu me refiro; Quero dizer que as pessoas fingindo que são agricultores, e ainda assim elas não tem um centavo para gastar nas reais necessidades do seu negócio.

[ Críton ] E rogo-te, qual pode ser a razão disso, Sócrates?

[ Socrátes ] Você deve ir comigo e ver essas pessoas também; E quando você contemplar a cena, eu presumo que você colocará no coração a lição.

[ Críton ] Eu irei, se, eventualmente, eu puder, eu prometo a ti.

[ Socrátes ] Sim, e quando tu contemplares, você deverá fazer o julgamento por si próprio e verá se tu tens o discernimento para o entendimento. No momento, eu vou dar o testemunho de que, se ires e veres um grupo de atores executando uma comédia, você irá se levantar ao cantar do galo, e fará caminhando um longo caminho, e me dobrará voluvelmente com razões do por que eu deveria acompanhá-lo para ver o ato. Mas você nunca me convidou para ir e testemunhar um incidente como os quê estávamos falando agora.

[ Críton ] É assim que eu lhe pareço tão ridículo?

[ Socrátes ] Muito mais ridículo para si mesmo, garanto. Mas agora deixe-me recordar-lhe outro contraste: entre certas pessoas que lidam com cavalos, lhes trazem para a beira da pobreza, e alguns outros que não só obtiveram afluência pela mesma busca, e manteram a cabeça erguida, e bem pode se orgulharem de sua poupança, e têm direito, além da pluma sobre os seus ganhos.

[ Críton ] Bem, então, eu posso te dizer, vejo e conheço ambos os personagens, assim como tu; mas eu não me acho nem um pouco que me inclua entre aqueles que ganham.

[ Socrátes ] Porque tu olhas para eles, assim como tu olhas os atores de uma tragédia ou de uma comédia, e com a mesma intenção do seu objeto sendo para deliciar-te o ouvido eo charme para os olhos, mas não ti levarei a se tornar um poeta. E lá, tu tens razão suficiente, sem dúvida, uma vez que não tens nenhum desejo de se tornar-se um escritor. Mas, quando as circunstâncias o obrigam a se preocupar como criador de cavalos, isso não parece ser um pouco tolo a não considerar como se tu estivesses a escapar de ser um mero amador no assunto, tanto mais que as mesmas criaturas que são boas para uso serem rentáveis ​​na venda?

[ Críton ] Então você me deseja configurar-me como um criador de potros, não é, Sócrates?

[ Socrátes ] Não é assim, não mais do quê eu recomendaria a compra de rapazes e treiná-los desde a infância como trabalhadores de fazenda. Mas na minha opinião, há uma certo momento feliz de crescimento, que deve ser aproveitado, tanto no homem, como nos cavalos, rico no serviço presente e na promessa de futuro. Em outra ilustração, posso mostrar-lhe como alguns homens casados tratam suas esposas, de tal maneira que eles encontram nelas verdadeiras ajudantes para o aumento em conjunto da sua propriedade, enquanto outras tratá-los de uma maneira a trazer para si o desastre na maioria dos casos.

[ Críton ] Deveria o marido ou a esposa, suportar a culpa disso?

[ Socrátes ] Se ele vai mal com as ovelhas culpando o pastor, como regra, ou se um cavalo que mostra-se perdedor e jogássemos a culpa em geral sobre o cavaleiro. Mas, no caso das mulheres, supondo que a esposa tenha recebido instruções de seu marido e ainda assim ela se delicia com a injustiça, pode ser que a esposa justamente seja responsabilizada de culpa; Mas, supondo que ele nunca tenha ensinado-lhe os principais princípios de conduta de ser "justa e nobre"(4) e trata-a como um burro, desprovida esta de alto conhecimento nestas questões, certamente o marido vai ser com justiça responsabilizado de culpa. Mas vens agora (acrescentou), estamos entre amigos aqui; Faça uma confissão completa do mesmo, e diga-nos Críton, a plena verdade nua e crua: Existe alguma pessoa a quem você está mais habituado a confiar os assuntos de importância do quê a sua esposa?
[4] Ou, "coisas belas e de boa fama"
[ Críton ] Não há ninguém.

[ Socrátes ] E há alguém com quem você tem o hábito menor de conversar do quê com a sua esposa?

[ Críton ] Não muitos, eu sou forçado a admitir.

[ Socrátes ] E quando você se casou com ela, ela era muito jovem, uma mera menina, na idade em que, tanto quanto viu e ouviu, ela teve pouca familiaridade com o mundo exterior?

[ Críton ] Certamente.

[ Socrátes ] Então não seria mais surpreendente que ela devesse ter o real conhecimento de como falar e agir para que ela não ser completamente enganada?

[ Críton ] Mas deixe-me lhe fazer uma pergunta, Sócrates: Há esses maridos felizes, que tu nos dizes que são abençoados com boas esposas educadas?

[ Socrátes ] Não há nada como a investigação. Vou apresentá-lo a Aspasía, que irá explicar essas questões para você de uma maneira muito mais científica do quê eu poderia. Minha crença é que uma boa esposa, sendo que ela é a parceira em uma propriedade comum, devendo ser o contrabalanço do marido e contrapartida para o bem; uma vez que, se é através das transações do marido, como regra, que os bens de todos os tipos encontram o seu caminho para dentro da casa, no entanto, é por meio da economia da esposa que a maior parte das despesas, e é verificada sobre a questão de sucesso ou o mau uso do mesmo que depende o aumento ou empobrecimento de toda a propriedade. E assim no que diz respeito às artes e ciências restantes, acho que posso recordar-lhe que há artistas mais hábeis em cada caso, se você sentir que você tem qualquer necessidade de ajuda.
Aspasía [ Ἀσπασία c. 470 a.C. - c. 400 a.C. ] Influente na era Clássica de Athenas, amante e parceira do estadista Péricles. O casal teve um filho, Péricles, o Jovem, mas os detalhes completos do estado civil do casal são desconhecidos. De acordo com Plutarco, sua casa tornou-se um centro intelectual em Athenas, atraindo os escritores e pensadores mais proeminentes, incluindo Sócrates. Aspasía foi mencionado em escritos de Platão, Aristófanes, Xenofonte e outros autores da época. Embora ela tenha passado a maior parte de sua vida adulta na Grécia, alguns detalhes de sua vida são totalmente conhecidos.
Aspasía nasceu na cidade Jônica de Mileto, pouco se sabe de sua família, exceto o nome de seu pai, Axiochos, embora seja evidente que ela devesse ter pertencido a uma família rica, pois somente assim ela poderia ter sido proporcionada pela excelente educação que ela recebeu.


Eugène Delacroix (1798–1863) [ Aspasía - Ἀσπασία ] (1824) [ Musée Fabre / Montpellier ]
📄 Eugène Delacroix (1798–1863)
[ Aspasía - Ἀσπασία ] (1824)
[ Musée Fabre / Montpellier ]



Marie Bouliard (1763–1825) [ Auto-retrato como Aspasía - Ἀσπασία ] (1794) [ Musée des Beaux-Arts d'Arras ]
📄 Marie Bouliard (1763–1825)
[ Auto-retrato como Aspasía - Ἀσπασία ] (1794)
[ Musée des Beaux-Arts d'Arras ]



22 junho, 2016

[ ALCESTE ] Eurípides




Jean-François-Pierre Peyron [ Pintor Francês 1744- ] [ Alceste morrendo ] [ 1785 ] [ Museu Louvre ]
📄 Jean-François-Pierre Peyron [ Pintor Francês (1744, Aix-en-Provence, 1814, Paris) ] [ Alceste morrendo ] [ 1785 ] [ Museu Louvre ]



PERSONAGENS
APOLO
TÂNATOS (A Morte)
ADMETO, Rei de Feres
ALCESTE, sua esposa
EUMÉLIO, seu filho
HÉRCULES
FERES, pai de Admeto
CORO (de anciãos de Feres)
UM SERVO
UMA SERVA



A cena se passa diante do palácio de ADMETO, na cidade de Feres, na Tessália



APOLO

Ó palácio de Admeto, onde me vi coagido a trabalhar como servo humilde, sendo embora um deus, como sou! Júpiter assim o quis, porque tendo fulminado pelo raio meu filho Esculápio, eu, justamente irritado, matei os Ciclopes, artífices do fogo celeste. E meu pai, para me punir, impôs-me a obrigação de servir a um homem, a um simples mortal! Eis por que vim ter a este país; aqui apascentei os rebanhos de meu patrão, e me fiz protetor deste solar até hoje. Sendo eu próprio bondoso, e servindo a um homem bondoso, — o filho de Feres — eu o livrei da morte, iludindo as Parcas. Estas deusas prometeram-me que Admeto seria preservado da morte, que já o ameaçava, se oferecesse alguém, que quisesse morrer por ele, e ser conduzido ao Hades. Tendo posto a prova todos os seus amigos, seu pai, e sua velha mãe, que o criou, ele não achou quem consentisse em dar a vida por ele, e nunca mais ver a luz do sol! Ninguém, senão Alceste, sua dedicada esposa; e agora, no palácio, conduzida a seus aposentos nos braços de seu marido, vai desprender-se de sua alma, por quê é hoje que o Destino exige que ela deixe a vida. Eis por que, para não me macular, eu abandono estes tetos queridos. Vejo que já se aproxima Tânatos, a odiosa Morte, para levar consigo Alceste à merencória mansão de Hades. E vem no momento preciso, pois aguardava apenas o dia fatal em quê a mísera Alceste devesse perder a vida.


Entra TÂNATOS

TÂNATOS

Ah! Que procuras tu junto deste palácio? Que fazes aqui, Apolo? Queres ainda privar os deuses infernais das honras que lhes são devidas? Já não te basta haver desviado o destino de Admeto, iludindo as Parcas por meio de tuas artimanhas? E agora, com teu arco em mãos, zelas, talvez, pela filha de Pélias, que prometeu ao esposo morrer em seu lugar?


APOLO

Tranqüiliza-te! Nada pretendo, senão o que for justo e razoável.


TÂNATOS

Para quê, então, esse arco, se a teu favor tens a justiça?


APOLO

É meu costume tê-lo comigo sempre.


TÂNATOS

E proteger este palácio, desprezando as justas determinações do Destino...


APOLO

Afligem-me, com efeito, as infelicidades daqueles a quem amo.


TÂNATOS

E pretendes roubar-me esta segunda morte?


APOLO

Não foi pela violência que agi para contigo.


TÂNATOS

Como se explica, então, que Admeto esteja sobre a terra, e não sepultado nela?


APOLO

Porque deu, por si, a esposa, a quem vieste buscar agora.


TÂNATOS

Sim! E hei-de conduzi-la ao Hades subterrâneo!


APOLO

Toma-a, pois, contigo, e vai-te! Não sei se conseguiria convencer-te!


TÂNATOS

De quê? De que devo matar aqueles que devem morrer? Pois se é este o meu ofício!


APOLO

Não! Mas de preferir aqueles que tanto tardam em morrer!


TÂNATOS

Compreendo tuas razões; teu zelo és natural.


APOLO

Ainda bem! Dize, pois: haverá, por acaso, um meio pelo qual a pobre Alceste consiga chegar à velhice?


TÂNATOS

Ah! Não!... Faço empenho em defender minhas prerrogativas!


APOLO

Ao menos estou certo de que não arrebatarás daqui senão uma única alma!


TÂNATOS

Quando morre quem está na flor da idade, bem maior é a minha glória!


APOLO

Mas, se ela morresse quando idosa, teria um funeral mais sumptuoso!...


TÂNATOS

O que propões, Apolo, favorece aos ricos, tão somente.


APOLO

Que dizes? Por acaso aprendeste a raciocinar com tanta subtileza, sem que o soubéssemos?


TÂNATOS

Sim! Os abastados comprariam o direito de morrer em ancianidade.


APOLO

Tu me recusas, pois, a graça que solicito?


TÂNATOS

Recuso-a, sim. Bem conheces meu regime.


APOLO

Que é funesto aos mortais, e odioso aos próprios deuses!


TÂNATOS

Nada conseguirás daquilo que não deves conseguir.


APOLO

Tu moderar-te-ás, por muito cruel que sejas, eis que se aproxima um homem do palácio de Feres. É um herói, que Euristeu envia às longínquas regiões da Trácia, para apoderar-se dos cavalos de Diomedes; mui breve será recebido, como hóspede, no palácio de Admeto, e pela força, há-de te arrebatar a esposa. Assim, nenhuma gratidão te deverei; Tu não farás o quê eu não quero que faças, e não menos execrado serás por isso.


TÂNATOS

Dizes o que quiseres; nada mais terás de mim. Esta mulher descerá à mansão sombria de Plutão. Vou já preludiar, pela espada, o sacrifício; porque é imediatamente consagrado aos deuses infernais aquele cuja cabeça esta lâmina cortar um só fio de cabelo!


(Saem)

O CORO, em dois grupos compostos de anciãos de Feres

1º GRUPO

Por que tão profundo silêncio no vestíbulo deste palácio? Por que tão calmo está o solar do Rei Admeto?

2º GRUPO

Não se vê um só amigo que nos possa dizer se já é tempo de prantear a Rainha morta, ou se, ainda em vida, Alceste, a filha de Pélias, vê a luz do sol, ela, que se tem revelado a melhor esposa, a mais dedicada a seu marido!

1º GRUPO

Ouve alguém, lá de dentro, gemidos, prantos ou o angustioso atrito das mãos lamentando o golpe da fatalidade? Nem um só dos servos se vê junto ao pórtico. Praza aos deuses que Pã nos apareça, para dar um fim a tanta desventura!

2º GRUPO

Eles não conservariam tanto silêncio, se ela estivesse morta. Não creio que o corpo já tenha sido retirado do palácio!

1º GRUPO

Por que pensais assim? Nós nada percebemos! Como estais assim seguros do que dizeis?

2º GRUPO

Como teria Admeto podido realizar, em segredo, os funerais de uma esposa tão digna?

1º GRUPO

Não se vê, junto à porta, o vaso de água lustral, como é de costume colocar-se à entrada da casa onde há um morto; no vestíbulo não estão suspensos os cabelos, que os amigos, possuídos de dor, cortam de suas frontes, nem se ouve a triste lamentação das carpideiras.

2º GRUPO

No entanto, chegou o dia fatal...

1º GRUPO

Que dizeis?

2º GRUPO

O dia em que ela deve descer à sepultura!

1º GRUPO

Comoveste-me o coração, e o íntimo de minha alma. Quando criaturas bondosas estão imersas na dor, quem quer que tenha bons sentimentos deve dela compartir.

O CORO

Para onde quer que se envie uma galera ninguém poderá salvar a alma dessa infeliz; quer na Lícia, quer nas ardentes regiões de Ámon: porque o Destino é inexorável, e não tarda! Não sabemos a que deuses devemos recorrer, nem a que sacerdote pedir auxílio neste transe! Ah! Se vivesse ainda o filho de Apolo, poderia Alceste retornar ainda da sombria estrada que conduz à porta do Hades. Só ele ressuscitava os mortos, enquanto não foi fulminado pelo raio de Júpiter! Agora, porém, que esperanças de salvação poderemos conceber? Todos os ritos já foram cumpridos por nosso Rei; sobre as aras de todos os deuses realizam-se sangrentos sacrifícios; e não há remédio para a desgraça que o fere. Eis, porém, que uma das servas de Alceste vai sair do palácio, lacrimosa. Que nos dirá ela? É natural sua aflição, visto que seus senhores estão, também, sob o peso do infortúnio. Viverá, ainda, Alceste, ou não? Eis o que ansiosamente desejamos saber.


Entra A SERVA

A SERVA

Bem podeis afirmar que ela está, ao mesmo tempo, morta e viva!


O CORO

Mas como pode alguém estar na morte, e em vida ainda?


A SERVA

Porque, já com a cabeça pendida, ela vai entregar a alma...


O CORO

Ó infeliz Rei! Que boa esposa perdes tu, que és tão digno dela!


A SERVA

O rei não o saberá, senão depois de a ter perdido.


O CORO

E não há mais esperança alguma de lhe salvar a vida?


A SERVA

Infelizmente, o dia fatídico chegou.


O CORO

E já estão preparando as solenidades?


A SERVA

As vestes com que o esposo a inumará já estão prontas.


O CORO

Que ela saiba, pois, que tem morte gloriosa, sendo a melhor de todas as mulheres que têm existido sob o sol!


A SERVA

E como não seria a melhor das esposas? Quem o negará? Que outra mulher se lhe poderá avantajar? Que outra esposa faria mais por seu marido, do que oferecer-se para morrer por ele? Toda a cidade disso está ciente; mas vós tereis vossa admiração aumentada ao saberdes o que ela fez no interior do lar. Quando sentiu que era chegado o dia fatal, lavou o seu corpo alvíssimo na água do rio, e, retirando dos escrínios os seus mais belos ornatos, vestiu-se ricamente; depois, diante do altar doméstico, fez esta prece: “Ó Deusa! Vou para a região das sombras, mas quero venerar-te, pela última vez em minha vida, rogando-te que tenhas pena de meus filhos órfãos! Concede-me que um deles tenha uma boa esposa, e a outra, um digno marido. E que eles não morram, como sua infeliz mãe, antes do tempo fixado pelo destino, mas que vivam, felizes e prósperos, na terra da Pátria!” Em seguida, visitando todos os altares que há no palácio de Admeto, ela depositou sobre eles coroas de flores, esparzindo ao redor folhas de murta, e orou, sem um só gemido ou lamentação, porque a iminência do trespasse em nada alterou sua fisionomia plácida e bela. Depois, voltando à câmara nupcial, deixou-se cair sobre o leito; só então, com os olhos lacrimosos, disse: “Ó meu leito, onde perdi minha virgindade pelo amor deste homem, por quem hoje vou morrer! Não te lamento, porque somente a mim vais perder; e eu morro para ser fiel a meu esposo. Uma outra há-de te possuir, — quem sabe? — nunca mais casta do que eu, mas talvez mais feliz!...” E, agarrando-se ao leito, beijava-o, molhando-o com suas copiosas lágrimas. Assim aliviada pelo pranto, ergue-se, retira-se do aposento, com a cabeça baixa, para voltar várias vezes, e de novo atirar-se sobre o leito. Choravam os filhos, agarrados às vestes de sua mãe; e ela, tomando nos braços ora um, ora outro, beijava-os maternalmente, como quem sabe que vai morrer. Todos nós, servos, chorávamos, também, em nossos aposentos, condoídos da sorte da nossa Rainha. Ela estendia-nos a mão, em despedida, tendo uma palavra carinhosa para cada qual, por mais humilde que fosse. Tais são os males que afligem a casa de Admeto; se ele tivesse de perecer, já estaria morto; mas, tendo evitado a morte, sofre uma dor tamanha, que nunca mais a poderá esquecer!


O CORO

E Admeto deplora, certamente, a perda de uma esposa tão bondosa!


A SERVA

Sim, ele chora, tendo nos braços a companheira querida, e pede-lhe que não o abandone, desejo impossível agora! Sim, porque ela já se vai consumindo pelo mal, e pesa nos tristes braços do marido. Embora possa apenas respirar ainda, quer contemplar a luz do sol, que nunca mais lhe será dado rever, pois é a última vez em que os raios do astro do dia virão até seus olhos. Vou anunciar, porém, vossa chegada; pois nem todos se mostram tão dedicados ao seu chefe, para que o visitem na hora do infortúnio. Vós sois, porém, velhos e leais amigos de nosso Rei!


1º GRUPO

Ó Júpiter! Como fugir a tamanha desgraça? Que remédio haverá, para o golpe que ameaça os nossos soberanos? Virá alguém dar-nos notícia do que se passa? Deveremos cortar nosso cabelo, e vestir traje de luto? É certo que o faremos, amigos! No entanto continuemos a invocar os deuses! Imenso é o poder dos numes imortais!

*Significado de Nume [s.m. Divindade, poder celeste. Divindade mitológica. Gênio, espírito sobrenatural. Influxo, inspiração. Nume tutelar: espírito protetor. ]

2º GRUPO

Ó Rei Paian! imagina um meio para libertar Admeto de tamanha desgraça! Vem em seu socorro! Tu já o salvaste uma vez; Salva, agora, também, a Alceste! Livra-a do poder homicida de Plutão!

1º GRUPO

Oh! Oh! Filho de Feres, como te lamentas, privado de tua mulher! Não seria menor sofrimento a morte pelo gume da espada, ou por um laço fatal? Sim, porque verás hoje morrer uma companheira tão amada, a mais digna esposa que poderá existir no mundo!

2º GRUPO

Ei-la que sai do palácio, com seu esposo. Terra de Feres, chora, lamenta a perda desta excelente matrona, que, consumida pelo mal, vai descer à mansão soturna do Hades! Não! Nunca direi que o himeneu dê mais venturas do que dores; a julgar pelos dramas já passados e pelo destino deste Rei, que tendo perdido a melhor das esposas, arrastará doravante um viver que já não é mais vida!


Entram ADMETO e ALCESTE

ALCESTE

Ó sol, maravilhosa luz do dia! Ó nuvens que os ventos do céu velozes arrastam!


ADMETO

O sol te vê, e a mim também... Dois infelizes que nada fizeram contra os deuses, para que tu morras!


ALCESTE

Ó minha terra, ó meu ditoso lar, ó meu quarto de Iólcos, onde meu pai foi Rei!


ADMETO

Reanima-te, infeliz! Não te abandones, assim, ao desespero! Roga aos deuses poderosos, para que se compadeçam de ti!


ALCESTE

Eu vejo... eu já estou vendo... o sinistro barco de dois remos. O guia dos mortos, Caronte, já me chama: “Por que demoras tu? Caminha, pois, que me retardas!” E assim me força a apressar-me.


ADMETO

Ai de ti, que falas nessa dolorosa travessia! Infeliz Alceste, como sofremos!


ALCESTE

Estão me arrastando... Eu o sinto! Alguém me oprime... tu não vês? Arrastam-me para a mansão dos mortos... É Plutão!... ele mesmo!... Com suas asas... e seus olhos horrendos, cercados de negras sobrancelhas... Oh! Que fazes? Deixa-me! pobre de mim! Que caminho sombrio é este, por onde me conduzem?


ADMETO

... Um caminho doloroso para teus amigos, e mais ainda para mim, e para teus filhos, que partilham de meu desespero!


ALCESTE

Deixa-me! Deixa-me! Quero deitar-me... os pés já não me sustentam mais! O Hades está próximo... uma noite escura cai sobre meus olhos. Ó meus pobres filhinhos, já não tendes mãe!... Adeus, meus filhos... gozai a luz... a luz radiosa do dia!


ADMETO

Ai de mim! Ouço tristes palavras... mais dolorosas que a morte! Eu te peço, Alceste! Pelos deuses! Não me abandones! Pelos filhos que vais deixar na orfandade! Levanta-te! Tem esperança ainda! Se tu morreres, também eu não viverei mais! Estejas tu viva, ou não, eu dependo de ti por tudo, e sempre; O amor que tenho por ti é sagrado!


ALCESTE

Admeto, bem vês a que extremidade cheguei; Desejo, antes de morrer, que ouças o que te quero revelar. Amando-te sinceramente, e dando minha vida para que continues a ver a luz, morrerei por ti quando poderia viver por longo tempo ainda, receber por esposo aquele, dos tessálios, que eu preferisse, e habitar um palácio real. Mas recusei-me a viver privada de tua companhia, e a ver meus filhos sem pai; não me poupei, dispondo embora dos dons da mocidade e dos meios de os usufruir. Trairam-te teu pai e tua mãe, sim! Pois sua avançada idade lhes permitiria uma morte gloriosa, salvando o filho por um rasgo meritório. És, com efeito, o filho único que possuem; Após a tua morte, nenhuma esperança lhes seria possível, de ter ainda prole no futuro. E eu continuaria a viver, tu não sofrerias, por toda a vida, a falta de uma esposa, e não serias forçado a educar filhos órfãos de mãe... Mas um deus quis que as coisas tomassem este rumo... Seja! De tua parte, e porque sempre te hás-de lembrar disto, concede-me uma graça, em troca; Não igual à que te faço, pois não há bem mais precioso que a vida; mas justa, como tu mesmo reconhecerás. Tu amas a nossos filhos tanto quanto eu, se teu coração é sincero e honesto. Que sejam eles os donos de nosso lar! Não os submetas, nunca, à autoridade de uma madrasta, que seria certamente inferior a mim, e que, impelida pelo ciúme, maltrataria essas pobres crianças que são teus filhos, mas também são meus! Eu te conjuro: Não faças tal coisa! A madrasta que sucede à esposa é inimiga dos filhos do primeiro matrimônio, e em nada inferior a uma víbora! O filho varão tem, no pai, um protetor; corre para ele, e o pai o protege. Mas quanto a minha filha, como poderá ser honestamente educada durante sua virgindade? Ó minha filha! Que segunda esposa de teu pai mandará sobre ti? Receio bem que, lançando sobre tua reputação uma nódoa infamante, possa ela amargurar tua juventude, e impedir que realizes um ditoso casamento. Tua mãe nada poderá fazer pelo teu consórcio; Nem estará a teu lado quando vierem ao mundo teus filhos, quando não há companhia mais querida que a de uma boa mãe. Devo morrer; E este cruel trespasse não será amanhã, nem no terceiro dia do mês; mas dentro de alguns momentos já estarei incluída entre os mortos. Meu esposo, seja feliz... Tu bem te podes gloriar de ter possuído a mais amorosa das esposas, e vós, queridos filhos, de terdes tido a mais carinhosa das mães!


O CORO

Tranqüiliza-te, Alceste; Não tememos falar por ele; Ele cumprirá teu desejo, a menos que haja perdido a razão!


ADMETO

Sim! Tudo farei como pedes; Não tenhas receio! Tendo-te possuído em vida, continuarei a considerar-te minha esposa depois da morte. Nenhuma outra mulher tessálica me chamará de seu marido; Nenhuma, por mais nobre que seja sua jerarquia, e maior sua beleza! Só peço aos deuses que me permitam zelar por nossos filhos, visto que não me deram a ventura de conservar a ti também. Meu luto não durará um ano, mas toda a vida, ó minha esposa! E doravante detestarei minha mãe e meu pai, visto que se mostram meus amigos só no nome, mas não de coração. Tu, sim! Tu me salvaste, oferecendo o que tens de mais caro, — a vida! — para poupar a minha! E não devo eu chorar a perda de uma esposa como tu? Doravante não quero mais banquetes, nem festas animadas pela presença de amigos, nem coroas floridas, nem os cantos de alegria que guarneciam meu palácio. Nunca mais tocarão meus dedos as cordas da lira, nem minha voz se ouvirá ao som da flauta líbia; Tu levarás contigo todo o encanto de minha vida. Mas tua imagem, que farei reproduzir por um artista, há-de permanecer em minha câmara nupcial; E eu estarei a seus pés, eu a abraçarei, invocando teu nome, na ilusão de abraçar ainda minha querida esposa, embora sabendo que não a verei mais! Triste consolação, penso eu; Mas assim aliviarei minha alma; E, visitando-me em sonhos, tu darás algum conforto à minha viuvez. É grato, com efeito, rever aqueles a quem amamos, em quaisquer circunstâncias, inclusive em sonho. Ah! Se eu dispusesse da voz e da inspiração de Orfeu, a fim de acalmar a filha de Ceres, ou a seu marido, e retirar-te do Hades, eu lá iria ter, e nem o cão de Plutão, nem Caronte, o timoneiro das almas, com seu remo, poderiam impedir que eu te trouxesse de novo à região da luz! Ao menos, espera-me lá, para que, quando eu morrer, faça minha alma companhia à tua. Ordenarei, com efeito, que me sepultem contigo, no mesmo esquife de cedro, onde repousaremos, lado a lado! Nem a morte me separará de ti, que me foste tão fiel!


O CORO

E nós, como amigos que somos, partilharemos da saudade que ela te há-de inspirar, ela que é tão digna!


Entram os filhos de ADMETO e ALCESTE

ALCESTE

Meus filhos, ouvistes vosso pai, que assume o compromisso de não vos dar uma segunda mãe, e de não desonrar nosso leito conjugal!


ADMETO

Eu o juro; e hei-de cumprir a minha palavra!


ALCESTE

Com essa condição, recebe estes nossos filhos, de minha mão!


ADMETO

Recebo uma dádiva preciosa, de mãos amadas!


ALCESTE

E doravante, seja também, em meu lugar, a mãe destas crianças!


ADMETO

Assim farei, visto que serão destituídos do carinho maternal!


ALCESTE

Filhos meus, quando eu mais precisava viver, sou arrastada para a morte!


ADMETO

Ai de mim! Que farei sem ti!


ALCESTE

O tempo moderará tua dor; os mortos nada mais são...


ADMETO

Leva-me contigo, pelos deuses imortais!


ALCESTE

Não; basta que eu me sacrifique por ti!


ADMETO

Cruel Destino! De que esposa tu me privas!


ALCESTE

Sinto que meus olhos se velam de uma nuvem escura...


ADMETO Eu morrerei, Alceste, se me abandonares!


ALCESTE

Foge-me a vida... já nada mais sou...


ADMETO

Olha! Reergue-te! Não abandones teus filhos!


ALCESTE

É bem a meu pesar que os deixo... Adeus, meus filhos!


ADMETO

Um último olhar para eles! Ai de nós!


ALCESTE

Tudo se acabou para mim!


ADMETO

Que dizes? Tu nos vais deixar?


ALCESTE

Adeus!


(Morre ALCESTE)




Jean-François-Pierre Peyron [ Pintor Francês (1744, Aix-en-Provence, 1814, Paris) ] [ Alceste morta ] [ 1785 ] [ Coleção Privada ]
📄 Jean-François-Pierre Peyron [ Pintor Francês (1744, Aix-en-Provence, 1814, Paris) ] [ Alceste morta ] [ 1785 ] [ Coleção Privada ]



ADMETO

Estou perdido!


O CORO

Ela já não vive! Admeto não tem mais esposa!


EUMÉLIO

Como sou desgraçado, meu pai! Minha mãe foi para o Hades! Nunca mais verá a luz do sol! Infeliz, ela abandonou a vida, e deixou-me órfão! Vê, meu pai, como suas pálpebras estão imóveis, e suas mãos desfalecidas! Ó minha mãe! Minha mãe! Ouve-me! Ouve-me, eu te peço! Sou eu, minha mãe! Sou eu, teu filho! Fala! Teu filho é quem te chama, bem perto de teus lábios!


ADMETO

Tu chamas, em vão, por quem não te vê, nem te ouve mais. Fomos ambos vítimas de uma dolorosa desgraça!


EUMÉLIO

Tão jovem ainda, meu pai, eis-me abandonado por minha mãe querida! Como me sinto infeliz! E tu, minha irmãzinha, que partilhas de minha triste sorte! Ah! meu pai! Em vão, em vão escolheste uma esposa! Não atingiste, com ela, a velhice!... Ela te precedeu na sepultura! Contigo, minha pobre mãe, perece toda a nossa casa!


O CORO

Admeto, é mister que te conformes com a desgraça! Tu não és o primeiro dos mortais a perder uma esposa virtuosa! Bem sabes que a morte é uma dívida que todos nós devemos pagar!


ADMETO

Eu sei, eu bem sei! Este golpe não me feriu de surpresa! De há muito eu o esperava, e já sofria por isso! Mas... urge celebrar os funerais da morta. Auxiliai-me, e cantai um canto fúnebre ao deus subterrâneo, a quem não se oferecem libações! Que todos os tessálicos que vivem no meu reino tomem parte no luto por esta mulher, cortando os cabelos da fronte, e trajando-se de negro. Que também se cortem as crinas dos cavalos das quadrigas, bem como dos que cavalgam sós. Que não se ouça, por toda a cidade, o som das flautas e das cítaras, durante doze luas inteiras! Jamais levarei à sepultura pessoa que me tenha sido tão querida, e que mais haja merecido de mim! Ela é bem digna de que eu lhe preste todas as honras, visto que morreu, voluntariamente, em meu lugar!...


Saem ADMETO (conduzindo o corpo de Alceste) e os filhos.




O CORO

Ó filha de Pélias, descansa em paz na mansão do Hades, que a luz do sol não atinge! Que o deus de negros cabelos, e o velho Caronte, remador e guia, saibam que ela é a mais nobre de todas as mulheres que têm transposto o paul do Aqueronte, no barco de dois remos! Hão-de te celebrar os aedos por seus cantares, ao som do heptacórdio, e por vibrantes hinos não acompanhados pela lira, em Esparta, quando a ronda do tempo trouxer a lua cheia do mês Caineano, e na fértil e opulenta Atenas; porque tua morte dará copiosa e comovente matéria ao estro dos poetas! Por que, por que não poderemos nós restituir-te à luz, arrancar-te do sombrio reino de Plutão, e trazer-te, repassando o Cocito, na barca fatídica? Por que, ó mulher inigualável e esposa querida, só tu, só tu tiveste coragem de dar tua vida preciosa, para resgatar a de teu esposo? A terra te seja leve! Se algum dia teu marido convolar segundas núpcias, ele tornar-se-á odioso, a nós, e a teus filhos! Nem a mãe de Admeto, nem seu velho pai quiseram dar a vida pela do filho; deixaram nas mãos de Plutão aquele a quem puseram no mundo; recusaram-se a salvá-lo, eles, infelizes, cujos cabelos já branquearam! No entanto, na flor da idade, tu morres por teu jovem esposo. Possam os deuses conceder-nos esposas assim, para nossas companheiras! Preciosidade tamanha, mui raramente se encontra na vida. Elas seriam felizes conosco; e nossa vida transcorreria serena, sem uma nuvem!


Entra HÉRCULES

HÉRCULES

Ó habitantes de Feres, encontrarei eu Admeto neste palácio?


O CORO

Sim, Hércules! — O filho de Feres está em sua casa. Dize-me, porém: que é que te conduz ao país dos Tessálicos, e a nossa cidade?


HÉRCULES

Tenho a cumprir um dever imposto por Euristeu, de Tirinto.


O CORO

Qual é o teu rumo? Que viagem vais realizar?


HÉRCULES

Vou apoderar-me dos corcéis de Diomedes, o trácio.


O CORO

Como, porém, conseguirás tal coisa? Por acaso ignoras quem é esse estrangeiro?


HÉRCULES

Não o conheço; nunca estive na terra dos Bistônios.


O CORO

Não te apoderarás, sem séria luta, desses terríveis animais!


HÉRCULES

Mas não é lícito fugir ao cumprimento dessa obrigação.


O CORO

Terás que matá-lo, e voltar; ou por lá cairás morto.


HÉRCULES

Não será o primeiro combate que eu deva travar.


O CORO

E que ganharás tu, depois de vencer a Diomedes?


HÉRCULES

Levarei os cavalos ao rei de Tirinto.


O CORO

Não será fácil impor-lhes o freio!


HÉRCULES

Só se eles expelirem fogo pelas narinas!


O CORO

Eles despedaçam criaturas humanas com seus dentes vorazes!


HÉRCULES

A carne humana será alimento de feras, mas não de cavalos.


O CORO

Pois tu hás-de ver as cavalariças inundadas de sangue!


HÉRCULES

E, quem assim os sustenta, de que pai é filho?


O CORO

De Marte! Ele é rei da Trácia; rico, potente e belicoso.


HÉRCULES

Eis aí uma empresa digna de meu destino! É perigosa, mas visa um fim meritório. Terei de combater contra os filhos de Marte! Licaonte primeiro; depois Cicno; e agora, Diomedes com seus ferozes cavalos. Mas ninguém verá jamais, o filho de Alcmena tremer diante de inimigos!


O CORO

Eis aí o Rei desta cidade, Admeto, que sai de seu palácio.


Entra ADMETO

ADMETO

Salve, ó filho de Júpiter, e descendente de Perseu!


HÉRCULES

Eu te saúdo, Admeto, Rei dos tessálicos! Sê feliz!


ADMETO

Ah! Eu bem o quisera! Sei o quanto és benevolente para comigo!


HÉRCULES

Por que tens os cabelos cortados, e as vestes de luto?


ADMETO

É porque devo, ainda hoje, sepultar um cadáver.


HÉRCULES

Que os deuses afastem a desgraça de teus filhos!


ADMETO

Meus filhos estão vivos, em seus aposentos.


HÉRCULES

Se foi teu pai que morreu, já era bem idoso para isso!


ADMETO

Mas vive ainda meu pai, e também minha mãe.


HÉRCULES

Certamente não é Alceste, tua esposa, a morta?


ADMETO

Devo dar-te uma resposta dúbia...


HÉRCULES

Que dizes? Está ela viva, ou morta?


ADMETO

Ela é... e não é mais... e isso me enche de dor!


HÉRCULES

Não compreendo o que dizes; tuas palavras são obscuras para mim!


ADMETO

Não sabes do destino que ela terá de sofrer?


HÉRCULES

Sim; Sei que ela resolveu ceder a vida em teu lugar.


ADMETO

Como direi, pois, que ela exista, se consentiu tal coisa?


HÉRCULES

Oh! Não estejas a lamentar prematuramente a morte de tua esposa; espera o momento!


ADMETO

Quem deve morrer, já está morto; E quem está morto, já não existe...


HÉRCULES

No entanto, ser e não ser são coisas muito diferentes.


ADMETO

Tu pensas assim, Hércules; mas eu de modo muito diferente!


HÉRCULES

Afinal, por quem choras, tu, então? Qual de teus amigos morreu?


ADMETO

Uma mulher. É numa mulher que penso!


HÉRCULES

Uma estranha, ou pertence a tua família?


ADMETO

Uma estranha... mas muito ligada a mim, e a minha casa.


HÉRCULES

Mas como aconteceu que ela tenha vindo morrer em tua casa?


ADMETO

Seu pai morreu, e ela veio viver aqui, já órfã.


HÉRCULES

Oh! Como eu gostaria de não te encontrar assim lacrimoso!


ADMETO

Por que dizes isso, Hércules?


HÉRCULES

Porque sou obrigado a procurar hospitalidade em outra casa.


ADMETO

Isto não é permitido, Hércules! Que nunca me aconteça semelhante desgraça!


HÉRCULES

Um hóspede que chega inesperadamente é sempre uma sobrecarga para quem sofre uma aflição.


ADMETO

Os mortos, mortos estão. Entra em minha casa!


HÉRCULES

Será uma vergonha que pessoas amarguradas por um desgosto ofereçam um banquete a amigos.


ADMETO

Os aposentos dos hóspedes, para onde te conduzirei, ficam afastados.


HÉRCULES

Deixa-me seguir adiante; eu te ficarei grato.


ADMETO

Não! Tu não podes procurar abrigo em casa de outro. Olá, servo! Caminha na frente; abre os aposentos dos hóspedes, e avisa aos que são encarregados disso, que preparem abundante refeição. Vós outros: fechai as portas internas: não convém que os convivas ouçam nossos gemidos, e que nossos hóspedes se entristeçam com as nossas dores.


(Saem HÉRCULES e os servos)

O CORO

Que fizeste, Admeto? Como te animas a receber hóspedes, quando te acabrunha tamanha desgraça? Não terá sido uma insensatez de tua parte?


ADMETO

E se eu o repelisse de meu lar, e da cidade, por acaso aprovaríeis esse meu ato? Não, certamente! Minha dor não seria menor, e eu teria faltado ao cumprimento das leis da hospitalidade. Ao desgosto que já sofro, eu veria juntar-se outro, qual fosse o de ver minha casa considerada inóspita. Tenho tido nele um amigo dedicado e acolhedor, sempre que visito o árido país da Argólida.


O CORO

E por que razão não lhe revelaste a inteira verdade acerca de teus males, visto que, como dizes, é um amigo sincero que se acha sob teu teto?


ADMETO

Ele não consentiria em aceitar a hospitalidade que lhe ofereço, se soubesse de minha desventura. Sei que a muitos causará estranheza e reprovação o meu proceder; mas nunca se dirá que minha casa não se abriu para receber um amigo forasteiro.


(Sai ADMETO)

O CORO

Ó casa hospitaleira de Admeto, casa acolhedora e generosa, o deus Apolo, de harmoniosa lira, dignou-se viver sob teu abrigo, e não se envergonhou de passar por um modesto pastor, e assim apascentar, por estas colinas de ondulação suave, os seus rebanhos, modulando doces árias ao som da avena campestre. Seduzidos por estas melodias, ali vinha ter o tímido lince, de pele marchetada; das grotas do Ótris saíam, em grupos, os sanguinários leões; e o veadinho de listrado dorso ousava sair dos escuros da floresta para ouvir, de perto da lira, os deliciosos acordes. Graças a ti, ó Apolo, Admeto possui numerosos rebanhos que vivem ao longo das margens do lago de Bebei, de águas cristalinas; seus campos cultivados, e seus bosques verdejantes se estendem até longe no ocidente, e sua autoridade atinge do mar Egeu, às plagas inatingíveis do Pélios. Eis que ele se vê forçado a receber um hóspede enquanto chora ainda, debulhado em lágrimas, a morte da esposa muito amada, que acaba de exalar o último suspiro neste palácio... E isso lhe acontece, porque ele possui um coração nobre, e sabe prezar a amizade sagrada. São assim generosos todos quantos se orientam pela verdadeira sabedoria. Tenhamos confiança! O mortal piedoso há-de ter, sempre, o justo prêmio de sua virtude.


Entra ADMETO (Os servos transportam o ataúde)

ADMETO

Cidadãos de Feres! Vós, que aqui viestes para testemunhar-me vossa afeição, sabei que meus servidores já prepararam o cadáver conforme prescreve o rito, e agora o transportam até a pira funerária e ao perpétuo jazigo. Saudai também vós, conforme o costume, aquela que ora realiza sua derradeira viagem.


O CORO

Vejo teu pai, que caminha com o vagaroso passo da velhice, e os servos que trazem nas mãos os fúnebres ornamentos com que honramos os mortos.


Entra FERES

FERES

Aqui estou eu, meu filho, para partilhar de tua dor. Perdeste uma esposa virtuosa; ninguém o negará! Mas é preciso que te resignes a este golpe, embora seja penoso suportá-lo. Recebe estes ornatos, e deposita-os na sepultura. É dever que te incumbe, venerar a quem morreu para te salvar a vida, para que eu conservasse meu filho, e não consumisse a última fase da minha vida, ao abandono, e em luto. Com este rasgo de generosidade, ela deixou, para o sexo, uma glória imortal. Ó tu, que salvaste meu filho e poupaste minha velhice, adeus! Possas tu, mesmo no triste domínio de Plutão, gozar de algum conforto. Só as esposas como tu asseguram aos homens a ventura na vida; sem elas, o matrimônio seria uma inutilidade!...


ADMETO

Tu não foste convidado por mim a este funeral! Eu não te considero mais meu amigo, entre tantos que aqui estão presentes! Alceste não usará, nunca! Os ornatos que lhe trouxeste; Ela de ti nada precisa para descer à sepultura. Tu devias chorar, quando eu estava prestes a morrer; mas ficaste de longe, deixando que se sacrificasse outra mais jovem, velho como és! E agora vens carpir junto ao esquife! Não! Tu não és meu pai! E aquela que se diz minha mãe e que usa meu nome, não me concebeu! Talvez, filho de um ventre escravo, eu tenha sido furtivamente posto no regaço de tua mulher. Tu provaste ser quem realmente és! Creio, firmemente, que não sou teu filho! Tu sobrepujas a todos os homens pela covardia, visto que, em idade tão avançada, já no extremo de tua vida, não tiveste a coragem de morrer por teu filho, mas deixaste essa honra a uma mulher, a uma estrangeira, a quem eu considero minha mãe e meu pai! No entanto, a morte que terias, em lugar de teu filho, equivaleria a um triunfo, sendo curto o tempo que ainda te resta a viver! Alceste e eu viveríamos felizes o resto de nossos dias, e eu não lamentaria minha viuvez. No entanto, tudo o que um mortal poderia ambicionar, como felicidade, tu conseguiste: tua mocidade, tu a gozaste no trono; tinhas em mim um filho e herdeiro de teus estados, não receando pois, que por falta de um sucessor, viessem a cair em poder de estranhos. Nunca dirás, pois, que tendo desprezado a velhice, tu me abandonaste à morte; A mim, que sempre demonstrei tamanho respeito por ti! E eis a prova de gratidão que me destes, tu, e minha mãe! Trata, pois, de descobrir outros filhos que alimentem tua velhice, e que te prestem honras fúnebres, porque, quanto a mim, direi que meus braços nunca te levarão à sepultura; No que dependia de ti, estou morto; se encontrei uma pessoa que me salvou, a ela é que devo ternura filial. Mentem os velhos que a cada momento invocam a morte, queixando-se da velhice, e da longa duração da vida; pois se a morte se aproxima, ninguém quer morrer, e a velhice deixa de ser um doloroso fardo!


O CORO

Cessa! Cessa! Já não é bastante a desgraça presente? Não amargures ainda mais, Admeto, o coração de teu pai.


FERES

Filho meu, a quem injurias assim? Será por acaso a algum lídio, ou frígio, comprado por dinheiro? Não sabes que sou tessálico, filho de pai tessálico, e livre de nascença? Tu me ofendes em demasia! Mas, depois de me teres lançado tão violentas censuras, não ficarás impune! Dei-te a vida, e te eduquei, para que fosses, depois de mim, o chefe de meu patrimônio; Mas nunca me obriguei a morrer em teu lugar! Não há tradição dos antepassados, nem leis da Hélade, determinando que morram os pais pelos filhos. Feliz, ou não, que cada qual tenha o seu destino! Tudo o que me cumpria dar-te, tu recebeste de mim: reinas sobre numerosos súbditos, e eu te deixarei amplos domínios, que herdei de meu pai. Que ofensa te fiz eu, portanto? De que bem te privei? Não quero que morras por mim, mas também não quero morrer se é tua a vez. Se te apraz contemplar a luz, pensas que o mesmo não se dê comigo? Bem sei que longo tempo, muito longo tempo mesmo, eu permanecerei sob a terra; o que me resta da vida terrena é pouco, mas é doce! Tu, que te debateste vergonhosamente contra a morte, tu vives, sim; transpuseste o passo fatal, mas a custa de tua esposa! E agora censuras minha covardia, tu, infame, suplantado em coragem por uma mulher, que se deixou morrer por ti, belo rapaz! Descobriste um meio de evitar a morte; caso possas persuadir a todas as mulheres que contigo se casem, de que consintam em morrer, sucessivamente, em teu lugar! E insultas os amigos que a isso se escusam, quando tu mesmo evidencias tua falta de coragem! Cala-te, pois! E sabe que, se tens amor à vida, os outros o têm, igualmente! E se continuas a me ofender, ouvirás de mim terríveis e verdadeiros insultos!


O CORO

Basta de recíprocas afrontas! Cessa, ó velho, a repreensão que tão ruidosamente lanças sobre teu filho.


ADMETO

Podes falar, visto que também eu falei; mas se não queres ouvir a verdade, não devias ter procedido mal para comigo.


FERES

Maior mal eu faria, se viesse a morrer por ti.


ADMETO

Acreditas, então, que vem a ser o mesmo, morrer na mocidade, ou na velhice?


FERES

Cada um de nós tem uma vida somente; e não duas.


ADMETO

Pretendes, então, viver mais do que Júpiter?


FERES

E tu maldizes de teus pais, que nenhum mal te fizeram?


ADMETO

Compreendo que ambicionas uma longa vida.


FERES

E não estás conduzindo à sepultura um cadáver que ocupa o teu lugar?


ADMETO

Ela prova, homem covarde, ela prova a tua covardia.


FERES

Ao menos não te atreves a dizer que ela morreu para me poupar.


ADMETO

Ah! Tomara que um dia venhas a precisar de mim!


FERES

Casa-te com uma multidão de esposas, para que haja mais gente disposta a morrer por ti!


ADMETO

Seria ainda maior a tua vergonha, visto que não queres morrer.


FERES

Oh! Esta luz divina me é querida, muito querida!


ADMETO

São sentimentos vis, indignos de um homem!


FERES

Não gozarás o prazer de conduzir o meu velho corpo à sepultura!


ADMETO

Mas tu hás-de morrer um dia, e morrerás desonrado!


FERES

Depois de morto, pouco me importa que falem mal de mim!


ADMETO

Oh! Mas como a velhice é desbriada!


FERES

Esta mulher não foi desbriada, não; mas insensata!


ADMETO

Retira-te! Deixa-me amortalhar este corpo!


FERES

Eu me retiro! Amortalha tua esposa, de quem foste o matador. Terás, porém, que prestar contas aos parentes de tua mulher; Acasto, sem dúvida, não será um homem se não vingar em ti a morte de sua irmã.


ADMETO

Que tu vivas, ó velho, tu e aquela que habita contigo! Vivereis, como mereceis, sem filhos, embora eu viva ainda. Sim, porque não mais permaneceremos sob o mesmo teto. Ah! Se eu pudesse anunciar, por arautos, que renunciei ao lar paterno, eu o faria! Vamos nós, porém, levar este corpo à pira funerária!


O CORO

Ai de ti! Ó vítima de tua coragem! Ó tu, a melhor, e a mais generosa das esposas, adeus! Que os deuses subterrâneos te recebam com benevolência! E se lá, no Hades, se concedem recompensas aos justos, possas tu participar delas, ao lado da esposa de Plutão!


(Saem ADMETO e FERES)
Entra O SERVO

O SERVO

Tenho visto já, na verdade, muitos hóspedes vindos de diversos países, na casa de Admeto, e a todos tenho servido as refeições; mas palavra que nunca recebi hóspede mais brutal do que este! Apenas chegou, embora visse meu senhor em pranto, ele transpôs a soleira da casa! Em seguida, sabendo que nos aflige um grande desgosto, recebeu, sem moderação, as atenções hospitaleiras; E o que nós demoramos em trazer, ele exige que lhe seja trazido, em voz áspera de comando. Depois, tomando nas mãos uma enorme taça, cheia, guarnecida de hera, bebeu, em largos sorvos, do vinho mais puro, até que os vapores do álcool lhe subissem à cabeça; Isso feito, pôs uma coroa de ramos de murta e aos berros entoou um canto grosseiro. Ouviu-se então, uma dupla ária; porque ele cantava sem dar nenhuma atenção ao desgosto de Admeto, e nós, os servos, entoávamos uma elegia à memória de nossa Rainha, ocultando, porém, nossas lágrimas ao rude visitante, porque assim expressamente nos ordenou Admeto. E assim estou eu servindo um banquete a um estranho, que mais parece um salteador, ou bandido, ao passo que nossa rainha vai sair para sempre do palácio sem que eu possa acompanhá-la, nem estender-lhe a mão, chorando a perda de quem era uma boa mãe para todos nós, os seus servidores, porque ela nos poupou muitos males, acalmando a cólera de seu marido. Não tenho, pois, o direito de detestar esse hóspede, que surge agora, precisamente quando sofremos tamanha aflição?


Entra HÉRCULES

HÉRCULES

Olá! Por que esse ar tão grave e sério? Um servo nunca deve mostrar aos hóspedes uma cara de contrariedade: deve, sim, recebê-los sempre de maneira afável. Tu, porém, vendo neste recinto um sincero amigo de teu senhor, tu o recebes com fisionomia triste, e sobrancelhas carregadas, preocupado por algum motivo estranho. Vem cá: quero ensinar-te a ser mais delicado. Sabes tu, por acaso, de que natureza são os seres humanos? Creio que ignoras; com efeito, como poderias saber tal coisa? Ouve, pois: todos os homens são condenados a morrer, e não há um só que possa assegurar um dia que ainda estará vivo no dia imediato. O que depende da sorte nos é oculto; nada a tal respeito nos pode instruir, e nenhuma ciência jamais revelará. Portanto, convencido dessas verdades, que acabas de ouvir de mim, trata de gozar a alegria, de beber à vontade, de aproveitar a vida que passa; que fique o mais a cargo do Destino! Presta homenagem à Vênus, a deusa que maiores delícias concede aos mortais. Que deusa generosa ela é! Não cures do resto; segue meus conselhos, porque eu sei que são bons. Deixa essa melancolia, homem, e vem beber comigo! Transpõe esta porta, e coroa-te de flores! Estou certo de que o tilintar das taças afugentando-te a tristeza, há-de conduzir a um ditoso porto. Visto que somos mortais, convém que nos conformemos à condição das coisas mortais. Com efeito, a vida para os homens austeros e tristes, não é a verdadeira vida, mas um suplício, e nada mais!


O SERVO

Eu sei! Mas o pesar que sinto não me anima a rir, nem a tomar parte em festins.


HÉRCULES

Ouvi dizer que morreu uma mulher estrangeira; não te aflijas em demasia, visto que a gente da casa está viva, e com saúde!


O SERVO

Viva, como? Por acaso não sabes que desgraça caiu sobre esta família?


HÉRCULES

Então o teu senhor ter-me-ia iludido!


O SERVO

É que ele respeita muito, — muito mesmo! — os deveres de cortesia para com seus hóspedes.


HÉRCULES

Por acaso devia ele receber-me mal, por causa da morte de uma estranha?


O SERVO

Ah! Se ela pertencia, — e demais! — à família!


HÉRCULES

Houve, então, uma desgraça que Admeto não me quis revelar?


O SERVO

Sê feliz... A nós, os da casa, é que cabe acompanhar o nosso chefe em sua dor.


HÉRCULES

Pelo que dizes, não se trata de um luto de gente estranha...


O SERVO

Ah! Não! Se tal acontecesse, eu não estaria triste quando tu te entregavas aos prazeres do festim.


HÉRCULES

Oh! Com que então me teriam assim magoado os que me receberam?


O SERVO

Com efeito, tua visita não foi oportuna; Todos nós estamos de luto: vê estes cabelos cortados, e estas roupas escuras.


HÉRCULES

Mas... quem morreu? Um de seus filhos? Ou talvez seu pai?


O SERVO

Foi a esposa de Admeto que morreu. Ó! estrangeiro.


HÉRCULES

Que dizes tu? E apesar disso franquearam-me a hospitalidade?


O SERVO

Admeto não quis vedar-te, com essa notícia, o ingresso em sua casa.


HÉRCULES

Pobre Admeto! Que esposa tu perdeste!


O SERVO

Com ela, é como se todos nós morrêssemos!


HÉRCULES

Eu bem suspeitei disso, ao vê-lo com os olhos cheios de lágrimas e a fronte privada de cabelos; Mas ele destruiu a minha suspeita declarando que ia dar sepultura a uma estrangeira. Bem a meu pesar, pois, entrei nesta casa, comi e bebi à mesa de um homem generoso a quem amargurava uma dor profunda. Distraí-me num festim, e pus sobre a cabeça uma coroa de flores. Por que não me disseste que um golpe tão doloroso caiu sobre esta casa? Onde é a sepultura? Por onde devo ir, a fim de encontrá-la?


O SERVO

À margem da estrada que nos conduz a Larissa verás um túmulo de mármore, fora da cidade.


(Sai O SERVO)

HÉRCULES

Ó meu coração, que tanto já tens lutado! Ó minha alma! Mostremos hoje que filho a tirintiana Alcmena, filha de Electrion, deu a Júpiter! Sim! Eu devo salvar da morte esta mulher que acaba de morrer! Urge restituir Alceste a esta família, e provar assim minha gratidão para com Admeto. Irei ter com Tânatos, o negro soberano das sombras! Esperarei que ele se aproxime da sepultura, onde vai sugar o sangue dos finados! E se, preparando-lhe uma cilada, puder atirar-me sobre ele e agarrá-lo com a cadeia de meus braços, não há ninguém que dali o arranque, mesmo maltratado como estiver, enquanto ele não me restituir esta mulher! Mas, se a presa me fugir, se ele não vier saciar-se de sangue, ah! — então irei eu próprio aos Infernos, à sombria mansão de Prosérpina e de Plutão, exigirei Alceste, e estou certo de que a trarei de volta à terra, e a entregarei ao amigo acolhedor que tão bondosamente me recebeu em sua casa, não me repelindo, embora esmagado ao peso de tamanha desgraça, e ocultando conscientemente o seu luto, em consideração para comigo. Haverá na Tessália, haverá em toda a Grécia um mortal mais hospitaleiro? Nunca ele dirá que foi amigo de um ingrato, ele que se mostra tão generoso!


(Sai HÉRCULES)
Entra ADMETO

ADMETO

Ai de mim! Que triste regresso a meu lar! Como parece deserto este palácio! Ai de mim! Para onde irei? Que farei? Que hei-de dizer? Que devo calar? Oh! Se eu pudesse morrer também! Sim! Minha mãe trouxe-me ao mundo para sofrer! Como invejo a felicidade dos mortos; eu gostaria de habitar a sua triste região. A luz do sol não mais me encanta a vista, nem me agrada pisar na terra, depois que o cruel Tânatos me arrebatou um ente tão querido, para dá-lo ao Hades!


O CORO

Adiante! Adiante! Entra em tua casa!


ADMETO

Ai de mim!


O CORO

Digna de lástima é tua triste sorte!


ADMETO

Ai de mim!


O CORO

Bem sabemos quão pungente é tua dor!


ADMETO

Pobre de mim!


O CORO

Teu pranto de nada vale, para aquela que não mais vive!


ADMETO

Pobre de mim!


O CORO

Desgraça atroz, que nunca mais verás o rosto de tua esposa estremecida!


ADMETO

Tu recordas precisamente o quê mais me dilacera: Não há maior desgraça para um homem, do que perder uma esposa fiel! Prouvera aos céus que nunca eu tivesse trazido como esposa, a este palácio, a mísera Alceste! Invejo a sorte dos que não têm mulher, nem filhos... Possuem uma única alma, e sofrer por ela será um fardo suportável. Mas ver o sofrimento dos filhos, e ver devastado pela morte o leito nupcial, eis um espetáculo intolerável, quando se poderia ter vivido sem prole, e sem o matrimônio!


O CORO

Feriu-te o destino, cruel e inexorável!


ADMETO

Pobre de mim!


O CORO

E tua dor será eterna...


ADMETO

Ai de mim!


O CORO

Seja, embora, um fardo bem difícil...


ADMETO

Ai de mim!


O CORO

Deves resignar-te; não és tu o primeiro...


ADMETO

Ai de mim!


O CORO

Não foste o primeiro a perder uma esposa.


ADMETO

Pobre de mim!


O CORO

Várias são as desgraças que ferem os mortais!


ADMETO

Ó luto perene! Saudade cruel de um ser querido, que já não vive! Por que me impediram que me deixasse cair no túmulo e descansar, de uma vez, ao lado de minha esposa tão querida? Plutão teria tido não uma só alma, porém duas, atravessando o rio infernal.


O CORO

Viveu outrora em minha família um homem, cujo filho único, digno de veneração por suas virtudes, morreu. No entanto, ele suportou com resignação essa desgraça, que o deixava sem o filho, embora fosse ele já idoso, tendo a cabeça branca pendida, como quem busca a sepultura.


ADMETO

Ó muralhas de meu palácio! Como poderei eu voltar a teu recinto? Como hei-de viver, depois de tão rude mudança na minha vida? Oh! Que diferença! Outrora eu entrava nesta casa, iluminada por archotes vindos do Pélion, e ao som de hinos nupciais, conduzindo pela mão minha esposa querida. Junto a nós caminhava um jovial cortejo de amigos, celebrando a feliz união de dois cônjuges de nobre estirpe. Agora, ao invés de alegria, ouvem-se lúgubres lamentações; Em lugar dos véus de alvíssimo tecido, é o luto, com suas vestes negras, que me conduz à minha câmara nupcial deserta!...


O CORO

Foste ferido, em plena felicidade, por este rude golpe do destino, quando ainda não conhecias o sofrimento; Mas tu conservas a vida, ao passo que tua esposa jaz, morta, privada de tua ternura. Em verdade, nada de novo se vê em tudo isso... A morte já tem apartado muitos homens de suas esposas...


ADMETO

Amigos, em meu parecer, bem melhor do que a minha foi a sorte de minha mulher, embora outros pensem diversamente. Doravante, ela está isenta de todo o sofrimento; E libertou-se, gloriosamente, de muitas provações! Eu, porém, que já não devia viver, transpus o termo fatal, e arrastarei uma existência miserável. Eu bem o compreendo agora! Como terei ânimo de reentrar em minha casa? A quem vou falar? Quem me falará? Onde, e como, obter aquelas doces conversações? Para onde devo ir? A solidão me afugentará daqui, quando eu vir vazio o leito da esposa, e o trono que ela ocupava, e a boa ordem do palácio descurada... quando meus filhos vierem, a meus pés, lamentar a falta de sua mãe, e os servos a de sua Senhora. Eis o que me espera no interior de minha casa: Lá fora, a vista das esposas tessálicas, e das numerosas reuniões femininas, será para mim um motivo de terror, pois não terei coragem de contemplar uma só das companheiras de Alceste. E meus inimigos dirão: “Vede este homem, que arrasta uma existência de ignomínia, porque não teve ânimo para morrer! Em seu lugar deu a esposa, para livrar-se, covardemente, de Plutão! E ele se diz “um homem”... Detesta pai e mãe, mas recusou-se a morrer!” Tal será a reputação que há-de agravar o meu opróbrio e minha desgraça. Que valor terá, para mim, a vida, ó meus amigos, com uma fama tão ruim, e tão adversa fortuna?


O CORO

Alçou-me um dia a Musa, em suas asas, à região celeste, e de lá, depois de observar todas as coisas que existem, nada vi mais poderoso do que a Necessidade! Nem as fórmulas sagradas de Orfeu, inscritas nos estélios da Trácia, nem os violentos remédios que Apolo ensinou aos filhos de Esculápio, para que minorassem os sofrimentos dos mortais! Só ela, entre as deusas, não tem altares, nem imagens, a que possamos levar nossos tributos: nem recebe vítimas em holocausto. Ó temerosa divindade! Não sejas mais cruel para comigo, do que já tens sido até hoje! Tudo o que Júpiter ordena, és tu que executas sem demora; até o ferro dos Calíbios, tu vergas e dominas; E nada conseguirá abrandar teu coração inflexível! Tu, Admeto, a quem essa deusa potente oprime com sua força invencível, tem coragem! Não será pelos prantos e lágrimas que lograrás trazer à vida os mortos que já lá vão sob a terra. Também os filhos dos deuses irão ter, um dia, à tenebrosa mansão da morte! Alceste era querida por nós, quando vivia; E ainda a veneramos, depois de morta; porque aquela a quem tomastes por esposa era, por certo, a mais nobre das mulheres. Que o túmulo de tua esposa não se mostre igual a tantos outros; mas sim, que receba honras semelhantes às que tributamos aos deuses, e preitos de justa veneração dos viandantes. Que o peregrino exclame, sustando o seu caminhar: “Esta, que deu a vida pelo esposo, não deixará de ser uma divindade benfazeja!” E assim Alceste será saudada! Parece-nos, Admeto, que aí vem o filho de Alcmena; e já se aproxima de tua casa.


Paul Cézanne (1839–1906) [ Recuperando Alceste do Submundo ] [ 1867 ] [ Sammlung Keynes, Großbritanien ]
Paul Cézanne (1839–1906) [ Recuperando Alceste do Submundo ] [ 1867 ] [ Sammlung Keynes, Großbritanien ]



Entra HÉRCULES, acompanhado por uma mulher velada por um manto.

HÉRCULES

A um amigo leal, Admeto, devemos sempre falar com franqueza, nenhum ressentimento deixando oculto no coração. Eu, que, presente, vi que estavas desgostoso, supunha que, em qualquer hipótese, saberias pôr a prova minha amizade. No entanto, não me quiseste dizer claramente que o corpo exposto era o de tua esposa; E assim fui induzido a aceitar a hospitalidade em teu palácio, crente de que se tratava do trespasse de uma estrangeira. Coroei-me de flores, e fiz libações aos deuses, em tua casa, quando todos se achavam sob o peso da mais pungente desolação! Agora, sou eu que me queixo de ti; Eu, sim, que protesto contra o modo pelo qual agiste para comigo! Mas não quero agravar teu desgosto; vou dizer-te apenas o motivo que me fez voltar aqui. Toma sob tua proteção esta mulher; guarda-a, eu te peço, até que eu volte com os ferozes cavalos trácios, depois de vencer o Rei dos Bistônios. Se a sorte me for contrária (o que praza aos deuses que não me aconteça, pois muito lhes tenho pedido por um feliz regresso!) ela será tua, e habitará tua casa. Foi ao cabo de tremendo combate que ela caiu em meu poder. Compareci a perigosos jogos públicos, nos quais se ofereceram prêmios de alto valor aos vencedores; E eu trouxe esta mulher como recompensa por minha vitória. Para as pugnas mais simples, destinavam-se cavalos aos atletas vitoriosos; Para os combates mais rudes, para os tremendos pugilatos, davam bois; E, como prêmio de maior valia, esta mulher. Achando-me ali, por acaso, seria vergonhoso, para mim, esquivar-me à luta, e desprezar uma láurea tão gloriosa! Mas, como te disse, é mister que trates com todo o carinho esta mulher, porque a obtive, não por astúcia, mas por um esforço ingente. Talvez um dia tu me agradeças, por tudo o que fiz!


ADMETO

Não foi por desprezo para contigo, nem por qualquer outro sentimento inamistoso, que te ocultei a sorte ingrata de minha esposa; Mas seria, para mim, um desgosto, aumentando a dor sincera que eu já sofria, se tu fosses coagido a procurar hospitalidade em outro solar. Já é bastante a mágoa que nos angustia. Mas, se julgas possível isso. Ó! Hércules. Eu te peço que confies esta mulher a um outro tessálico que não tenha passado pelo golpe que me feriu; Tens muitos amigos entre os habitantes desta cidade. Não recordes minha desgraça... Eu não poderia conter as lágrimas, vendo esta mulher em minha casa... Não queiras agravar, com um novo desgosto, o que já sinto; Minha desgraça já basta! Onde poderia eu acolher esta criatura? Ela parece jovem, a julgar pelas vestes e ornatos que usa. Poderia ela viver entre os homens sendo casta como parece? Não é fácil, Hércules, dominar os impulsos da mocidade: assim advirto, em teu interesse. Dar-lhe-ei aposento na câmara de Alceste? Ah! Não! Eu mereceria uma dupla censura: A do povo, que me acusará de trair minha esposa, cedendo-lhe o leito a outra mulher, — e a da morta, que merece toda a minha saudade e toda a minha veneração. E tu, ó mulher, quem quer que tu sejas, como te assemelhas a minha querida Alceste pelo porte, pelo aspecto! Hércules, pelos deuses! Leva-a para longe de mim! Não queiras acabrunhar ainda mais a quem já está torturado pela sorte! Ao vê-la, creio ver minha esposa! Ela perturba meu coração e faz com que as lágrimas me rebentem dos olhos! Ó! Que infeliz sou eu! Vejo agora como será doloroso o meu luto!


O CORO

Eu não poderei congratular-me contigo, ó Rei, por teu destino, mas, seja quem for, deves receber a dádiva que os deuses te enviam.


HÉRCULES

Pudesse eu, Admeto, trazer-te de novo a esposa, arrancando-a da região do Hades para a luz do dia!


ADMETO

Bem sei que o farias, se pudesses; nenhuma dúvida tenho a tal respeito; Mas... como realizarias esse intento? Não é lícito aos mortos voltar à luz da vida...


HÉRCULES

Já te recomendei que não te excedas em teus queixumes. Suporta o mal com resignação!


ADMETO

É bem mais fácil exortar os outros a que se resignem, do que enfrentar o mal que nos aflige.


HÉRCULES

Que proveito terás tu, se te puseres a gemer pela vida a fora?


ADMETO

Sei que nada lucrarei; Mas o pranto é um alívio para o coração que se angustia.


HÉRCULES

Amar a uma morta é uma fonte perene de lágrimas.


ADMETO

Sua perda me mata, muito mais do que seria possível.


HÉRCULES

Tu perdeste uma esposa exemplar; quem o negará?


ADMETO

Precisamente por isso já não sinto alegria no viver.


HÉRCULES

O tempo abrandará teu desgosto, que por ora ainda sentes tão violento!


ADMETO

Ah! O tempo... tu dizes bem: o tempo significa a aproximação da morte!


HÉRCULES

Uma mulher, e o desejo de novo himeneu hão-de consolar-te um dia.


ADMETO

Cala-te! Que disseste, amigo? De ti eu não esperava tal coisa!


HÉRCULES

E por que não? Com que então não contrairás novas núpcias? Pretendes continuar na viuvez?


ADMETO

Mulher alguma partilhará de meu amor.


HÉRCULES

E acreditas que assim agradas aos *manes de Alceste?

Manes: Antepassados mortos elevados ao nível de deidades das famílias, um culto familiar fechado, praticamente uma religião para cada núcleo familiar.


ADMETO

Onde quer que ela esteja, faz jus à minha imperecível gratidão.


HÉRCULES

Aprovo teus sentimentos, Admeto; Mas haverá quem te acuse de loucura.


ADMETO

Jamais, ó mulher, terás em mim um esposo.


HÉRCULES

Eu te admiro e louvo, porque te mostras dedicado à memória de tua esposa.


ADMETO

Que eu morra, se algum dia a trair, mesmo depois de morta!


HÉRCULES

Está bem! Agora podes receber em teu lar esta criatura!


ADMETO

Oh! Não! Por Júpiter! A quem deves a vida!


HÉRCULES

Cometes grave erro, se a repelires.


ADMETO

Mas... se a aceitar, o remorso ferir-me-á o coração!


HÉRCULES

Ora, aceita-a; Vamos! Afirmo-te que esta dádiva é oportuna.


ADMETO

Prouvera aos deuses que nunca a houvesses tu recebido como prêmio de teu valor!


HÉRCULES

No entanto, tu mereceste, também, a vitória que obtive.


ADMETO

Dizes bem; Mas convém que se retire essa mulher.


HÉRCULES

Ela irá, se convier que vá; Mas primeiramente quero que me digas se ela deve ir.


ADMETO

Sim! Assim é preciso; A menos que isto te desagrade...


HÉRCULES

Só eu, realmente, sei a razão por que insisto desta maneira!


ADMETO

Em tais condições, eu cedo; Mas fica sabendo que o quê fazes, não me agrada.


HÉRCULES

Um dia virá, em que hás-de bendizer a minha resolução. Por agora, obedece, e verás.


ADMETO

(Aos servos) Levai-a ao interior do palácio; Visto que nos é forçoso recebê-la aqui.


HÉRCULES

Não! Não confiarei esta mulher a teus servos!


ADMETO

Nesse caso, tu mesmo a conduzirás, já que assim o queres.


HÉRCULES

Só em tuas mãos quero e devo entregá-la!


ADMETO

Não lhe tocarei no corpo; Mas ela pode entrar.


HÉRCULES

Já disse que só a deixarei em tuas mãos, amigo!


ADMETO

Hércules, tu me obrigas a assim agir, vou recebê-la, contra a minha vontade!


HÉRCULES

Então, estende a mão, e aperta esta desconhecida.


ADMETO

Eis aqui!... Estendo-lhe a mão, como se estivesse prestes a ver a cabeça da Medusa.


HÉRCULES

Já a tens, contigo, pois?


ADMETO

Sim, tenho-a comigo.

HÉRCULES

Pois então fica certo de que a guardarás contigo, e dirás sempre que o filho de Júpiter sabe ser um hóspede grato. (Retira o véu que cobre a mulher) Contempla-a, agora! Vê se não é, realmente, muito parecida com Alceste! Eis-te feliz, de novo, Admeto! Para longe, o luto e o desespero!


ADMETO

Deuses imortais! Que vejo! Que direi? Ó prodígio inesperado! Será verdadeiramente Alceste, a quem eu vejo, ou algum deus zomba de mim concedendo-me uma alegria ilusória?


HÉRCULES

Não! É Alceste, tua esposa, que tens diante de ti!


ADMETO

Cuidado, Hércules! Não será um fantasma egresso das regiões infernais?


HÉRCULES

Admeto, teu hóspede nunca foi um invocador de almas!


ADMETO

Então é... mesmo... minha esposa, aquela a quem eu já havia dado sepultura?


HÉRCULES

Sem dúvida! É ela própria! E não me admira que tu hesites em acreditar na tua fortuna!


ADMETO

Poderei então falar-lhe, como falava a minha esposa em vida?


HÉRCULES

E por que não? Fala-lhe, homem! Tu readquiriste, na verdade, o tesouro por que tanto suspiravas!


ADMETO

Ó doce olhar de minha esposa amada! Sim, és tu, na verdade! Contra toda a expectativa, eu te possuo de novo, eu... que supunha nunca mais te ver!


HÉRCULES

Sim, ela é tua! E faço votos para que os deuses não invejem tamanha felicidade!


ADMETO

Nobre filho de Júpiter, que a felicidade te acompanhe sempre! Que teu pai vele por ti! Só tu pudeste reerguer a minha vida, que a desgraça derruíra! Mas... como pudeste trazê-la do Hades à luz do dia?


HÉRCULES

Lutando contra a maléfica divindade que se apoderará de sua sorte.


ADMETO

Oh! Onde lutastes contra Tânatos, o nume terrífico da morte?


HÉRCULES

Bem perto da sepultura, onde dela me apoderei, sustendo-a nos braços.


ADMETO

E por que razão Alceste, rediviva, permanece muda e imóvel?


HÉRCULES

Não te será possível ouvir sua voz enquanto ela não for purificada de sua consagração às divindades infernais, e só ao romper do terceiro dia. Mas, faze entrar Alceste em tua casa; e conserva sempre, Admeto, o religioso respeito que tens pelas leis da hospitalidade. Adeus! Eu prossigo minha viagem, a fim de executar o trabalho que me foi imposto pelo filho de Esténelo!


ADMETO

Consente em ser meu hóspede por mais alguns dias!


HÉRCULES

Por agora é impossível. Devo apressar-me.


ADMETO

Sê feliz, Hércules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar! Que os cidadãos de Feres e todos os habitantes da Tessália celebrem este ditoso acontecimento por festas, e danças; Que em todos os altares a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratidão! Porque uma vida melhor se vai seguir a dias tão funestos! Adeus, Hérculesl Sê feliz!


O CORO

Os acontecimentos que o céu nos proporcionam manifestam-se sob as mais diversas formas; E muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; Muitas vezes o quê se espera, nunca sucede; E o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses. A volta feliz de Alceste é uma prova!


Fim



Charles Antoine Coypel (1694-1752) [ Hércules e Alceste ] [ c. 1750 ] [ Museu de Grenoble ]
📄 Charles Antoine Coypel (1694-1752) [ Hércules e Alceste ] [ c. 1750 ] [ Museu de Grenoble ]



[ Alceste ] Afresco Romano em Pompéia
[ Alceste ] Afresco Romano em Pompéia



Johann Heinrich Tischbein, o Velho, conhecido como Kasseler Tischbein, (1722-1789) [ Héracles devolve Alceste para Admeto ] (1780) [ bassenge.com ]
📄 Johann Heinrich Tischbein, o Velho, conhecido como Kasseler Tischbein, (1722-1789) [ Héracles devolve Alceste para Admeto ] (1780) [ bassenge.com ]



Cornelis van Poelenburgh (1594-1667) [ Apolo no Castelo de Admeto ] (c.1620) [ Galleria d'Arte Moderna, Firenze ]
📄 Cornelis van Poelenburgh (1594-1667) [ Apolo no Castelo de Admeto ] (c.1620) [ Galleria d'Arte Moderna, Firenze ]



Nicolas-Antoine Taunay (1755- 1830) [ Apolo Visitando Admeto ] [ Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro http://mnba.gov.br/portal/ ]
📄 Nicolas-Antoine Taunay (1755- 1830) [ Apolo Visitando Admeto ] [ Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro ]



19 junho, 2016

Que moral estas pessoas têm para pedir melhoria da educação?




mensagem
Por: [ Professora Aposentada Maria Angélica ]



"Sou professora aposentada e depois de tantas greves fico com vergonha do que vejo hoje. Fico pensando o quanto de egoísmo acumulado existe nas manifestações atuais. O país está mudando, estamos vendo através da Operação Lava Jato o nível de corrupção dentro das instituições políticas, descobrimos que votamos em pessoas que não têm moral para nos representar. Estamos ficando mais seletivos. Daí vem as greves e as ocupações e, analisando quem são estas pessoas que dizem lutar pela educação, pela saúde e tudo o que ansiamos, descobre-se que são pessoas que no dia a dia não fazem a sua parte. Quem deu a eles o poder de se dizerem nossos representantes? Na escola que trabalhei até dois anos atrás houve uma assembleia e a maioria decidiu não fazer greve pois não acredita mais neste tipo de manifestação. Mas mesmo assim estão há um mês sem trabalhar porque a escola foi ocupada. Pasmem! Os alunos que fizeram a ocupação são os piores alunos da escola, dito por todos os professores e pelos próprios colegas. Pessoas que passam mais tempo fora do que dentro da sala de aula, que quando resolvem entrar em aula mais perturbam do que estudam. Apoiados por dois dos piores profissionais que a escola já teve, por alunos da UFRGS e representantes de partidos de esquerda. Fico pensando que moral estas pessoas têm para pedir melhoria da educação? São meros robôs dos partidos de esquerda e de adultos inescrupulosos que descumprem as leis."

14 junho, 2016

«Hipparchia/Hipárquia por Diógenes Laércio in Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes VI.96-98»

«ó [...] mas pareço-te ter deliberado mal acerca disto, se o tempo que eu havia  de me consumir no [ Trabalho Doméstico ],  esse o usei integralmente  para a minha educação». Hipparchia/Hipárquia  por Diógenes Laércio in Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes VI.96-98



Pintura romana retratando Hipárquia e Crates da Villa Farnesina, Roma

Pintura romana retratando Hipparchia/Hipárquia e Crates da Villa Farnesina, Roma.


Também Hipparchia/Hipárquia, irmã de Metrócles{1}, foi caçada pelos argumentos [dos cínicos]. Ambos eram de Maroneia{2}. Também ela se apaixonou por Crates [filósofo cínico]{3} e pelas suas palavras e vida, voltando costas a todos os pretendentes, à sua riqueza, nobreza e beleza. Crates era tudo para ela. Ameaçava inclusive os pais dizendo que se mataria, se não lhe [a Crates] fosse dada em casamento. Crates, tendo então sido chamado pelos pais dela para demover a filha, tudo fazia. Por fim, incapaz de a persuadir, tendo-se levantado e despido as suas roupas diante dela, disse: «Eis o noivo e os seus bens. Considera estas coisas, pois ele não será teu companheiro, se não te tornares também tua companheira dele nos seus estudos e modo de vida».

A menina fez sua escolha e ocupando o mesmo estilo de se vestir como o seu, ela fez as rondas com o marido, aderindo a ele em público, {4} e saiu para jantar com ele. Uma vez que ela tinha ido para casa de Lysimachus para um simpósio, e enquanto lá, ela confundiu Theodorus, apelidado de Ateu, postulando o seguinte argumento:

Se não é errado para Theodorus fazer um ato particular,
então não é errado para Hipparchia fazê-lo.
Se Theodorus bate em si mesmo, ele não faz nada errado,
portanto, se Hipparchia bater em
Theodorus, ela não faz nada de errado também.

Ele não tinha resposta para isso, e tentou puxar seu manto. {5} Mas Hipparchia se recusou a ser intimidada e não entrou em pânico como uma mulher. Porém, quando ele [Theodorus, o Ateu] lhe falou: «É esta/aquela que abandonou a roca junto ao fuso? [ Trabalho Doméstico ]», «Sou eu», disse ela, «ó Theodorus, mas pareço-te ter deliberado mal acerca disto, se o tempo que eu havia de me consumir no tear, esse o usei integralmente para a minha educação?». E estas e também outras tantas coisas [se contam] da filósofa.


Diógenes Laércio em sua obra Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes VI.96-98
• {1} Metrocles, na seção anterior (VI.94), foi introduzido como "irmão de Hipparchia". Ele também se tornou um cínico e discípulo de Crates. Crates era um filósofo cínico Tebas.
• {2} Maroneia - Uma grande cidade na costa da Trácia
• {3} Os cínicos desprezavam a riqueza e nobreza no nascimento. Crates, ele próprio, estava longe de ser bonito, tanto que as pessoas zombavam dele, vendo-o fazer seus exercícios (DL VI.91).
• {4} Isso pode significar que eles tiveram relações sexuais em público. Para as práticas sexuais de Diógenes, o Cínico{6} ver DL VI.69, VI.46, e VI.72. Ele disse ter praticado "tudo em público, tanto as obras de Deméter e os de Afrodite". Quando Pasicles, filho de Hipparchia e Crates, chegou a idade, seu pai o levou para a casa de uma prostituta e lhe disse: "isto é como o casamento do seu pai era" (DL VI.88 ).
• {5} Um gesto bastante rude, já que ele queria expô-la. Cf. DL VI.46, onde Diógenes, o Cínico, recusou-se a responder a uma pergunta feita a ele por um adolescente com vestido "brilhante", ele levantou sua capa para ver se ele era um homem ou mulher.
• {6} Diógenes de Sinope [ Διογένης ὁ Σινωπεύς; Sinope ], 404 ou 412 a.C., também conhecido como Diógenes, o Cínico, filósofo da Grécia Antiga. Os detalhes de sua vida são conhecidos através de anedotas ( chreia ), especialmente as reunidas por Diógenes Laércio em sua obra Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes. Diógenes de Sinope foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto.


Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme de 1860

Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme de 1860.


19 abril, 2016

Zhou Ru Xian [ Mulheres Admiráveis ]

"Eu não tenho qualquer esperança mais"
Zhou Ru Xian

Zhou Ru Xian, cuja filha de 24 anos de idade morreu em 2013. Pais enlutados estão exigindo mais compensações do governo da China, culpando a política de "filho único" agora extinta de rouba-lhes a chance de ter mais filhos.

Zhou estava entre aqueles em um protesto Beijing destacando a questão na terça-feira. Centenas de policiais depois conduziram muitos dos manifestantes em autocarros.

Ver:
« "Eles usaram a sua faca de poder para matar tantos bebês em gestação." »

« [ Trecho ] » "Não havia nenhuma dignidade. Para animar-nos para cima, no caminho que amaldiçoávamos as pessoas que nos empurravam, ou cantávamos canções."

"Mas era o trabalho deles, não eta? ", Perguntei.

"Ninguém os forçou a fazer esse trabalho, e eles sempre podiam fechar os olhos", ela respondeu.

"Eles usaram a sua faca de poder para matar tantos bebês em gestação."

Na primavera de 1988, a minha mãe secretamente tirou o anel intra-uterino, mas ela ainda não podia escapar do controle físico regular. Estes foram os anos em que a política do filho único foi aplicada de forma estrita, e minha mãe tinha que pensar em uma saída. Assim, durante o controle físico, ela usava um casaco longo. Ela colocou um anel de ferro em seu bolso, e ajustou o bolso para a posição exata em que o anel intra-uterina deveria estar. A foto mostrava um certo anel onde era suposto ser - uma incorreção da baixa tecnologia, mas funcionou perfeitamente.

Ela ficou grávida.

« [...continua...] »



11 março, 2016

Élisabeth Louise Vigée Le Brun: Artista na França Revolucionária

| Élisabeth Louise Vigée Le Brun (francesa, 1755-1842) |
| Maria Antonieta em vestido da Corte | 1778 |
| Museum Kunsthistorisches Gemäldegalerie, Viena |

liberdade


Elisabeth Louise Vigée Le Brun foi uma das melhores pintoras francesas do século XVIII, e uma das mais importantes de todas as mulheres artistas. Autodidata com habilidades excepcionais como retratista, ela alcançou o sucesso na França e na Europa durante um dos períodos turbulentos e mais agitados da história européia.

Em 1776, ela se casou com um negociante de arte levando-a à Paris; impedia de ser aceita na prestigiada Academia Real de Pintura e Escultura, através da intervenção de Maria Antonieta, foi admitida em 1783, com 28 anos, tornando-se uma das quatro membros do sexo feminino. Obrigada a fugir da França em 1789 por causa de sua associação com a Rainha, viajou para a Itália onde em 1790 foi eleita membro da Accademia di San Luca, em Roma, trabalhou em Florença, Nápoles, Viena, São Petersburgo e Berlim antes de voltar para a França, tendo sessões de, entre outros, com membros das famílias reais de Nápoles, Rússia e Prússia. Ela foi notável não só pelos seus dotes técnicos, mas por sua compreensão e simpatia com seus assistentes. Esta é a primeira retrospectiva e apenas a segunda exposição dedicada a Vigée Le Brun nos tempos modernos. As 80 obras em exibição incluem pinturas e alguns pastéis de coleções públicas e privadas, européias e americanas, mais no link.

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05 março, 2016

Marie-Sophie Germain [ Mulheres Admiráveis ]

Marie-Sophie Germain
Marie-Sophie Germain [ Revolucionária Matemática ]
Data de Nascimento: Paris, 01 de abril de 1776
Morreu em: Paris, 26 de junho de 1831

Por todas as contas, Marie-Sophie Germain era uma criança um pouco retirada, a segunda das três filhas de um comerciante de seda parisiense, Ambroise-François Germain. Uma das irmã se casou com um funcionário do governo ea outra com um médico. Marie-Sophie Germain nunca se casou, viveu em casa toda a sua vida perseguindo seus estudos matemáticos com o seu mandato biográfico "paixão ilimitada e devoção." Seu primeiro biógrafo, um matemático italiano chamado Libri, é a fonte de duas histórias contadas sobre Germain que parecem enquadrar sua personalidade.

Com 13 anos de idade, enquanto a conversa da Revolução rodova em sua casa, ela retirou-se para a biblioteca do pai. Lá, ela leu sobre Arquimedes, tão absorto em seus pensamentos matemáticos que ignorava um invasor romano de Siracusa, que logo a seguir o matou. Ela pode ter visto na matemática de Arquimedes "um ambiente onde ela também poderia viver intocada pela confusão da realidade social." Ela estudou matemática por conta própria, e Libri relata que seus pais eram tão contrário ao seu comportamento que levaram ela a estudar à noite. Eles responderam, deixando o fogo apagado das velas. Marie-Sophie Germain estudou de qualquer maneira, enrolada em cobertores à luz de velas contrabandeadas. Com a criação em 1795 da Ecole Polytechnique, em qual as mulheres não podiam participar, Marie-Sophie Germain fez amizade com os alunos e obteve suas provas de aula. Ela apresentou um livro de memórias matemáticas a J. L. Lagrange sob o nome de um estudante do sexo masculino, Monsieur Antoine-August Le Blanc. Lagrange viu talento no trabalho, procurou o autor, e descobriu que tinha sido escrito por uma mulher. Ela continuou a estudar, o que corresponde com os principais matemáticos de hoje em dia.

Seu trabalho matemático mudou a teoria dos números para a matemática aplicada. Em uma ocasião ela fez uma demonstração para um visitante em Paris, » Ernst Florens Friedrich Chladni «, dos padrões curiosos produzidos em pequenas placas de vidro cobertas com areia, como se as placas fossem violinos, usando um arco. A areia se movia até atingir os nós, e a matriz de padrões resultantes da "brincadeira" de diferentes notas causou grande excitação entre os polímatas parisienses.

Foi a primeira "visualização científica" do movimento harmônico bidimensional.

Aos vinte anos, interessada pela teoria dos números, e desejando discutir suas idéias com um teórico dos números, escreveu para Carl Friedrich Gauss, considerado o Príncipe dos Matemáticos. Embora já tivesse uma certa reputação em Paris, temendo não ser levada a sério por ser mulher, voltou ao pseudônimo, assinando suas cartas como Monsieur Le Blanc. Sua verdadeira identidade foi revelada quanto o imperador Napoleão, em 1806, invadiu a Prússia, o que levou Marie-Sophie Germain a solicitar ao general encarregado das tropas invasoras que garantisse a segurança de Gauss. Tendo tomado conhecimento de que devia sua vida a uma certa Mademoiselle Marie-Sophie Germain, perguntou quem era sua salvadora. Marie-Sophie Germain revelou sua verdadeira identidade. Longe de ficar aborrecido com o engano, Gauss escreveu-lhe dizendo de sua surpresa e satisfação por encontrar-se frente a um “inacreditável exemplo” de uma mulher matemática. E termina dizendo “... nada poderia provar-me, de maneira tão lisonjeira e inequívoca, que as atrações desta ciência que enriqueceu a minha vida com tantas alegrias não são uma quimera, quanto à predileção com que você me honrou”.
Marie-Sophie Germain

Napoleão autorizou um prêmio extraordinário para a melhor explicação matemática do fenômeno, e o anúncio de um concurso foi emitido. A inscrição de Marie-Sophie Germain foi a única. Enquanto ela continha falhas matemáticas que foram rejeitadas, a sua abordagem estava correta. Todos os outros candidatos possíveis no concurso eram prisioneiros do paradigma dominante, a consideração da estrutura molecular subjacente teorizada para materiais. As metodologias matemáticas adequadas à vista molecular não poderiam lidar com o problema. Mas Marie-Sophie Germain não estava tão sobrecarregada. Vários matemáticos ajudaram a levar a cabo uma nova aplicação, e ela ganhou o prêmio em sua terceira tentativa, em 1816. O prêmio público deu-lhe alguma atenção. Mas seu gênero a manteve...

"sempre do lado de fora, como um estrangeiro, a uma distância a partir da cultura científica profissional."

Posteriormente, iniciou uma carreira na física, disciplina na qual, mais uma vez, tornar-se-ia brilhante, apenas prejudicada pelos preconceitos existentes. Fez importantes contribuições que firmaram os fundamentos para a moderna teoria da elasticidade. Como resultado de suas pesquisas com os números primos e seu trabalho com o Último Teorema de Fermat, ela recebeu uma medalha do Instituto de França e se tornou a primeira mulher que, não sendo a esposa de um membro, podia participar das conferências da Academia de Ciências.

Talvez apenas um gênio solitário como Marie-Sophie Germain fosse constituída para prosperar em tal isolamento, deixando uma obra de intelecção pura como um farol para as gerações posteriores de mulheres que ousaram fazer matemática para a alegria dela.
Marie-Sophie Germain